quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Rui Moreira promete manter a “identidade do Porto”. E concluir o que ainda não foi feito / “O meu partido é o Porto”? por António Sérgio Rosa de Carvalho


 

Interior destruído no Museu Romântico da Quinta da Macieirinha no Porto".


RUI MOREIRA

Rui Moreira promete manter a “identidade do Porto”. E concluir o que ainda não foi feito

 

Num discurso de tomada de posse onde nem As Farpas de Ramalho Ortigão ficaram de fora, Moreira promete ser “positivo e agregador” e continuar a combater o centralismo. Aos independentes deixou o desafio de criar uma federação

 

Mariana Correia Pinto

20 de Outubro de 2021, 20:24

https://www.publico.pt/2021/10/20/local/noticia/rui-moreira-promete-manter-identidade-porto-concluir-nao-1981889

 

As Farpas de Ramalho Ortigão, que se sentia turista na sua cidade, a fervilhar de progresso, mas já sem a alma de outros tempos, deram o mote para a teoria de Rui Moreira. Agora, como naquele tempo, a mudança ocorre e a crítica é normal. Jurando admiração pela “cidade irresoluta” e com “capacidade crítica”, o autarca disse ser obrigação dos políticos incentivar “gritaria pública” quando necessário, mas sem travar o progresso. “Temos de saber ser firmes com os nossos compromissos e com a nossa sufragada visão de cidade”, anuiu.

 

No discurso da tomada de posse, proferido esta quarta-feira no Super Bock Arena – Pavilhão Rosa Mota, Moreira comprometeu-se em “tudo fazer para manter a identidade do Porto”, manifestada nas “pequenas coisas” que Ramalho Ortigão citava e que agora o autarca encontra noutras geografias: “o restaurante da Rosinha em Campanhã, a Livraria Académica do Sr. Nuno Canavez ou do Café Corcel na Boavista”. Mas a identidade, continuou, não pode manter-se a todo o custo: “Advirto que é necessário alterar velhos paradigmas. Na mobilidade, no consumo, na utilização de recursos escassos como o espaço público, que deve continuar a ser resgatado... com ou sem os malfadados pilaretes, certamente substituíveis por civismo.”

 

Os projectos prometidos

Os projectos “que a pandemia atrasou” – o Mercado do Bolhão, o Terminal Intermodal de Campanhã, a recuperação do Cinema Batalha, a extensão da Biblioteca e o projecto do antigo Matadouro – ficarão prontos nos próximos anos, prometeu o autarca independente, eleito com o apoio do CDS e da Iniciativa Liberal (Francisco Rodrigues dos Santos e Miguel Rangel ​estiveram na plateia) e já com um acordo fechado com o PSD (a quem agradeceu o “sentido de responsabilidade”) para fintar a minoria no executivo.

 

Num discurso recheado de “testemunhas literárias” – e durante o qual Moreira furou o protocolo para agradecer à mãe, mulher, filhos, netos e irmãos presentes na plateia –, o autarca garantiu que o Porto “continuará a ser sempre uma voz de independência e de liberdade face aos poderes instalados, ao centralismo que em tanto prejudica o país”. E daí e do auto-elogio do seu “projecto independente” partiu para um apelo nacional: “Devemos promover a federação dos milhares de cidadãos que continuam a acreditar nos candidatos independentes.” O autarca do Porto recusou “qualquer cenário de liderança”, mas “total disponibilidade para ajudar a a dar corpo a esta ideia”.

 

“Porque é que daqui não poderá sair um novo movimento cívico que, combatendo a espiral de cinismo, o galopante fosso entre cidadãos e a política e sempre num respeito pelos partidos, aproxime os portugueses de um projecto político intransigentemente humanista e democrático?”

 

Apesar do executivo minoritário e de um esperado debate político mais aceso, Rui Moreira pediu mais união, prometendo ser “positivo e agregador” para enfrentar o “frio económico e político que se está a aproximar” depois do “Inverno pandémico”.

 

Aos presidentes das juntas de freguesia, foi prometido um “reforço das competências”, junto com os “recursos indispensáveis”. Campanhã, a freguesia mais oriental do Porto, também não ficou de fora. “Tenho a certeza de que esta zona da cidade tem condições únicas para ser uma alavanca de desenvolvimento para toda a cidade”, afirmou, elogiando os inquilinos que têm chegado àquela zona do Porto. “Eles não gentrificam a cidade. Dão-lhe o cosmopolitismo que uma cidade orgulhosa das suas raízes não pode recear.”

