EMIGRAÇÃO
Pandemia e “Brexit” provocaram a maior quebra na
emigração deste século
Emigração para o Reino Unido chegou a representar um
terço do total das saídas, mas em 2020 deve ficar pelos 6%. Número total de
saídas pode rondar os 50 mil, calcula director do Observatório da Emigração.
Joana Gorjão
Henriques
23 de Outubro de
2021, 6:19
Menos 70% de
emigrantes a irem para o Reino Unido. Uma redução de 36% para Espanha. Mesmo
sem dados sobre as entradas de portugueses em França, ainda não disponíveis, já
se pode afirmar que nunca, desde o início do século, a quebra nas saídas de
portugueses foi tão alta como a registada entre 2019 e 2020, afirma Rui Pena
Pires, sociólogo e responsável pelo Observatório da Emigração (OE).
Efeito da
pandemia, mas também do “Brexit”. Estes dois factores são responsáveis pela
descida abrupta da emigração portuguesa no ano passado, podendo vir a
atingir-se um número total de saídas do país próximo do observado em 2001,
quando apenas 40 mil emigraram.
Faltam dados
também de Angola, Moçambique e Estados Unidos, que tiveram fortes
condicionalismos de mobilidade, mas o sociólogo calcula que o total de saídas
em 2020 terá rondado, no máximo, as 50 mil. Isto porque só o Reino Unido
registou menos 18 mil entradas de portugueses, número que é igual à descida de
todos os países juntos registada de 2008 para 2009, por exemplo. “É a maior
quebra deste século, e o valor total só será equiparado aos de 2001 e 2002”,
diz.
O pico da emigração portuguesa nos anos 2000 registou-se
em 2013, com 120 mil saídas.
Sobre as saídas
para França, a quebra não deverá ser muito diferente dos 5% que se verificaram
de 2019 para 2020, calcula o sociólogo. “A descida tem sido continuada, é natural
que as entradas de portugueses tenham descido na mesma proporção.”
Entre os países
para onde os portugueses tradicionalmente mais emigravam verificou-se também
uma queda na Suíça (menos 11%) e na Alemanha (menos 7%), nota, com base nos
dados já disponíveis. O relatório anual do Observatório da Emigração, que será
publicado no final do ano, poderá trazer informação mais fina. O
anterior, sobre o que se passou em 2019, mostra o ranking dos países onde
nesse ano mais portugueses entraram: Reino Unido (24.593), Espanha
(10.153), Suíça (8443), França (8055, em 2018) e Alemanha
(5785).
“Globalmente, a
emigração vai ser afectada pela covid e pelo ‘Brexit’. O factor covid
pode ser passageiro, o ‘Brexit’ mais duradouro. Mas não sabemos como se
transformaram, de facto, as relações”, refere Pena Pires, sublinhando que só
daqui a uns dois anos teremos informação que permita perceber o verdadeiro
impacto da pandemia.
A verdade é que a
emigração para o Reino Unido chegou a representar um terço das saídas totais em
2015, antes do anúncio do “Brexit”. A seguir, desceu para um quarto. E agora é
provável que se fique pelos 6%, calcula. Em termos brutos, de 2019 para 2020
o número de entradas de emigrantes portugueses naquele grupo de países
desceu de 24,5 mil para 6,6 mil.
Já em relação a
Espanha, que era o terceiro país preferido dos emigrantes portugueses,
passou-se, no ano passado, de mais de dez mil entradas para cerca de 6400, um
número próximo do de 2015.
Neste século,
Espanha foi, até 2008, o grande destino da emigração portuguesa. Para se ter
uma ideia, em 2007 emigraram mais de 27 mil portugueses para Espanha, mas a
partir de 2008 deu-se uma descida de entradas: uma redução de 38% nesse
ano e de 42% no ano seguinte. Esta diminuição deveu-se à crise económica global
dessa altura, que afectou particularmente Espanha. “Os portugueses emigravam
para Espanha porque o patamar da economia é diferente, as diferenças de nível
de rendimento são bastante elevadas. Em 2008 havia desemprego em Espanha, em
2014, com a recuperação, as pessoas voltam a emigrar.”
O Reino Unido
passou a ser o destino de eleição a partir de 2008, ocupando o lugar cimeiro
ainda no ano passado. Teremos de esperar pelo fim do ano para saber qual
será agora o primeiro país. De acordo com o sociólogo, a Suíça, com cerca de
7500 emigrantes portugueses a entrarem em 2020, conheceu uma descida de 11%,
mas “aguenta-se melhor” do que outros países.
Se a emigração se mantiver em baixa por algum tempo,
vamos ter algum efeito na natalidade.
Rui Pena Pires
A variação
negativa registada em 2020 ultrapassa os níveis de 2008 e 2009, anos em que a
emigração baixou, acrescenta. Em 2007 houve 85 mil portugueses a sair, em 2008
e 2009 foram 70 mil; dez anos depois, os números não foram muito diferentes, com
cerca de 80 mil saídas em 2019. Sobre 2020, estima que devemos ter “no máximo
50 mil saídas”, valores próximos aos do início do século — em 2002 houve 50 mil
saídas.
“O ‘Brexit’
foi tão importante ou talvez um pouco mais do que a pandemia. Mas em rigor as
duas coisas estão misturadas, porque o Reino Unido foi dos países mais
afectados pela pandemia”, explica.
Para o Reino
Unido emigravam tradicionalmente cerca de 40% de licenciados portugueses, um número
muito elevado comparando com a emigração portuguesa para outros sítios. “Alguns
destes vão continuar a sair. Não acredito que baixe muito o recrutamento de
enfermeiros para o Reino Unido, boa parte são profissionais qualificados de que
o Reino Unido precisa e que emigram por recrutamento activo em Portugal. O que
vai ser mais difícil, provavelmente, é a emigração menos qualificada.
