sábado, 23 de outubro de 2021

Antivacinas e neofascistas

 



ANÁLISE PONTO DE VISTA

Antivacinas e neofascistas

 

A conjugação entre a luta contra o certificado de vacinação e grupos da extrema-direita é uma perigosa mistura, que fez falar em “regresso do fascismo”. Mas hoje, a ameaça é outra: a de tiranias em nome da soberania popular.

 

Jorge Almeida Fernandes

23 de Outubro de 2021, 7:00

https://www.publico.pt/2021/10/23/mundo/analise/antivacinas-neofascistas-1982177

 

Dois factos. A manifestação de Roma, no dia 9, contra as vacinas e o certificado de vacinação (dito “green pass”) marcou um ponto de ruptura. O protesto foi parasitado por grupos neofascistas, designadamente a Forza Nuova, que assaltaram e vandalizaram a sede do Confederação Geral Italiana dos Trabalhadores (CGIL). Os manifestantes negacionistas seriam 12 mil, os neofascistas talvez 600, mas eram os únicos com um plano: imitar o ataque dos “trumpistas” ao Congresso americano de 6 de Janeiro. Neste caso, o Palácio Chigi, sede do governo. Como estava defendido, a Forza Nuova desviou o ataque para o sindicato.

 

“A sombra do fascismo volta à Itália”, titularam jornais. Era grande o poder simbólico do acto: nos anos 1920, os “esquadristas” de Mussolini dedicavam-se a assaltar sedes sindicais e socialistas. Uma leitura mais atenta mostra que a grande maioria dos negacionistas nada tiveram a ver com o assalto. Deram cobertura de massa à minoria organizada da Forza Nuova. Os grupúsculos neofascistas são uma minoria violenta. Mas não têm força para agir sós. A polícia e a ministra dos Interior foram acusadas de brandura e de subestimar a presença dos neofascistas.

 

Primeira conclusão: o governo Draghi não recuou e o “green pass” tornou-se obrigatório nos sectores público e privado, com aprovação de sindicatos e organizações patronais, para lá da grande maioria da população. Recusar o certificado ou, em alternativa, testes sucessivos, implica não trabalhar, ou seja, perder o salário.

 

A segunda “estória” diz respeito a Trieste. Na segunda-feira houve uma manifestação impulsionada pelos estivadores, grupo em que a taxa de vacinação é baixa. A polícia dispersou a concentração com jactos de água. Nova manifestação foi convocada para ontem. “Esperamos pelo menos 20 mil pessoas”, disse o prefeito de Trieste. “Virão de meia Itália e talvez também do estrangeiro”, noticiava ontem o Corriere della Sera. Segundo o jornal seria uma mistura de “extrema-direita, esquerda radical, católicos integristas, simples famílias com crianças, gandhianos, portuários e Casa Pound [neofascista].” Nas redes sociais, falava-se na vinda dos “black bloc”, de ultras das claques ou de “motociclistas violentos”.

 

O líder portuário Stefano Puzzer, o principal animador do movimento “anti-pass”, pediu às pessoas que ficassem em casa, dado o risco de haver infiltrações de violentos. Apelou a manifestações pacíficas em toda a Itália. Já outro activista antivacinas, Ugo Rossi, deu uma palavra de ordem diversa: “Batalha a todo o custo, dia e noite até à retirada [do “green pass”]. Ao fim da tarde, não havia notícia do que se terá passado.

 

Reaccionário

O movimento antivacinas é uma minoria irredutível que não deve ser subestimada. Na era do populismo, exprime um rancor antielites, as políticas ou as sanitárias. Daí o seu radicalismo anticientífico. É um cadinho de motivações. Cultiva o mito duma conspiração universal, o que é particularmente acentuado nos Estados Unidos.

 

Beppe Grillo, fundador do Movimento 5 Estrelas, foi há anos um dos impulsionadores das campanhas antivacinas. Durante anos, o “No-vax” foi um dos temas de identidade do M5S dentro do parlamento, onde se opôs a numerosas leis. Com a covid-19, Grillo mudou de opinião, fez autocrítica e os dirigentes do partido estão devidamente vacinados. Também as direitas, seja a Liga, de Salvini, ou o Irmãos de Itália, de Giorgia Meloni, se foram sempre opondo, primeiro às máscaras, depois ao confinamento e, por fim, ao “green pass”. Claro que todos se vacinaram. Na oposição, Meloni votou contra, enquanto a Liga, sócia do governo, recuou sempre passo a passo. Foram, e em certa medida continuam a ser, um incentivo ao “No-vax”.

 

Qual é a lição de Roma? Sendo uma força marginal, os neofascistas podem, no entanto, funcionar como pirómanos num movimento de massas mal estruturado. E o movimento antivacinas pode vir a agregar todos os “rancores” que povoam uma era populista. Campanhas antivacinas não são uma novidade, são um fenómeno muito antigo. Novidade é a sua transformação num movimento internacional. A questão consiste em saber quem o vai aproveitar ou canalizar.

 

Escreve no La Stampa a filósofa Donatella di Cesare: “A batalha anti-pass não visa o Estado, nem o poder e menos ainda o governo, mas mina a fundo a dimensão vital do socorro mútuo, da ajuda recíproca. Neste sentido prossegue a desagregação social provocada pela pandemia.” É uma batalha reaccionária, conclui.

 

Fantasmas do fascismo

Tem sentido falar em “regresso do fascismo”? Responde o historiador Emilio Gentile: “Fascismo já não significa nada quando se torna numa palavra que se pode aplicar a tudo. É como máfia. Se tudo é máfia, nada é máfia.” O termo fascista torna-se um mero insulto.

 

Pensando em Roma: “Mas de que se trata se não é fascismo? Se lhes chamamos fascistas, se aceitamos a sua autodefinição como fascistas, pensamos ter compreendido tudo e continua a escapar-nos a razão e a medida em que são perigosos. (…) Não me pergunto se há perigo de regresso do fascismo. Pergunto quantos eram? Dez mil? Vinte mil? Como foi possível ocupar a sede da CGIL? O que se deve procurar compreender e narrar é o presente. É a idade selvagem. A idade dos selvagens. Um estado de ignorância, angústia e hostilidade. Nasce de meios de informação irracionais e da estupidez.”

 

Quando Gentile pede que se concentre a atenção no que aconteceu em Roma e nos desvia dos fantasmas do passado, não está a enviar uma mensagem tranquilizadora. Pelo contrário. É fundamental distinguir entre o fascismo histórico e os fenómenos de hoje. “O fascismo foi um movimento de massas organizado militarmente, (…) um Estado de partido único que procurou transformar, regenerar ou até criar uma nova raça em nome de objectivos imperialistas e de conquista”.

 

Sem estes elementos é impossível falar em fascismo. Corremos o risco de não vislumbrar as ameaças reais do nosso tempo. Declarou numa entrevista à BBC: “O que hoje existe é o perigo de uma democracia, em nome da soberania popular, assumir características racistas, anti-semitas e xenófobas. Mas em nome da vontade popular e da democracia soberana, que é absolutamente o oposto do fascismo, porque o fascismo nega totalmente a soberania popular.”

 

O perigo é que a democracia possa gerar monstros com o consentimento popular. “O problema não é o retorno do fascismo mas os perigos que a democracia pode gerar quando a maioria da população – ou a maioria dos que votam – elege democraticamente líderes nacionalistas, racistas ou anti-semitas.”

 

De Orbán a Kaczynski, de Trump a Bolsonaro, a lista começa a ser inquietante. E há mais candidatos.

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