 

tp.ocilbup@otniP.anairaM




OPINIÃO

“O meu partido é o Porto”?

 

 Perante o grave crime patrimonial cometido no Museu Romântico do Porto, o slogan com que Rui Moreira se candidatou e ganhou a Câmara do Porto tornou-se enganador e tão oco como o novo interior do museu.

 

  António Sérgio Rosa de Carvalho

9 de Setembro de 2021, 17:00

https://www.publico.pt/2021/09/09/opiniao/opiniao/partido-porto-1976861

 

 Com este efectivo slogan, e anunciando uma independência política dirigida à verdadeira gestão da cidade baseada na autenticidade e verdadeiro interesse dos cidadãos, Rui Moreira candidatou-se e ganhou a Câmara Municipal do Porto.

 

  Perante o grave crime patrimonial cometido no Museu Romântico do Porto,(1) com o esvaziamento dos interiores e radical destruição do seu conceito museológico, cujo potencial era ilustrado pelo alto sucesso pedagógico junto a instituições de ensino e alto reconhecimento dos portuenses, este slogan tornou-se enganador e tão oco como o novo interior, destruído em nome de uma falsa purificação depuradora e abstracta.

 

 O museu, criado em 1972, reconstituindo um interior da alta burguesia no importante período oitocentista de Revolução Liberal e empreendedorismo nortenho, ilustrava o espírito portuense na sua determinada independência e iniciativa. (para os interessados no museu de 1972: https://www.youtube.com/watch?v=Q6cR_hUqC0g)(2)

 

  Numa intervenção de 2016-2018, com um investimento de meio milhão de euros e com o apoio da Europa, o museu foi requalificado e melhorado nas suas facetas pedagógicas.

 

  O conjunto de apurada reconstituição de interiores num contexto arquitectónico apropriado numa quinta (Quinta da Macieirinha), na famosa Rua de Entre Quintas, foi reconhecido e louvado no seu carácter único e precioso potencial ilustrativo de um importante período da História, pelo próprio Rui Moreira (3) no seu discurso de reabertura.

 

  Este discurso tornou-se agora num incompreensível e patético paradoxo e, para muitos, num grave absurdo cujas consequências culturais estão a indignar um número crescente de portuenses num clamor crescente.

 

  Ora, curiosamente eu tinha utilizado o mesmo slogan em dois artigos no PÚBLICO, estes dirigidos a Lisboa. No último,(4) “O meu partido é Lisboa (2)”, afirmava no meu cepticismo em relação ao crescente distanciamento dos genuínos cidadãos da Política: “As únicas forças verdadeiramente e antecipadamente vencedoras das próximas eleições autárquicas são as forças da cidadania activa e participativa.” E afirmava ainda: “No entanto, estas forças, constituídas por grupos heterogéneos e flutuantes de cidadãos, unidos apenas por temas, mas com diferentes, variadas e pluralistas motivações e convicções, mantêm-se exteriores às definições de campos políticos. Não nos espantemos, portanto, que nós, como votantes, sejamos também ‘órfãos políticos’ sem candidatos que nos representem, capazes de nos libertarem do ‘limbo’ a que fomos condenados.”

 

  Esta é a minha mensagem implícita mas directa a Rui Moreira.

 

 E explicitamente: será que a Europa sabe como o seu investimento foi utilizado e gravemente desperdiçado?

 

  Historiador de Arquitectura

 

 

 

(1)    https://www.publico.pt/2021/08/31/culturaipsilon/noticia/reconfiguracao-exmuseu-romantico-porto-gera-polemica-mobiliza-peticao-protesto-1975772

 

(2)    https://www.youtube.com/watch?v=Q6cR_hUqC0g)

 

(3)    https://www.porto.pt/pt/noticia/museu-romantico-reabre-apos-investimento-superior-a-meio-milhao-de-euros-em-obras-de-requalificacao?fbclid=IwAR2Vw74KoTVvPLXaJYOSUl53rl7BWukzRCNDhtMzXMUm8VUShL47nnldVgI

 

(4)    https://www.publico.pt/2021/04/22/opiniao/noticia/partido-lisboa-2-1959644

 

 


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