quinta-feira, 21 de outubro de 2021

A Justiça portuguesa tem um problema chamado Ivo Rosa

 



OPINIÃO

A Justiça portuguesa tem um problema chamado Ivo Rosa

 

Ivo Rosa só é legalista quando lhe dá jeito – porque, quando se trata de impor a sua vontade e a sua visão muito particular do Direito, ele é dado às maiores arbitrariedades.

 

João Miguel Tavares

21 de Outubro de 2021, 1:10

https://www.publico.pt/2021/10/21/opiniao/opiniao/justica-portuguesa-problema-chamado-ivo-rosa-1981850

 

Ivo Rosa talvez fosse um bom juiz num filme de cowboys de John Ford, onde há flechas ensanguentadas, revólveres a fumegar e cadáveres no pó de Monument Valley. Mas no mundo contemporâneo dos paraísos fiscais e dos crimes de colarinho branco, a sua acção é uma desgraça para o prestígio da Justiça portuguesa. Desde que Ivo Rosa integrou o Tribunal Central de Instrução Criminal (TCIC) em 2015, passando a dividir trabalho com o juiz Carlos Alexandre, tem havido uma tal acumulação de milionários que vêem as suas contas desbloqueadas e o seu património devolvido, e de suspeitos de corrupção que vêem os seus crimes despronunciados e a investigação dificultada, que o resultado só pode ser o que se está a ver: um brutal agravamento da desconfiança na Justiça e uma preocupação crescente acerca do comportamento de Ivo Rosa e da sua adequação àquele lugar.

 

Alguns comentadores, jornalistas e políticos – sobretudo gente que em tempos achou José Sócrates um grande primeiro-ministro e que engoliu todas as suas patranhas – fizeram o seu trabalho de formiguinha para conseguir impor a seguinte narrativa acerca dos juízes do TCIC: há um deles, chamado Carlos Alexandre, que diz “ámen” a tudo o que vem do Ministério Público, e que devido ao seu pulsar justiceiro sonha em enfiar metade do país político atrás das grades; e há outro, chamado Ivo Rosa, que impõe estritos limites à acção do Ministério Público, e que garante o absoluto respeito pela lei e pelos direitos dos arguidos.

 

Os desembargadores que avaliaram o recurso do Ministério Público acusaram Ivo Rosa de um acto “inusitado”, “arbitrário” e “infundado”.

 

Só há um pequeno problema com esta narrativa: ela é uma mentira descabelada, destruída por muitos acórdãos do Tribunal da Relação. Infelizmente, não existe uma contabilidade oficial acerca dos resultados dos recursos das decisões de um juiz para a Relação, mas desde que Ivo Rosa começou a dar nas vistas houve quem começasse a contar, e os números são esmagadores: uma vintena de decisões revogadas nos últimos anos, com argumentos de uma rispidez brutal. Basta ver o último acórdão da Relação a propósito do caso EDP.

 

Terminada a exclusividade na Operação Marquês, Ivo Rosa regressou ao caso EDP, para logo anular um despacho anterior de Carlos Alexandre que permitia a junção de mensagens de telemóvel de uma testemunha. Os desembargadores que avaliaram o recurso do Ministério Público acusaram Ivo Rosa de um acto “inusitado”, “arbitrário” e “infundado”; uma “evidente e inaceitável ilegalidade”, que atropela as hierarquias dos tribunais e põe um juiz, por sua alta recreação, a revogar decisões de outro juiz, sem intervenção de um tribunal superior.

 

Na verdade, Ivo Rosa só é legalista quando lhe dá jeito – porque, quando se trata de impor a sua vontade e a sua visão muito particular do Direito, ele é dado às maiores arbitrariedades. Foi isso que se viu na Operação Marquês, em que não deixou pedra sobre pedra da acusação, devolveu 20 milhões de euros a Carlos Santos Silva e desmembrou o processo de tal forma que o imbróglio jurídico só se resolverá na próxima passagem do cometa Halley. É isso que se tem visto no caso EDP, em que os procuradores desesperam para fazer avançar a investigação e já recorreram 20 vezes para a Relação, tendo ganho 19. E é isso que se tem visto em tantos outros casos, em que Rosa é consecutivamente acusado de violar “as regras da experiência comum”.

 

O juiz Ivo Rosa é um negacionista do bom senso. A sua presença no TCIC tem sido uma verdadeira tragédia para o combate ao crime económico em Portugal.

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