quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

Uma viagem em modo flâneur pelas lojas históricas do Porto

 



LIVROS

Uma viagem em modo flâneur pelas lojas históricas do Porto

 

“Itinerário alternativo aos guias turísticos”, o livro Lojas de Outrora e de Agora quer ajudar a valorizar o comércio tradicional. É “urgente” uma reflexão sobre a preservação destes espaços

 

Mariana Correia Pinto

2 de Janeiro de 2024, 16:44

https://www.publico.pt/2024/01/02/local/noticia/viagem-modo-flaneur-lojas-historicas-porto-2075232

 

Enquanto deambulava pela cidade “à maneira de flâneur”, em busca das lojas históricas do Porto, Isabel Gomes ia descobrindo nos locais onde entrava a própria história da cidade. O livro Lojas de Outrora e de Agora (Afrontamento) cruza referências dos lugares com as pessoas que por lá passaram e o contexto histórico, “numa espécie de puzzle, com várias nuances”. “O livro acaba por ser uma espécie de filme.”

 

O desenho em estilo cinematográfico virá da biografia da autora, cujo currículo integra vários documentários sobre arte, anos de trabalho em televisão e um doutoramento em Arte Contemporânea a ser realizado na Universidade de Coimbra. Há uns anos, Isabel Gomes sentiu a vertigem de contar as histórias daqueles lugares, com valor histórico, social e cultural. A Lei n.º 42/2017 havia sido aprovada, mas o cenário de perda era já real: não só no Porto, mas também em Lisboa e noutras cidades do mundo. E isso, diz, tinha de ser contrariado.

 

“A riqueza das nossas cidades não se vê só nos monumentos e paisagens, mas também nas marcas e no comércio. Estas lojas são parte do património cultural, material e imaterial”, aponta. “Se as fecharmos e abrirmos lojas iguais às existentes no mundo inteiro, mantêm-se os monumentos, mas depois os turistas vêm e já não têm nada para ver.”

 

Isabel Gomes não identifica um único inimigo nesta matéria. E põe o dedo numa ferida que pode ser de todos: “A existência destas lojas também depende de nós. Acho que se frequenta pouco este tipo de lojas.” A juntar a isso, há a “especulação imobiliária”, que faz sucumbir alguns negócios. Esse “movimento tem de parar”, apela, fazendo do Governo destinatário da mensagem: “O que está a acontecer exige alguma reflexão ao nível governamental. São precisas medidas para que as lojas não desapareçam, fruto do momento ou da especulação que possa existir.”

 

O projecto camarário Porto de Tradição, que protege lojas históricas da cidade, é importante. Em seis anos, protegeu 110 espaços — mas 15 deles acabaram por fechar portas, apesar do “selo — e isso prova que “não chega”.

 

O livro Lojas de Outrora é “um convite a passear pelo Porto através do comércio tradicional”, num “itinerário alternativo aos guias turísticos”. Dividido por zonas geográficas, conta a história de 64 espaços da cidade, em áreas como vestuário, restauração, artigos religiosos, barbearia, linhos, chocolates, solas e cabedais, confeitaria, ferragens, ourivesaria, salões de chá, cafés, farmácia, livros antigos, papelaria ou tipografia.

 

No dia do casamento de Agustina Bessa-Luís, a 25 de Julho de 1945, a escritora fez um lanche com os convidados e família na Confeitaria do Bolhão, “que era então a confeitaria chique do Porto, para celebrar comendo umas torradas tenras”, conta Isabel Gomes no livro. Também ali se refugiaram muitos espiões durante a Segunda Guerra Mundial. Pela Arcádia andou Mário Cláudio e na Mercearia Augusto da Foz e no Chalé Suisso esteve muitas vezes Eugénio de Andrade.

 

Quando Isabel Gomes e a artista plástica Rita Magalhães, que assina o livro com ela, começaram a busca pelas lojas históricas, fixaram critérios semelhantes aos inscritos na Lei 42/2017 para seleccionar quais seriam ou não históricas. Mas depois disso tiveram ainda de afinar a selecção: “Escolhemos dar mais ênfase aos que tinham mais histórias para contar e riqueza etnográfica, lugares que mantêm intactas as características ao nível do património imaterial e originalidade das actividades que desenvolvem”, conta.

 

Entre o início do trabalho e a publicação do livro passaram vários anos. E neles sucumbiram alguns negócios, como a Casa Aleixo, a Costa Braga e Filhos ou a Confeitaria Cunha. Alguns negócios, como o das luvas, “simplesmente desapareceram” do Porto.

 

Estão no livro, também, algumas lojas que mantêm oficinas, pelas quais Isabel Gomes tem particular apreço. A Escovaria de Belomonte é a única da Península Ibérica que continua a fazer escovas de modo artesanal; a Alcino Ourives, na Rua de Santos Pousada, mantém uma fábrica de trabalhos de prata; a Arcádia preserva a sua fábrica na Rua do Almada e faz um “trabalho de escultura” com as suas drageias, vendidas para todo o mundo.

 

“Este livro quer ser um contributo para que as lojas que existem ainda continuem por muito tempo e que sejam valorizadas”, espera Isabel Gomes. “São fios de uma história de vida da cidade e dos portuenses.”

 

tp.ocilbup@otnip.anairam

Sem comentários: