Interior destruído no Museu Romântico da Quinta da Macieirinha no Porto".
RUI MOREIRA
Rui Moreira promete manter a “identidade do Porto”. E
concluir o que ainda não foi feito
Num discurso de tomada de posse onde nem As Farpas de
Ramalho Ortigão ficaram de fora, Moreira promete ser “positivo e agregador” e
continuar a combater o centralismo. Aos independentes deixou o desafio de criar
uma federação
Mariana Correia
Pinto
20 de Outubro de
2021, 20:24
As Farpas de
Ramalho Ortigão, que se sentia turista na sua cidade, a fervilhar de progresso,
mas já sem a alma de outros tempos, deram o mote para a teoria de Rui Moreira.
Agora, como naquele tempo, a mudança ocorre e a crítica é normal. Jurando
admiração pela “cidade irresoluta” e com “capacidade crítica”, o autarca disse
ser obrigação dos políticos incentivar “gritaria pública” quando necessário,
mas sem travar o progresso. “Temos de saber ser firmes com os nossos compromissos
e com a nossa sufragada visão de cidade”, anuiu.
No discurso da
tomada de posse, proferido esta quarta-feira no Super Bock Arena – Pavilhão
Rosa Mota, Moreira comprometeu-se em “tudo fazer para manter a identidade do
Porto”, manifestada nas “pequenas coisas” que Ramalho Ortigão citava e que
agora o autarca encontra noutras geografias: “o restaurante da Rosinha em
Campanhã, a Livraria Académica do Sr. Nuno Canavez ou do Café Corcel na
Boavista”. Mas a identidade, continuou, não pode manter-se a todo o custo:
“Advirto que é necessário alterar velhos paradigmas. Na mobilidade, no consumo,
na utilização de recursos escassos como o espaço público, que deve continuar a
ser resgatado... com ou sem os malfadados pilaretes, certamente substituíveis
por civismo.”
Os projectos
prometidos
Os projectos “que
a pandemia atrasou” – o Mercado do Bolhão, o Terminal Intermodal de Campanhã, a
recuperação do Cinema Batalha, a extensão da Biblioteca e o projecto do antigo
Matadouro – ficarão prontos nos próximos anos, prometeu o autarca independente,
eleito com o apoio do CDS e da Iniciativa Liberal (Francisco Rodrigues dos
Santos e Miguel Rangel estiveram na plateia) e já com um acordo fechado com o
PSD (a quem agradeceu o “sentido de responsabilidade”) para fintar a minoria no
executivo.
Num discurso
recheado de “testemunhas literárias” – e durante o qual Moreira furou o
protocolo para agradecer à mãe, mulher, filhos, netos e irmãos presentes na
plateia –, o autarca garantiu que o Porto “continuará a ser sempre uma voz de independência
e de liberdade face aos poderes instalados, ao centralismo que em tanto
prejudica o país”. E daí e do auto-elogio do seu “projecto independente” partiu
para um apelo nacional: “Devemos promover a federação dos milhares de cidadãos
que continuam a acreditar nos candidatos independentes.” O autarca do Porto
recusou “qualquer cenário de liderança”, mas “total disponibilidade para ajudar
a a dar corpo a esta ideia”.
“Porque é que
daqui não poderá sair um novo movimento cívico que, combatendo a espiral de
cinismo, o galopante fosso entre cidadãos e a política e sempre num respeito
pelos partidos, aproxime os portugueses de um projecto político
intransigentemente humanista e democrático?”
Apesar do
executivo minoritário e de um esperado debate político mais aceso, Rui Moreira
pediu mais união, prometendo ser “positivo e agregador” para enfrentar o “frio
económico e político que se está a aproximar” depois do “Inverno pandémico”.
