Durante a noite registaram-se as primeiras cenas de
violência, quando um grupo de apoiantes do Presidente furou o dispositivo
policial em Brasília. A situação acalmou-se esta manhã.
João Ruela
Ribeiro
7 de Setembro de
2021, 14:55
Começaram de
forma violenta as manifestações pró-governamentais em Brasília esta
terça-feira, apoiadas e promovidas pelo Presidente Jair Bolsonaro, que procura
dar uma demonstração de força num dos momentos mais críticos do seu mandato.
Durante a noite, um grupo de militantes “bolsonaristas” furaram o dispositivo
de segurança para se aproximarem da sede do Supremo Tribunal Federal (STF) na
capital brasileira.
Como muitos
esperavam, o ambiente é de enorme tensão nas principais cidades do país que
comemora o 199.º aniversário da declaração de independência, o mais importante
feriado brasileiro. Durante semanas, Bolsonaro tem feito das marchas convocadas
pelos seus apoiantes um marco, na esperança de que constituam um ponto de
inflexão após meses muito duros.
Os receios de
actos violentos durante os festejos do Dia da Independência foram cumpridos
ainda na véspera, quando, por volta das 22 horas (2h de terça-feira em Portugal
continental), um grupo de algumas centenas de pessoas conseguiu facilmente
aceder à Esplanada dos Ministérios em Brasília, um local que estaria vedado por
agentes da Polícia Militar (PM). Entre vários gritos de apelo a uma invasão do
edifício do STF, alvo privilegiado de ataques de Bolsonaro e dos seus
apoiantes, os manifestantes conseguiram aproximar-se do coração do poder
político e judicial do Brasil.
Com o dispositivo
policial disperso, passaram a circular centenas de camiões de mercadorias na
avenida entre o Congresso e o STF.
As imagens e os
apelos a uma invasão dos centros de poder na capital brasileira reacenderam os
receios de parte da população que teme o aval dado por Bolsonaro a tentativas
de golpe contra o regime democrático.
A situação
acalmou às primeiras horas da manhã desta terça-feira, à medida que milhares de
pessoas foram enchendo a praça da Esplanada dos Ministérios e as cerimónias
oficiais do Dia da Independência foram decorrendo. Depois do hastear da
bandeira e de um curto discurso, Bolsonaro sobrevoou a manifestação de Brasília
num helicóptero.
As primeiras
declarações de Bolsonaro, numa transmissão em directo nas suas redes sociais
ainda antes da cerimónia, mantiveram a postura de desafio às instituições,
embora não tenha nomeado directamente os juízes do STF. “O nosso país não pode
ficar refém de uma ou duas pessoas, não interessa onde elas estejam. Ou entram
nos eixos ou serão simplesmente ignoradas da vida pública”, afirmou o
Presidente brasileiro.
Bolsonaro
prometeu agir dentro da Constituição, mas deixou um aviso: “Vou continuar
jogando dentro das quatro linhas, mas a partir de agora não admito que outras
pessoas, uma ou duas, joguem fora. A regra do jogo é uma só, o respeito à nossa
Constituição”, declarou. O Presidente voltou a tecer ameaças veladas contra o
STF, caso o juiz Alexandre de Moraes não seja afastado. Caso não o faça,
disse Bolsonaro, o tribunal “pode sofrer aquilo que nós não queremos”.
As relações entre
o Presidente brasileiro e os restantes poderes, em particular o STF, atravessam
uma das fases mais difíceis do mandato. Bolsonaro tem reforçado a ideia de que
os juízes do Supremo Tribunal têm agido fora da legalidade ao travar
iniciativas legislativas que o Governo queria ver aprovadas e ao dar ordem de
prisão a aliados do Presidente.
Bolsonaro também
tem levantado dúvidas acerca da fiabilidade do sistema de voto electrónico em
vigor no Brasil, sugerindo que as eleições do próximo ano podem ser
fraudulentas. Em Junho, uma proposta para o regresso ao sistema de voto
impresso, defendido pelo Presidente, foi chumbado pelo Congresso. No entanto, Bolsonaro
tem continuado a divulgar teorias da conspiração sobre potenciais fraudes
eleitorais.
Ao longo do dia
esperam-se mais manifestações a favor e contra Bolsonaro nas principais cidades
brasileiras, que o Presidente promete seguir com atenção. “Hoje é dia do povo
brasileiro, que vai nos dar um norte, para onde o Brasil deve ir”, afirmou no
seu discurso. Por volta das 15 horas (19h em Portugal continental), o
Presidente deverá falar aos seus apoiantes em São Paulo, na Avenida Paulista.
A jornada de manifestações
surge numa altura de enfraquecimento de Bolsonaro, que fica patente na
generalidade dos estudos de opinião que mostram uma queda contínua da sua
popularidade e põem em risco os seus planos de reeleição no próximo ano.
tp.ocilbup@aleur.oaoj


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