O hidrogénio debaixo dos nossos pés
No caso do hidrogénio, os desafios são complexos porque
pouco se sabe sobre a interacção entre o gás e a rocha e os seus efeitos ao
longo do tempo. Desconhecem-se as localizações mais favoráveis para o seu
armazenamento em território nacional, as vantagens, limitações e o volume de
cada um destes potenciais alvos.
Leonardo Azevedo
Professor
Auxiliar do Departamento de Engenharia Civil, Georrecursos e Arquitectura do
Instituto Superior Técnico e investigador do Centro de Recursos Naturais e
Ambiente
4 de Setembro de
2021, 9:21
https://www.publico.pt/2021/09/04/p3/cronica/hidrogenio-debaixo-pes-1976169
Conhecido nas
últimas semanas, o último relatório do Painel Intergovernamental para
as Alterações Climáticas (IPCC) é claro: atingir as metas do Acordo de
Paris assinado em 2015 é uma miragem. Não é alarmismo. É o amanhã a
acontecer hoje. São as consequências das alterações climáticas
a afectarem o nosso quotidiano com uma velocidade avassaladora.
Os eventos extremos a acontecer são cada vez mais frequentes. É isto que o
historial de dados das últimas décadas, com a variação temporal de
diversas variáveis climáticas, nos diz.
São eventos que,
sabemo-lo hoje, estão indubitavelmente relacionados com a crise
climática que atravessamos. No Verão que agora termina são exemplos
os incêndios de grandes dimensões que afectaram os países do Sul da
Europa, a costa Oeste dos Estados Unidos e a Sibéria, as cheias que inundaram
os países da Europa central durante o mês de Julho, ou o furacão Ida,
que recentemente atingiu a Costa do Golfo dos Estados Unidos da América.
Mais do que
nunca, é tempo de concretizar a tão desejada transição energética. Converter
a actual matriz energética numa mais verde, menos dependente de
fontes energéticas poluentes, como o carvão e o petróleo, e que tenha uma maior
percentagem de fontes de energia renovável. É premente uma mudança à
escala global, onde as partes cumpram o seu papel.
A julgar pelos
anúncios do Governo nos últimos meses, a estratégia nacional para a transição
energética terá como um dos seus principais motores a produção de energia
através de hidrogénio verde. Hidrogénio verde significa que a energia
fornecida ao processo químico que permite separar os átomos de hidrogénio
e oxigénio presentes na água (electrólise) tem origem em fontes de
energia renováveis.
Apesar de o hidrogénio
ser há muito utilizado como combustível para veículos, e de gerar emissões em
muito menores quantidades do que as produzidas por combustíveis fósseis, a sua
implementação a grande escala é ainda um desafio. Estes desafios não se
circunscrevem à tecnologia relacionada com a produção e utilização do
hidrogénio de forma eficiente. É frequentemente ignorada
outra parcela desta mesma equação. Dependendo do consumo energético
num determinado momento, o hidrogénio verde pode ser armazenado para posterior
utilização, quando a quantidade produzida através de fontes renováveis for
menor do que a necessária para consumo.
Uma das soluções
de armazenamento com maior potencial, por ser possivelmente mais segura e
fiável ao longo do tempo, é o seu armazenamento no subsolo. Para que isso
aconteça é necessário desenvolver a tecnologia para a sua injecção a
várias centenas de metros de profundidade e conhecer locais da subsuperfície
que funcionem como armadilhas geológicas, que não deixam o gás escapar até à
superfície após ser injectado. Por outras palavras, onde as rochas do
subsolo tenham espaço para guardar este fluído para que fique aprisionado
no seu interior por longos períodos.
Este será um
processo de armazenamento semelhante ao que já acontece com o gás natural e com
o dióxido de carbono. O armazenamento de dióxido de carbono no subsolo
contribui efectivamente para a diminuição deste gás na atmosfera e é
hoje uma realidade em vários países, sendo o Mar do Norte, e em particular
o sector norueguês, um caso de sucesso nesta matéria.
A estratégia para
a transição energética é multidimensional e multidisciplinar. Resumir a
narrativa à capacidade de produzir hidrogénio sem acautelar o seu
armazenamento estratégico poderá vir a revelar-se uma limitação importante
para os objectivos que todos queremos alcançar. No caso do
hidrogénio, os desafios são complexos porque pouco se
sabe sobre a interacção entre o gás e a rocha e os seus
efeitos ao longo do tempo. Desconhecem-se as localizações mais favoráveis
para o seu armazenamento em território nacional, as vantagens, limitações
e o volume de cada um destes potenciais alvos.
O conhecimento
científico e técnico para abordar estes tópicos existe nas universidades e
centros de investigação que há muito se dedicam ao desenvolvimento de métodos
para a caracterização e modelação dos recursos energéticos
da subsuperfície. Uma estratégia nacional de sucesso para a transição
energética passará também por aproveitar estes recursos.

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