LIVROS
Uma viagem em modo flâneur pelas lojas históricas do
Porto
“Itinerário alternativo aos guias turísticos”, o livro
Lojas de Outrora e de Agora quer ajudar a valorizar o comércio tradicional. É
“urgente” uma reflexão sobre a preservação destes espaços
Mariana Correia
Pinto
2 de Janeiro de
2024, 16:44
https://www.publico.pt/2024/01/02/local/noticia/viagem-modo-flaneur-lojas-historicas-porto-2075232
Enquanto
deambulava pela cidade “à maneira de flâneur”, em busca das lojas históricas do
Porto, Isabel Gomes ia descobrindo nos locais onde entrava a própria história
da cidade. O livro Lojas de Outrora e de Agora (Afrontamento) cruza referências
dos lugares com as pessoas que por lá passaram e o contexto histórico, “numa
espécie de puzzle, com várias nuances”. “O livro acaba por ser uma espécie de
filme.”
O desenho em
estilo cinematográfico virá da biografia da autora, cujo currículo integra
vários documentários sobre arte, anos de trabalho em televisão e um
doutoramento em Arte Contemporânea a ser realizado na Universidade de Coimbra.
Há uns anos, Isabel Gomes sentiu a vertigem de contar as histórias daqueles
lugares, com valor histórico, social e cultural. A Lei n.º 42/2017 havia sido
aprovada, mas o cenário de perda era já real: não só no Porto, mas também em
Lisboa e noutras cidades do mundo. E isso, diz, tinha de ser contrariado.
“A riqueza das
nossas cidades não se vê só nos monumentos e paisagens, mas também nas marcas e
no comércio. Estas lojas são parte do património cultural, material e
imaterial”, aponta. “Se as fecharmos e abrirmos lojas iguais às existentes no
mundo inteiro, mantêm-se os monumentos, mas depois os turistas vêm e já não têm
nada para ver.”
Isabel Gomes não
identifica um único inimigo nesta matéria. E põe o dedo numa ferida que pode
ser de todos: “A existência destas lojas também depende de nós. Acho que se
frequenta pouco este tipo de lojas.” A juntar a isso, há a “especulação
imobiliária”, que faz sucumbir alguns negócios. Esse “movimento tem de parar”,
apela, fazendo do Governo destinatário da mensagem: “O que está a acontecer
exige alguma reflexão ao nível governamental. São precisas medidas para que as
lojas não desapareçam, fruto do momento ou da especulação que possa existir.”
O projecto
camarário Porto de Tradição, que protege lojas históricas da cidade, é
importante. Em seis anos, protegeu 110 espaços — mas 15 deles acabaram por
fechar portas, apesar do “selo — e isso prova que “não chega”.
O livro Lojas de
Outrora é “um convite a passear pelo Porto através do comércio tradicional”,
num “itinerário alternativo aos guias turísticos”. Dividido por zonas
geográficas, conta a história de 64 espaços da cidade, em áreas como vestuário,
restauração, artigos religiosos, barbearia, linhos, chocolates, solas e
cabedais, confeitaria, ferragens, ourivesaria, salões de chá, cafés, farmácia,
livros antigos, papelaria ou tipografia.
No dia do
casamento de Agustina Bessa-Luís, a 25 de Julho de 1945, a escritora fez um
lanche com os convidados e família na Confeitaria do Bolhão, “que era então a
confeitaria chique do Porto, para celebrar comendo umas torradas tenras”, conta
Isabel Gomes no livro. Também ali se refugiaram muitos espiões durante a
Segunda Guerra Mundial. Pela Arcádia andou Mário Cláudio e na Mercearia Augusto
da Foz e no Chalé Suisso esteve muitas vezes Eugénio de Andrade.
Quando Isabel
Gomes e a artista plástica Rita Magalhães, que assina o livro com ela,
começaram a busca pelas lojas históricas, fixaram critérios semelhantes aos
inscritos na Lei 42/2017 para seleccionar quais seriam ou não históricas. Mas
depois disso tiveram ainda de afinar a selecção: “Escolhemos dar mais ênfase
aos que tinham mais histórias para contar e riqueza etnográfica, lugares que
mantêm intactas as características ao nível do património imaterial e
originalidade das actividades que desenvolvem”, conta.
Entre o início do
trabalho e a publicação do livro passaram vários anos. E neles sucumbiram
alguns negócios, como a Casa Aleixo, a Costa Braga e Filhos ou a Confeitaria
Cunha. Alguns negócios, como o das luvas, “simplesmente desapareceram” do
Porto.
Estão no livro,
também, algumas lojas que mantêm oficinas, pelas quais Isabel Gomes tem
particular apreço. A Escovaria de Belomonte é a única da Península Ibérica que
continua a fazer escovas de modo artesanal; a Alcino Ourives, na Rua de Santos
Pousada, mantém uma fábrica de trabalhos de prata; a Arcádia preserva a sua
fábrica na Rua do Almada e faz um “trabalho de escultura” com as suas drageias,
vendidas para todo o mundo.
“Este livro quer
ser um contributo para que as lojas que existem ainda continuem por muito tempo
e que sejam valorizadas”, espera Isabel Gomes. “São fios de uma história de
vida da cidade e dos portuenses.”
tp.ocilbup@otnip.anairam


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