terça-feira, 26 de outubro de 2021

Ponham as pipocas no microondas – isto vai ser divertido

 



OPINIÃO

Ponham as pipocas no microondas – isto vai ser divertido

 

A direita está estupefacta, mas divertida. A esquerda está estupefacta e aterrorizada.

 

João Miguel Tavares

26 de Outubro de 2021, 0:21

https://www.publico.pt/2021/10/26/opiniao/opiniao/ponham-pipocas-microondas-vai-divertido-1982465

 

Ah, a política, como é possível não gostar dela? Quase toda a gente achava que era uma farsa, e afinal é mesmo uma tragédia: ruptura bombástica da esquerda radical com o PS, um Governo sólido que cai como um castelo de cartas, o risco de a “bazuca” ir parar a mãos inesperadas, Marcelo atropelado pelos acontecimentos, António Costa a pensar se se há-de meter nisto durante mais quatro anos, possíveis legislativas em cima das eleições internas do PSD e do CDS, e a generalidade dos comentadores a tentarem explicar a lógica de uma coisa que pura e simplesmente não viram chegar. A política é muita coisa, e uma das mais admiráveis é esta: maravilhosamente inesperada.

 

 

Não é que não tenha havido sinais de que isto podia acontecer. Há 12 dias escrevi aqui um texto intitulado “Eleições antecipadas? Vamos a isso!”, onde chamava a atenção para um artigo do deputado Ascenso Simões que dizia assim: “E se [Bloco e PCP] perderem o juízo? Mais não resta do que irmos para eleições. Quando a esquerda não entende que deve aprovar um Orçamento de esquerda, deve ser o povo de esquerda a dizer que esquerda quer no Governo.” É curioso ir ler agora a caixa de comentários desse artigo, porque muitos leitores não entenderam por que raio Bloco e PCP haveriam de arriscar tanto numa altura destas. Eu apresentava dois motivos para isso acontecer: “1) Porque todos os partidos têm o seu momento PRD. 2) Porque, se o PS quiser mesmo muito, pode empurrá-los para isso.”

 

Neste momento, ainda não é fácil saber qual foi o verdadeiro motivo: se o 1) – ou seja, um momento de radicalismo da esquerda radical –, se o 2) – ou seja, o momento em que o PS decidiu que já estava farto de brincar às quedas do muro de Berlim. O certo é que as consequências deste desentendimento são totalmente imprevisíveis, e mesmo aqueles que se apoiam nas últimas sondagens para tirar grandes conclusões sobre o futuro estão a colocar a carroça à frente dos bois: as actuais sondagens não valem nada, porque é impossível avaliar o impacto do fim oficioso da “geringonça” nas intenções de voto dos eleitores.

 

A direita está estupefacta, mas divertida. A esquerda está estupefacta e aterrorizada. É que, caído o Governo, os problemas do PS permanecem, mesmo em caso de vitória nas próximas eleições. É muito possível que o PS consiga capitalizar o descontentamento causado pelo derrube à esquerda. Mas, ainda que ganhe as eleições, ele governa com quem? Com os partidos que acabaram de o derrubar? Seria um absurdo. Com o PSD? Sim, o PSD seria uma hipótese, e se existisse uma agenda reformista para o país ela bem precisava de um Bloco Central. Só que, em primeiro lugar, António Costa não tem um único telómero reformista no seu ADN; em segundo, o João Ratão que queria casar com a Carochinha era Rui Rio, e é bem possível que ele seja corrido desta história por Paulo Rangel; e, em terceiro, ainda ninguém sabe se António Costa quer mesmo ir a jogo. 

 

É muito possível que o PS consiga capitalizar o descontentamento causado pelo derrube à esquerda. Mas, ainda que ganhe as eleições, ele governa com quem?

 

Quanto à direita, apesar de estar divertida a assistir a isto (foram seis anos sem alegrias), também tem os seus problemas – e não são poucos. Rio está em perda acelerada; Rangel anda entretido a enxotar André Ventura para o esgoto onde este insiste em mergulhar, mas pode vir a precisar dos seus votos; e o CDS está imparável em declínio. Só mesmo o Chega e a Iniciativa Liberal podem abrir já as garrafas de champanhe. São os únicos vencedores antecipados de umas eleições que podem correr muito mal a muita gente.

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