terça-feira, 7 de setembro de 2021

“Povo” vai decidir “para onde o Brasil deve ir”, declara Bolsonaro no início das manifestações



 

 “Povo” vai decidir “para onde o Brasil deve ir”, declara Bolsonaro no início das manifestações

 

Durante a noite registaram-se as primeiras cenas de violência, quando um grupo de apoiantes do Presidente furou o dispositivo policial em Brasília. A situação acalmou-se esta manhã.

 

João Ruela Ribeiro

7 de Setembro de 2021, 14:55

https://www.publico.pt/2021/09/07/mundo/noticia/povo-vai-decidir-onde-brasil-ir-declara-bolsonaro-inicio-manifestacoes-1976591

 

Começaram de forma violenta as manifestações pró-governamentais em Brasília esta terça-feira, apoiadas e promovidas pelo Presidente Jair Bolsonaro, que procura dar uma demonstração de força num dos momentos mais críticos do seu mandato. Durante a noite, um grupo de militantes “bolsonaristas” furaram o dispositivo de segurança para se aproximarem da sede do Supremo Tribunal Federal (STF) na capital brasileira.

 

Como muitos esperavam, o ambiente é de enorme tensão nas principais cidades do país que comemora o 199.º aniversário da declaração de independência, o mais importante feriado brasileiro. Durante semanas, Bolsonaro tem feito das marchas convocadas pelos seus apoiantes um marco, na esperança de que constituam um ponto de inflexão após meses muito duros.

 

Os receios de actos violentos durante os festejos do Dia da Independência foram cumpridos ainda na véspera, quando, por volta das 22 horas (2h de terça-feira em Portugal continental), um grupo de algumas centenas de pessoas conseguiu facilmente aceder à Esplanada dos Ministérios em Brasília, um local que estaria vedado por agentes da Polícia Militar (PM). Entre vários gritos de apelo a uma invasão do edifício do STF, alvo privilegiado de ataques de Bolsonaro e dos seus apoiantes, os manifestantes conseguiram aproximar-se do coração do poder político e judicial do Brasil.

 

Com o dispositivo policial disperso, passaram a circular centenas de camiões de mercadorias na avenida entre o Congresso e o STF.

 

As imagens e os apelos a uma invasão dos centros de poder na capital brasileira reacenderam os receios de parte da população que teme o aval dado por Bolsonaro a tentativas de golpe contra o regime democrático.

 

A situação acalmou às primeiras horas da manhã desta terça-feira, à medida que milhares de pessoas foram enchendo a praça da Esplanada dos Ministérios e as cerimónias oficiais do Dia da Independência foram decorrendo. Depois do hastear da bandeira e de um curto discurso, Bolsonaro sobrevoou a manifestação de Brasília num helicóptero.

 

As primeiras declarações de Bolsonaro, numa transmissão em directo nas suas redes sociais ainda antes da cerimónia, mantiveram a postura de desafio às instituições, embora não tenha nomeado directamente os juízes do STF. “O nosso país não pode ficar refém de uma ou duas pessoas, não interessa onde elas estejam. Ou entram nos eixos ou serão simplesmente ignoradas da vida pública”, afirmou o Presidente brasileiro.

 

Bolsonaro prometeu agir dentro da Constituição, mas deixou um aviso: “Vou continuar jogando dentro das quatro linhas, mas a partir de agora não admito que outras pessoas, uma ou duas, joguem fora. A regra do jogo é uma só, o respeito à nossa Constituição”, declarou. O Presidente voltou a tecer ameaças veladas contra o STF, caso o juiz Alexandre de Moraes não seja afastado. Caso não o faça, disse Bolsonaro, o tribunal “pode sofrer aquilo que nós não queremos”.

 

As relações entre o Presidente brasileiro e os restantes poderes, em particular o STF, atravessam uma das fases mais difíceis do mandato. Bolsonaro tem reforçado a ideia de que os juízes do Supremo Tribunal têm agido fora da legalidade ao travar iniciativas legislativas que o Governo queria ver aprovadas e ao dar ordem de prisão a aliados do Presidente.

 

Bolsonaro também tem levantado dúvidas acerca da fiabilidade do sistema de voto electrónico em vigor no Brasil, sugerindo que as eleições do próximo ano podem ser fraudulentas. Em Junho, uma proposta para o regresso ao sistema de voto impresso, defendido pelo Presidente, foi chumbado pelo Congresso. No entanto, Bolsonaro tem continuado a divulgar teorias da conspiração sobre potenciais fraudes eleitorais.

 

Ao longo do dia esperam-se mais manifestações a favor e contra Bolsonaro nas principais cidades brasileiras, que o Presidente promete seguir com atenção. “Hoje é dia do povo brasileiro, que vai nos dar um norte, para onde o Brasil deve ir”, afirmou no seu discurso. Por volta das 15 horas (19h em Portugal continental), o Presidente deverá falar aos seus apoiantes em São Paulo, na Avenida Paulista.

 

A jornada de manifestações surge numa altura de enfraquecimento de Bolsonaro, que fica patente na generalidade dos estudos de opinião que mostram uma queda contínua da sua popularidade e põem em risco os seus planos de reeleição no próximo ano. 

 

tp.ocilbup@aleur.oaoj

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