terça-feira, 26 de outubro de 2021

Governo pronto para eleições antecipadas

 


ORÇAMENTO DO ESTADO 2022

Governo pronto para eleições antecipadas

 

Conselho de Ministros reuniu já sem qualquer esperança num acordo à 25.ª hora. Só se discutiu (com optimismo) as eleições antecipadas.

 

Ana Sá Lopes

26 de Outubro de 2021, 14:25

https://www.publico.pt/2021/10/26/politica/noticia/governo-pronto-eleicoes-antecipadas-1982550

 

Quando os ministros se reuniram no Palácio da Ajuda, na noite desta segunda-feira, já tinham perdido qualquer esperança de acordo com o PCP. A reunião foi relativamente rápida, tendo em conta a iminência de crise política: durou duas horas e só discutiu um cenário possível, o das eleições antecipadas.

 

Antes, na reunião da coordenação política que se realizou previamente ao Conselho de Ministros, houve uma tentativa de contactar com o PCP e ver se ainda seria possível alguma “magia” (na versão de Jerónimo de Sousa) ou “magia negra” (na versão do presidente do PS, Carlos César). Já era tarde: mesmo depois do Governo ter admitido suspender sine die a caducidade da contratação colectiva, para o PCP não havia a “resposta global” desejada.

 

Assim, esgotada a esperança num acordo que viabilizasse na generalidade o Orçamento do Estado, a ementa na mesa do Palácio da Ajuda foi curta: os governantes estiveram concentrados na análise das possibilidades do PS ter o melhor resultado nas eleições que se deverão realizar depois de Janeiro. Globalmente, os ministros, sabe o PÚBLICO, estiveram optimistas relativamente às hipóteses do PS no futuro acto eleitoral. A crença maioritária é que o eleitorado penalizará Bloco de Esquerda e PCP por votarem contra o Orçamento na generalidade e que o PS poderá ir buscar mais votos ao eleitorado de esquerda.

 

Na realidade, apesar de o Governo ter tentado mostrar que negociou até ao limite das suas possibilidades, como ainda na segunda-feira e no domingo afirmou o secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, Duarte Cordeiro, António Costa já tinha afirmado, na noite de sexta-feira, depois da reunião da comissão política do PS, que os socialistas não temiam eleições. “Não desejamos eleições, mas não tememos eleições. Devemos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance, mas não pode ser a qualquer preço”. Estava, na realidade, lançado o discurso que foi repetido na segunda-feira na reunião do Conselho de Ministros.

 

No processo negocial, o PCP foi-se queixando-se da “arrogância do Governo e do PS” e que essa não se resumia à recusa de várias das suas propostas.

 

O famoso post no Facebook de Carlos César da quarta-feira passada, enquanto decorriam ainda as negociações, caiu mal entre os comunistas. Nesse texto intitulado “Portugal não é um negócio entre partidos! Portugal é a nossa missão”, o presidente do PS afirmava que, ao colocar em cima da mesa das negociações a legislação laboral, Bloco de Esquerda e PCP estariam apostados no “derrube do Governo”: “Quem quer colocar um problema, que só noutra ocasião e contexto pode ser colocado e apreciado, não está centrado na discussão e aprovação do Orçamento de que Portugal tanto precisa, mas sim na sua desaprovação e na censura e no derrube do Governo e no termo da legislatura”.

 

Rejeitando que as leis laborais estivessem a ser discutidas – matéria em que, aliás, houve cedências por parte do Governo, culminando na suspensão da caducidade sem limite de tempo até novo “debate” apresentada na segunda-feira – o presidente do PS, no meio das negociações, atirava-se aos parceiros, acusando-os indirectamente de preferirem estar na “oposição a um Governo de direita”: “Fico sem perceber se, afinal, [BE e PCP] se sentem melhor a fazer oposição a um governo de direita do que a fazer acordos com um governo de esquerda”.

 

Já esta segunda-feira, noutro post no Facebook intitulado “BE e PCP preferiram os jogos de poder”, César voltou a insurgir-se contra os partidos à sua esquerda, acusando o PCP de querer um salário mínimo de 850 euros já em Janeiro, afirmação que foi depois desmentida publicamente pelo líder parlamentar comunista João Oliveira e pelo deputado Duarte Alves. A proposta do PCP era menor, admitindo mesmo 755 euros em Janeiro.

 

O fim do diálogo à esquerda será, certamente, a marca do debate do Orçamento do Estado, que começa às 15h desta terça-feira.

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