Provavelmente, a emigração vai estabilizar nas cinco mil saídas por ano.”
Por outro lado,
com as descidas de 36% e 38% para o Canadá e Brasil, respectivamente, é
possível que o retrato que surja seja de uma “emigração ainda mais europeia do
que já era”.
A emigração para o Reino Unido chegou a representar um
terço das saídas totais em 2015
Quanto aos
impactos da descida geral da emigração em Portugal, Pena Pires diz que “para
absorver esta não-emigração, o emprego em Portugal terá de crescer”. E admite
que a manter-se este cenário, haja impacto no número de crianças que nascem no
país. “Se a emigração se mantiver em baixa por algum tempo, vamos ter
algum efeito na natalidade. A redução da natalidade em Portugal também se devia
a uma parte das mulheres em idade fértil emigrar e ter filhos fora de
Portugal.”
Por exemplo,
olhando para um gráfico com valores acumulados entre 1977 e 2018, os
nascimentos em França de mães portuguesas são mais de 400 mil, e Portugal fica
em terceiro lugar no ranking geral de filhos de pais estrangeiros nascidos
naquele país.
França continua
em destaque
Embora tenha
perdido o destaque nos últimos anos, França continua a ser um dos principais
destinos de emigração. Como refere um relatório do Observatório sobre este
país, os anos 1960 e 70 foram marcados por uma emigração em massa de
portugueses para França, mantiveram-se valores elevados posteriormente e no
século XXI diversificaram-se os perfis formativos e educacionais dos que saíram
de Portugal tendo aquele país como destino. Mas os últimos dados mostram que
perdeu preponderância.
A família, factores emocionais e afectivos, o clima são
algumas das razões que fazem os portugueses voltar ao país
No total, havia
537 mil portugueses a viver em França em 2020; na Suíça, 210,7 mil; no Reino
Unido, pouco mais de 165 mil; em Espanha, mais de 95 mil; e na Alemanha, cerca
de 114 mil.
A socióloga
Filipa Pinho, que está a trabalhar no projecto Experiências e Expectativas
de Regresso dos Novos Emigrantes Portugueses: reintegração e mobilidade,
coordenado por José Carlos Marques, investigou os factores que levam os
emigrantes a regressarem. As entrevistas que fez, explica, mostram que os
regressos estão mais associados à família, a factores emocionais e afectivos,
sendo que o clima é também muito referido. “Os regressos também acontecem, de
forma geral, quando se consegue transferir o trabalho. Pessoas que trabalhavam
remotamente” e conseguem fazê-lo a partir de Portugal.
O que é preciso
para o regresso
Ressalvando que
as entrevistas qualitativas foram feitas sobretudo a pessoas qualificadas,
porque foi mais difícil chegar aos outros, num universo de cerca de 20 pessoas,
dá como exemplo dois casos com perfis muito semelhantes, mas opções diferentes:
uma mulher e um homem, ambos emigrados no Reino Unido, um a trabalhar na banca
e outro nas redes sociais, ela com um filho e ele à espera de um, ambos casados
com portugueses. Ela quis voltar porque já trabalhava remotamente e conseguia
fazê-lo em Portugal; ele não tem planos de regressar tão cedo por a experiência
anterior em Portugal ter sido de “muito trabalho e pouca remuneração”. A
conclusão é que, para o regresso, as pessoas têm de ter condições objectivas
asseguradas, analisa a socióloga.
A verdade é que a
descida nas saídas tem efeitos imediatos. Depois de dez anos seguidos de
crescimento das remessas de emigrantes, em 2020 houve uma descida de 1,4%, de
acordo com o OE. Em 2020 foram mais de três mil milhões de euros, ou seja, 1,8%
do PIB, acrescenta.
A França e a
Suíça, onde vivem mais portugueses, representaram a origem de mais de metade
das remessas recebidas. “Portugal foi, em 2018, o 35.º país do mundo que mais
remessas de emigrantes recebeu. Porém, o seu grau de dependência económica das
remessas da emigração tem decrescido nas últimas décadas, sendo hoje baixo,
pelos padrões internacionais”, conclui o boletim do OE.
Programa
Regressar com mais de 2000 candidaturas pagas
São
principalmente especialistas das ciências físicas, matemáticas, engenharias e
técnicas afins (10%), técnicos de nível intermédio, das áreas financeira,
administrativa e dos negócios (8%), profissionais da saúde (7%).
Regressam de
onde? Sobretudo do Reino Unido (19%), França (18%) e Suíça (16%). Cerca de 74%
saíram de Portugal entre 2008 e 2015 e mais de um terço tem até 34 anos. Agora
voltam para os distritos de Lisboa (26%), Porto (19%), Braga (12%) e Aveiro
(10%).
Este é o perfil
dos que se inscreveram no Programa Regressar, em que o Instituto de
Emprego e Formação Profissional (IEFP) apoia até 7021 euros os
emigrantes e respectivo agregado familiar que decidam regressar a Portugal, segundo
determinados requisitos.
Projectado para
2019-2020 e alargado até 2023, o programa recebeu até final de Setembro 3744
candidaturas (com um universo potencial de 8345 pessoas, porque inclui os
elementos do agregado familiar). Já foram aprovadas 2545, para um total de 5565
pessoas (porque se consideram os elementos do agregado) — já foram pagos os
montantes a mais de duas mil candidaturas, num total de 6,1 milhões de euros. O
programa prevê uma majoração de apoio máximo que passa de 7021 euros para 7679
euros para quem se instale no interior, e nesse âmbito foram aprovadas 375
candidaturas, correspondentes a 897 pessoas.
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