sábado, 23 de outubro de 2021

Pandemia e “Brexit” provocaram a maior quebra na emigração deste século

 


EMIGRAÇÃO

Pandemia e “Brexit” provocaram a maior quebra na emigração deste século

 

Emigração para o Reino Unido chegou a representar um terço do total das saídas, mas em 2020 deve ficar pelos 6%. Número total de saídas pode rondar os 50 mil, calcula director do Observatório da Emigração.

 

Joana Gorjão Henriques

23 de Outubro de 2021, 6:19

https://www.publico.pt/2021/10/23/sociedade/noticia/pandemia-brexit-provocaram-maior-quebra-emigracao-seculo-1981635

 

Menos 70% de emigrantes a irem para o Reino Unido. Uma redução de 36% para Espanha. Mesmo sem dados sobre as entradas de portugueses em França, ainda não disponíveis, já se pode afirmar que nunca, desde o início do século, a quebra nas saídas de portugueses foi tão alta como a registada entre 2019 e 2020, afirma Rui Pena Pires, sociólogo e responsável pelo Observatório da Emigração (OE). 

 

Efeito da pandemia, mas também do “Brexit”. Estes dois factores são responsáveis pela descida abrupta da emigração portuguesa no ano passado, podendo vir a atingir-se um número total de saídas do país próximo do observado em 2001, quando apenas 40 mil emigraram.

 

Faltam dados também de Angola, Moçambique e Estados Unidos, que tiveram fortes condicionalismos de mobilidade, mas o sociólogo calcula que o total de saídas em 2020 terá rondado, no máximo, as 50 mil. Isto porque só o Reino Unido registou menos 18 mil entradas de portugueses, número que é igual à descida de todos os países juntos registada de 2008 para 2009, por exemplo. “É a maior quebra deste século, e o valor total só será equiparado aos de 2001 e 2002”, diz.

 

O pico da emigração portuguesa nos anos 2000 registou-se em 2013, com 120 mil saídas.

 

Sobre as saídas para França, a quebra não deverá ser muito diferente dos 5% que se verificaram de 2019 para 2020, calcula o sociólogo. “A descida tem sido continuada, é natural que as entradas de portugueses tenham descido na mesma proporção.”

 

Entre os países para onde os portugueses tradicionalmente mais emigravam verificou-se também uma queda na Suíça (menos 11%) e na Alemanha (menos 7%), nota, com base nos dados já disponíveis. O relatório anual do Observatório da Emigração, que será publicado no final do ano, poderá trazer informação mais fina. O anterior, sobre o que se passou em 2019, mostra o ranking dos países onde nesse ano mais portugueses entraram: Reino Unido (24.593), Espanha (10.153), Suíça (8443), França (8055, em 2018) e Alemanha (5785). 

 

“Globalmente, a emigração vai ser afectada pela covid e pelo ‘Brexit’. O factor covid pode ser passageiro, o ‘Brexit’ mais duradouro. Mas não sabemos como se transformaram, de facto, as relações”, refere Pena Pires, sublinhando que só daqui a uns dois anos teremos informação que permita perceber o verdadeiro impacto da pandemia. 

 

A verdade é que a emigração para o Reino Unido chegou a representar um terço das saídas totais em 2015, antes do anúncio do “Brexit”. A seguir, desceu para um quarto. E agora é provável que se fique pelos 6%, calcula. Em termos brutos, de 2019 para 2020 o número de entradas de emigrantes portugueses naquele grupo de países desceu de 24,5 mil para 6,6 mil. 

 

Já em relação a Espanha, que era o terceiro país preferido dos emigrantes portugueses, passou-se, no ano passado, de mais de dez mil entradas para cerca de 6400, um número próximo do de 2015.

 

Neste século, Espanha foi, até 2008, o grande destino da emigração portuguesa. Para se ter uma ideia, em 2007 emigraram mais de 27 mil portugueses para Espanha, mas a partir de 2008 deu-se uma descida de entradas: uma redução de 38% nesse ano e de 42% no ano seguinte. Esta diminuição deveu-se à crise económica global dessa altura, que afectou particularmente Espanha. “Os portugueses emigravam para Espanha porque o patamar da economia é diferente, as diferenças de nível de rendimento são bastante elevadas. Em 2008 havia desemprego em Espanha, em 2014, com a recuperação, as pessoas voltam a emigrar.”

 

O Reino Unido passou a ser o destino de eleição a partir de 2008, ocupando o lugar cimeiro ainda no ano passado. Teremos de esperar pelo fim do ano para saber qual será agora o primeiro país. De acordo com o sociólogo, a Suíça, com cerca de 7500 emigrantes portugueses a entrarem em 2020, conheceu uma descida de 11%, mas “aguenta-se melhor” do que outros países. 

 

Se a emigração se mantiver em baixa por algum tempo, vamos ter algum efeito na natalidade.

Rui Pena Pires

 

A variação negativa registada em 2020 ultrapassa os níveis de 2008 e 2009, anos em que a emigração baixou, acrescenta. Em 2007 houve 85 mil portugueses a sair, em 2008 e 2009 foram 70 mil; dez anos depois, os números não foram muito diferentes, com cerca de 80 mil saídas em 2019. Sobre 2020, estima que devemos ter “no máximo 50 mil saídas”, valores próximos aos do início do século — em 2002 houve 50 mil saídas. 

 

“O ‘Brexit’ foi tão importante ou talvez um pouco mais do que a pandemia. Mas em rigor as duas coisas estão misturadas, porque o Reino Unido foi dos países mais afectados pela pandemia”, explica.

