Sofia Madureira
Psicóloga Clínica, Neuropsicóloga Investigadora IMM/FML
Lisboa
Lisboa poderia ter aprendido com Veneza. Barcelona.
Paris. Ter regulado melhor. Não se ter deixado ficar refém de fundos
imobiliários especulativos e hostis para quem nela vive e trabalha.
04 set 2021,
00:10
Escolhi viver e
trabalhar em Lisboa, cidade que amo. Aprendi a amá-la. Quando saí do Lobito
inesperadamente e vim para Portugal, foi Lisboa que me recebeu.
Vivi então numa
rua de dois sentidos e muito movimento, onde as crianças não brincavam, uma rua
suja e ruidosa por comparação com a rua de casario baixo de frente para o mar
em que tinha vivido até aí.
Foi em Lisboa que
entrei para a primária. Uma escola modelo, com lanche e aulas de natação na
piscina do Técnico. A minha avó levava-me à escola, a pé. Um dia após outro,
passo a passo, casa, escola, Técnico, mais o privilégio de ter acesso ao
Coliseu onde podia ver tudo até o que não queria e aos meus olhos infantis era
uma seca, fui-me fazendo pessoa nesta cidade.
Cresci a andar de
metro para ir ao dentista ou às consultas no hospital, a descer as escadas para
me sentar, sozinha, nas matinées do cinema Star a ver os filmes de Louis de
Funès ou as aventuras de Astérix; a sentir aquela leve vertigem no segundo
andar do autocarro, daqueles autocarros verdes, na subida da Rua da Madalena
sem saber se conseguíamos chegar ao fim: algumas vezes, o autocarro deitava
fumo e parava, obrigando-nos a subir o resto a pé… eu gostava tanto.
Há, na cidade,
esta facilidade de tudo se ligar: o rio à colina, a praça à alameda; o hospital
à universidade; o aeroporto ao banco; o metro ao emprego. A cidade liga-se ao
mundo pelas pessoas que nela vivem e circulam. Há lima kaffir à venda no Martim
Moniz. E no Mercado de Arroios mulheres sírias cozinham khubz à nossa frente.
Escolhi viver e
trabalhar em Lisboa. O custo desta escolha materializa-se em tudo o que deixei
de fazer e ter para poder continuar a viver aqui. O preço especulativo do metro
quadrado na freguesia em que vivo e trabalho, pago-o com cada viagem que já não
posso fazer. Pago em cansaço o silêncio que deixei de ter quando Lisboa se
transformou num gigantesco estaleiro de obra. Como pago os produtos essenciais
mais caros e alimento a EMEL a pão-de-ló.
Há uns anos vivia
no Príncipe Real. Gente rua acima, rua abaixo toda a noite, trolleys às quatro
da manhã, risos excitados e escorregadelas na calçada suja de vómito e de
garrafas partidas, do lixo abandonado por baixo das janelas. Mudei de casa.
Procurar um sítio limpo, em Lisboa, sai caro.
Gosto da ideia de
mobilidade que Lisboa tenta implantar. Há muitos anos que ando de bicicleta.
Atravessar a cidade a pé, de trotineta, ou de mota eléctrica, dá-me prazer. Mas
não sem consequências: sem ser aos fins-de-semana, pausas ainda respeitadas
pelo tráfego, o ar que se sente em cima de uma bicicleta é sujo, cheira mal,
mancha os colarinhos brancos; a ciclovia que sai da rotunda do Marquês para a
Av. da Liberdade, e não é das piores, é um desenho de bicicleta no asfalto já
muito degradado pelas raízes das árvores – é difícil chegar aos Restauradores
sem os maxilares baterem um no outro ou o cérebro pedir descanso das pancadas.
Talvez por isso os largos passeios da Avenida sirvam de via preferencial aos
adeptos da mobilidade “verde”, onde podem acelerar nas trotinetas e intimidar
quem por lá passeia. Esta mobilidade, acessível só a alguns, não é verde, é
vermelha. A outra mobilidade, a de que tem de entrar e circular diariamente em
Lisboa, essa, de tão deficiente nem sequer faz cartazes.
Lisboa poderia
ter aprendido com Veneza. Barcelona. Paris. Ter regulado melhor. A mobilidade
verde e o alojamento local. O ruído. Os transportes. A limpeza e a habitação.
Não se ter deixado ficar refém de fundos imobiliários especulativos e hostis
para quem nela vive e trabalha.
É nossa a
responsabilidade de fazermos a cidade que queremos ter. Essa
responsabilidade começa nas autárquicas.

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