EDITORIAL
Um orçamento para tempos incertos
A incerteza do que nos espera nos próximos meses
recomenda elevada prudência e máxima responsabilidade. Estamos, infelizmente,
muito longe desse ponto.
Tiago Luz Pedro
25 de Outubro de
2021, 5:30
https://www.publico.pt/2021/10/25/opiniao/editorial/orcamento-tempos-incertos-1982338
A Unidade Técnica
de Apoio Orçamental (UTAO) da Assembleia da República publicou na última semana
um relatório que é muito demonstrativo de uma certa mistificação que preside a
cada debate orçamental. No último orçamento, concluiu a UTAO, foram
introduzidas 291 alterações para as quais o Governo estimou um custo de 3,2
milhões de euros; o preço, soube-se agora, foi afinal bastante mais alto, com
apenas duas dessas 291 alterações a terem um custo anual de 88 milhões.
Já não bastava
estarmos a viver há dois anos sem um Decreto de Execução Orçamental que baliza
a acção do Governo na gestão do erário público. Já não chegava que um novo
orçamento que começou a ser negociado em Maio voltasse a ter de ser
decidido na 25.ª hora. O que o relatório da UTAO mostra com clareza é que a
arte de bem orçamentar em Portugal resvala muitas vezes para um exercício de
pura adivinhação e que o documento mais importante a cada novo ano político prima
tanto pelo que nos diz sobre as escolhas do Governo como pelo que esconde sobre
a sua execução.
Por que é isto
importante para o actual momento político? Pela simples razão de que vai
acontecer outra vez, com o Governo a acenar in extremis com uma série de novas
medidas à esquerda que o primeiro-ministro já disse que terão um impacto não
negligenciável no défice, quer pelo que implicam de acréscimo de despesa como
de perda de receita. Se o orçamento passar na generalidade (o que já só depende
do PCP, como ontem ficou claro), preparemo-nos para o habitual cortejo de
“coligações negativas” que produzirão o mesmo efeito, independentemente da sua
bondade e legítima oportunidade.
O mundo, claro, é
indiferente ao magno debate nacional e o mundo, pelo menos do ponto de vista
económico, está um lugar pouco recomendável: há um choque brutal do lado da
oferta que fez disparar o preço das matérias-primas e já se repercute na
inflação (já acima dos 4% na Alemanha e EUA, para citar dois exemplos óbvios);
há uma inevitável transição energética em curso que não tardou em expor os seus
enormes custos económicos e sociais; há uma pandemia bem viva à espera da
oportunidade do Inverno; e há crescentes antagonismos entre potências que já
não se disfarçam e que acrescentam insegurança a este quadro de volatilidade.
A incerteza do
que nos espera nos próximos meses recomenda elevada prudência e máxima
responsabilidade. Estamos, infelizmente, muito longe desse ponto.
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