 

Para o Reino Unido emigravam tradicionalmente cerca de 40% de licenciados portugueses, um número muito elevado comparando com a emigração portuguesa para outros sítios. “Alguns destes vão continuar a sair. Não acredito que baixe muito o recrutamento de enfermeiros para o Reino Unido, boa parte são profissionais qualificados de que o Reino Unido precisa e que emigram por recrutamento activo em Portugal. O que vai ser mais difícil, provavelmente, é a emigração menos qualificada. Provavelmente, a emigração vai estabilizar nas cinco mil saídas por ano.”

 

Por outro lado, com as descidas de 36% e 38% para o Canadá e Brasil, respectivamente, é possível que o retrato que surja seja de uma “emigração ainda mais europeia do que já era”. 

 

A emigração para o Reino Unido chegou a representar um terço das saídas totais em 2015

 

Quanto aos impactos da descida geral da emigração em Portugal, Pena Pires diz que “para absorver esta não-emigração, o emprego em Portugal terá de crescer”. E admite que a manter-se este cenário, haja impacto no número de crianças que nascem no país.  “Se a emigração se mantiver em baixa por algum tempo, vamos ter algum efeito na natalidade. A redução da natalidade em Portugal também se devia a uma parte das mulheres em idade fértil emigrar e ter filhos fora de Portugal.” 

 

Por exemplo, olhando para um gráfico com valores acumulados entre 1977 e 2018, os nascimentos em França de mães portuguesas são mais de 400 mil, e Portugal fica em terceiro lugar no ranking geral de filhos de pais estrangeiros nascidos naquele país.

 

França continua em destaque

Embora tenha perdido o destaque nos últimos anos, França continua a ser um dos principais destinos de emigração. Como refere um relatório do Observatório sobre este país, os anos 1960 e 70 foram marcados por uma emigração em massa de portugueses para França, mantiveram-se valores elevados posteriormente e no século XXI diversificaram-se os perfis formativos e educacionais dos que saíram de Portugal tendo aquele país como destino. Mas os últimos dados mostram que perdeu preponderância.

 

A família, factores emocionais e afectivos, o clima são algumas das razões que fazem os portugueses voltar ao país

 

No total, havia 537 mil portugueses a viver em França em 2020; na Suíça, 210,7 mil; no Reino Unido, pouco mais de 165 mil; em Espanha, mais de 95 mil; e na Alemanha, cerca de 114 mil.

 

A socióloga Filipa Pinho, que está a trabalhar no projecto Experiências e Expectativas de Regresso dos Novos Emigrantes Portugueses: reintegração e mobilidade, coordenado por José Carlos Marques, investigou os factores que levam os emigrantes a regressarem. As entrevistas que fez, explica, mostram que os regressos estão mais associados à família, a factores emocionais e afectivos, sendo que o clima é também muito referido. “Os regressos também acontecem, de forma geral, quando se consegue transferir o trabalho. Pessoas que trabalhavam remotamente” e conseguem fazê-lo a partir de Portugal.

 

O que é preciso para o regresso

Ressalvando que as entrevistas qualitativas foram feitas sobretudo a pessoas qualificadas, porque foi mais difícil chegar aos outros, num universo de cerca de 20 pessoas, dá como exemplo dois casos com perfis muito semelhantes, mas opções diferentes: uma mulher e um homem, ambos emigrados no Reino Unido, um a trabalhar na banca e outro nas redes sociais, ela com um filho e ele à espera de um, ambos casados com portugueses. Ela quis voltar porque já trabalhava remotamente e conseguia fazê-lo em Portugal; ele não tem planos de regressar tão cedo por a experiência anterior em Portugal ter sido de “muito trabalho e pouca remuneração”. A conclusão é que, para o regresso, as pessoas têm de ter condições objectivas asseguradas, analisa a socióloga.

 

A verdade é que a descida nas saídas tem efeitos imediatos. Depois de dez anos seguidos de crescimento das remessas de emigrantes, em 2020 houve uma descida de 1,4%, de acordo com o OE. Em 2020 foram mais de três mil milhões de euros, ou seja, 1,8% do PIB, acrescenta.

 

A França e a Suíça, onde vivem mais portugueses, representaram a origem de mais de metade das remessas recebidas. “Portugal foi, em 2018, o 35.º país do mundo que mais remessas de emigrantes recebeu. Porém, o seu grau de dependência económica das remessas da emigração tem decrescido nas últimas décadas, sendo hoje baixo, pelos padrões internacionais”, conclui o boletim do OE.

 

Programa Regressar com mais de 2000 candidaturas pagas

São principalmente especialistas das ciências físicas, matemáticas, engenharias e técnicas afins (10%), técnicos de nível intermédio, das áreas financeira, administrativa e dos negócios (8%), profissionais da saúde (7%). 

 

Regressam de onde? Sobretudo do Reino Unido (19%), França (18%) e Suíça (16%). Cerca de 74% saíram de Portugal entre 2008 e 2015 e mais de um terço tem até 34 anos. Agora voltam para os distritos de Lisboa (26%), Porto (19%), Braga (12%) e Aveiro (10%).

 

Este é o perfil dos que se inscreveram no Programa Regressar, em que o Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) apoia até 7021 euros os emigrantes e respectivo agregado familiar que decidam regressar a Portugal, segundo determinados requisitos. 

 

Projectado para 2019-2020 e alargado até 2023, o programa recebeu até final de Setembro 3744 candidaturas (com um universo potencial de 8345 pessoas, porque inclui os elementos do agregado familiar). Já foram aprovadas 2545, para um total de 5565 pessoas (porque se consideram os elementos do agregado) — já foram pagos os montantes a mais de duas mil candidaturas, num total de 6,1 milhões de euros. O programa prevê uma majoração de apoio máximo que passa de 7021 euros para 7679 euros para quem se instale no interior, e nesse âmbito foram aprovadas 375 candidaturas, correspondentes a 897 pessoas. 

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