ITÁLIA
Veneza vai mesmo começar a cobrar bilhete de entrada. E
com reserva obrigatória
“Não queremos deixar ninguém para trás ou impedir as
pessoas de virem a Veneza. Queremos que as pessoas façam reservas com
antecedência, que nos digam para onde querem ir, o que querem visitar, a fim de
fornecermos um serviço de melhor qualidade.” A medida deverá entrar em vigor
entre o próximo Verão e 2023.
Reuters(Silvia
Aloisi e Alex Fraser)
6 de Setembro de
2021, 17:38
A partir de uma
sala de controlo na sede da polícia em Veneza, o Big Brother está de olho em
nós. Para combater a sobrelotação turística, os agentes estão a seguir toda a
gente que chega à cidade lagunar.
Utilizando 468
câmaras, sensores ópticos e um sistema de localização por telemóvel, podem
distinguir residentes de visitantes, italianos de estrangeiros, de onde vêm as
pessoas, para onde se dirigem e a que velocidade se deslocam.
A cada 15
minutos, as autoridades obtêm um relatório de como a cidade está cheia — além
de quantas gôndolas estão a deslizar no Canal Grande, a que velocidade navegam
os barcos ou se as águas sobem a níveis perigosos.
Agora, um mês
após os navios de cruzeiro terem sido banidos da lagoa, as autoridades da
cidade preparam-se para exigir que os turistas pré-reservem a sua visita numa
app e paguem entre 3 e 10 euros para entrarem, dependendo da época do ano.
Torniquetes
similares aos dos aeroportos estão a ser testados para controlar o fluxo de
pessoas e, caso os números se tornem esmagadores, impedir a entrada de mais
visitantes.
O presidente da
Câmara de Veneza, Luigi Brugnaro, diz que o seu objectivo é tornar o turismo
mais sustentável nesta cidade visitada por 25 milhões de pessoas por ano. Mas
reconhece que as novas regras são susceptíveis de não serem bem aceites por
todos.
“Espero
protestos, processos judiciais, tudo... Mas tenho o dever de tornar esta cidade
habitável para aqueles que nela vivem, e também para aqueles que a querem
visitar”, disse a um grupo de jornalistas estrangeiros este domingo.
Os potenciais
visitantes estão cépticos. “Não gosto nada de ouvir que terei de pagar entrada
só para ver pelas ruas os edifícios da cidade. Quem decide quem pode entrar?”
comentou Marc Schieber, cidadão alemão de visita a Veneza por causa do actual
festival de cinema. “Penso que é provavelmente uma nova forma de fazer
dinheiro.”
Brugnaro adiantou
que as autoridades ainda não tinham decidido quantas pessoas eram demasiadas, e
quando as novas regras entrarão em vigor. No entanto, é possível que tal ocorra
entre o próximo Verão e 2023.
O esquema,
sugerido pela primeira vez em 2019, foi adiado por causa da pandemia
de covid-19. Durante o confinamento do ano passado, os venezianos
maravilharam-se com as ruelas estreitas da sua cidade, por uma vez na vida sem
multidões de turistas, com as águas da lagoa a tornarem-se imaculadas graças à
ausência de barcos a motor.
Mas, à medida que
os visitantes foram regressando para encher a Praça de São Marcos este Verão,
as autoridades voltaram a avisar que Veneza não pode permitir, para sua própria
sobrevivência, que se atinja números de visitantes demasiado elevados.
Visitante
malcomportado? Não entra
Cerca de 193 mil
pessoas acotovelarem-se no centro histórico num único dia durante o Carnaval de
2019, antes da declaração da pandemia. No dia 4 de Agosto deste ano, a cidade
contou 148 mil entradas, com a diferença explicada pelo facto de muitos
viajantes norte-americanos e asiáticos ainda não terem regressado à Europa.
“Há uma limitação
física do número de pessoas que podem estar na cidade ao mesmo tempo”, disse
Marco Bettini, director-geral da Venis, a empresa de informática e tecnologia
que construiu o sistema de monitorização em parceria com o operador telefónico
TIM.
“Não queremos
deixar ninguém para trás ou impedir as pessoas de virem a Veneza. Queremos que
as pessoas façam reservas com antecedência, que nos digam para onde querem ir,
o que querem visitar, a fim de fornecermos um serviço de melhor qualidade.”
Residentes,
estudantes e trabalhadores que vivem fora da cidade estarão isentos desta taxa
turística. Assim como aqueles que passarem pelo menos uma noite num hotel de
Veneza, uma vez que já terão entregado uma taxa similar: a tarifa de pernoita
de até 5 euros por dia cobrada pela cidade.
Brugnaro refere
ainda que não estão em causa preocupações com a privacidade, já que, diz, os
dados recolhidos serão anónimos. Mas a sua mensagem é clara: ao controlar o
número de turistas que visita Veneza, ele também quer que os viajantes se
comportem.
“Haverá condições
associadas à obtenção de prioridade nas reservas e descontos”, disse. “Não
poderá andar pela cidade em fato de banho. Não poderá saltar de uma ponte ou
embebedar-se. Quem quer que venha terá de respeitar a cidade”.
Em Veneza, onde o
número de residentes no centro diminuiu para apenas 55 mil, de cerca de 175 mil
nos anos de 1950, o plano de Brugnaro é alvo de aceso debate, com alguns a
considerarem que irá deixar de fora os turistas menos abastados e transformar a
cidade num parque temático.
Outros, como
Stefano Verratti, de 50 anos, que vende cristal Murano perto da estação de
comboios, apoiam a ideia de desencorajar os excursionistas de um dia.
“Estou aqui há 30
anos e costumava ser muito diferente. Antes, Veneza era realmente romântica”,
disse. “Agora são apenas pessoas apressadas que compram um kebab, fazem uma
selfie na ponte de Rialto e depois correm para apanharem o comboio. Não
me parece que realmente desfrutem.”.




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