Aos presidentes
das juntas de freguesia, foi prometido um “reforço das competências”, junto com
os “recursos indispensáveis”. Campanhã, a freguesia mais oriental do Porto,
também não ficou de fora. “Tenho a certeza de que esta zona da cidade tem
condições únicas para ser uma alavanca de desenvolvimento para toda a cidade”,
afirmou, elogiando os inquilinos que têm chegado àquela zona do Porto. “Eles
não gentrificam a cidade. Dão-lhe o cosmopolitismo que uma cidade orgulhosa das
suas raízes não pode recear.”
OPINIÃO
“O meu partido é o Porto”?
Perante o grave crime patrimonial
cometido no Museu Romântico do Porto, o slogan com que Rui Moreira se candidatou
e ganhou a Câmara do Porto tornou-se enganador e tão oco como o novo interior
do museu.
António
Sérgio Rosa de Carvalho
9 de Setembro de
2021, 17:00
https://www.publico.pt/2021/09/09/opiniao/opiniao/partido-porto-1976861
Com este efectivo slogan, e anunciando uma
independência política dirigida à verdadeira gestão da cidade baseada na
autenticidade e verdadeiro interesse dos cidadãos, Rui Moreira candidatou-se e
ganhou a Câmara Municipal do Porto.
Perante
o grave crime patrimonial cometido no Museu Romântico do Porto,(1) com o esvaziamento dos interiores e radical
destruição do seu conceito museológico, cujo potencial era ilustrado pelo alto
sucesso pedagógico junto a instituições de ensino e alto reconhecimento dos
portuenses, este slogan tornou-se enganador e tão oco como o novo interior,
destruído em nome de uma falsa purificação depuradora e abstracta.
O museu, criado em 1972, reconstituindo um
interior da alta burguesia no importante período oitocentista de Revolução
Liberal e empreendedorismo nortenho, ilustrava o espírito portuense na sua
determinada independência e iniciativa. (para os interessados no museu de 1972:
https://www.youtube.com/watch?v=Q6cR_hUqC0g)(2)
Numa
intervenção de 2016-2018, com um investimento de meio milhão de euros e com o
apoio da Europa, o museu foi requalificado e melhorado nas suas facetas
pedagógicas.
O
conjunto de apurada reconstituição de interiores num contexto arquitectónico
apropriado numa quinta (Quinta da Macieirinha), na famosa Rua de Entre Quintas,
foi reconhecido e louvado no seu carácter único e precioso potencial
ilustrativo de um importante período da História, pelo próprio Rui Moreira (3) no seu discurso de reabertura.
Este
discurso tornou-se agora num incompreensível e patético paradoxo e, para
muitos, num grave absurdo cujas consequências culturais estão a indignar um
número crescente de portuenses num clamor crescente.
Ora,
curiosamente eu tinha utilizado o mesmo slogan em dois artigos no PÚBLICO,
estes dirigidos a Lisboa. No último,(4) “O meu
partido é Lisboa (2)”, afirmava no meu cepticismo em relação ao crescente
distanciamento dos genuínos cidadãos da Política: “As únicas forças
verdadeiramente e antecipadamente vencedoras das próximas eleições autárquicas
são as forças da cidadania activa e participativa.” E afirmava ainda: “No
entanto, estas forças, constituídas por grupos heterogéneos e flutuantes de
cidadãos, unidos apenas por temas, mas com diferentes, variadas e pluralistas
motivações e convicções, mantêm-se exteriores às definições de campos
políticos. Não nos espantemos, portanto, que nós, como votantes, sejamos também
‘órfãos políticos’ sem candidatos que nos representem, capazes de nos
libertarem do ‘limbo’ a que fomos condenados.”
Esta é
a minha mensagem implícita mas directa a Rui Moreira.
E explicitamente: será que a Europa sabe como
o seu investimento foi utilizado e gravemente desperdiçado?
Historiador de Arquitectura
(2) https://www.youtube.com/watch?v=Q6cR_hUqC0g)
(4) https://www.publico.pt/2021/04/22/opiniao/noticia/partido-lisboa-2-1959644
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