PERGUNTAS E
RESPOSTAS
Nove ideias sobre a crise da democracia brasileira
Como ameaças às eleições, investidas contra o Supremo
Tribunal Federal e acções contra bolsonaristas exacerbaram a crise entre os
poderes, no dia de uma convocatória para protestos de raiz golpista.
Carolina Linhares
e Joelmir Tavares
7 de Setembro de
2021, 14:11
https://www.publico.pt/2021/09/07/mundo/noticia/nove-ideias-crise-democracia-brasileira-1976586
O Presidente do
Brasil, Jair Bolsonaro prepara-se para participar em protestos de raiz golpista
e de cariz autoritário esta terça-feira, dia da independência no Brasil, na
Esplanada dos Ministérios, em Brasília, e na avenida Paulista, em São Paulo,
com risco de politização de polícias militares.
Os actos ocorrem
no meio de uma crise institucional fabricada pelo próprio Presidente e procuram
dar uma demonstração de força de Bolsonaro.
Ameaças à
realização das eleições de 2022, a defesa do voto impresso, e o pedido de
impeachment do juiz Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF),
foram os últimos capítulos que levaram a uma escalada na tensão entre os
poderes.
O clima de
ebulição em Brasília, instalado a partir de ataques de Bolsonaro aos demais
poderes não é novo e tem sido algo recorrente no seu mandato.
Desta vez, a
tensão envolve as eleições presidenciais do próximo ano, investigações que
visam o Presidente e os seus aliados e investidas cada vez mais radicais contra
juízes do STF.
O Presidente fez
declarações a dizer que o 7 de Setembro será um “ultimato” para juízes do STF,
que “se você quer paz, se prepare para a guerra” e no sábado falou em “ruptura
que nem eu nem o povo deseja”.
1. Que ameaças
fez Bolsonaro contra a realização de eleições em 2022?
“Eleições no ano
que vem serão limpas. Ou fazemos eleições limpas no Brasil ou não temos
eleições”, declarou o Presidente a apoiantes no dia 8 de Julho.
No dia seguinte,
atacou o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o juiz Luís
Roberto Barroso, chamando-o de “idiota” e “imbecil”.
As ameaças baseiam-se
em afirmações falsas de que a urna electrónica não é segura, com acusações
infundadas de que eleições passadas foram alvo de fraude e que Bolsonaro só
será derrotado em 2022 caso haja irregularidades semelhantes — sondagens
recentes apontam o favoritismo do ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Como mostrou a
Folha de S. Paulo, apesar de ser conhecido o modus operandi de Bolsonaro, que
radicaliza o seu discurso sempre que se vê sob pressão, as suas repetidas
ameaças à realização das eleições de 2022 têm gerado cada vez mais preocupação
de uma tentativa de golpe, o que também levou a reacções do STF e do TSE.
O principal
ataque ao sistema eleitoral ocorreu a 29 de Julho, durante a live semanal do
Presidente nas redes sociais.
Na ocasião, Bolsonaro
não apresentou as provas de supostas fraudes eleitorais que vinha prometendo,
falando apenas em teorias sobre a vulnerabilidade das urnas electrónicas que
circulam há anos na internet e já haviam sido desmentidas anteriormente.
O Presidente
chegou a admitir que não pode provar se houve ou não fraude nas eleições. “Não
tem como se comprovar que as eleições não foram ou foram fraudadas. São
indícios. Crime se desvenda com vários indícios.”
Bolsonaro e os
seus aliados defendem a implementação do chamado voto impresso, ou seja, a
impressão de um comprovante do voto dado na urna electrónica e com o qual o
eleitor não poderia ter contacto. O comprovante impresso seria uma forma extra
de auditoria (as urnas electrónicas já são auditadas em todas as eleições).
2. Como o
Congresso tratou a história do voto impresso?
Em estratégia
conhecida de Bolsonaro, as reiteradas acusações falsas sobre a segurança das
urnas electrónicas e a defesa do voto impresso passaram a pautar o debate
nacional e se tornaram tema de deliberação da Câmara dos Deputados.
Em Maio deste
ano, o presidente da Casa, Arthur Lira, aliado de Bolsonaro, instalou uma
comissão especial para debater uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC)
sobre o tema. Em Junho, 11 partidos, inclusive do chamado “centrão”, aliado do
Governo, uniram-se contra o voto impresso.
O tema foi
derrotado na comissão especial, mas levado por Lira ao plenário, onde sofreu
nova derrota no dia 10 de Agosto. Foram 229 votos a favor do texto, 218 contra
e 1 abstenção. Era necessário o apoio de pelo menos 308 dos 513 deputados.
No dia seguinte,
no entanto, Bolsonaro renovou os ataques à Justiça Eleitoral e as insinuações
sem provas sobre a segurança das eleições brasileiras.
3. Como o TSE e o
STF reagiram aos ataques às eleições?
Em oposição às
declarações de Bolsonaro contra as eleições, Barroso e o presidente do STF,
Luiz Fux, foram reagindo com notas e esclarecimentos sobre a segurança das
urnas electrónicas.
Mas, após a live
de 29 de Julho, os juízes dos tribunais superiores decidiram tomar medidas mais
graves. Em primeiro, o TSE decidiu, no dia 2 de Agosto, por unanimidade, abrir
um inquérito para apurar as acusações sem provas feitas pelo Presidente de que
o tribunal frauda as eleições.
Depois, Barroso
assinou uma queixa-crime contra Bolsonaro e recebeu o aval do plenário do TSE
para enviá-la ao STF. Moraes aceitou a queixa-crime de Barroso e incluiu
Bolsonaro como investigado no inquérito das fake news, que tramita no Supremo.
Foi então que a
carga de Bolsonaro se voltou contra Moraes, culminando na apresentação do pedido
de impeachment do ministro.
“A hora dele
[Moraes] vai chegar. Porque está jogando fora das quatro linhas da Constituição
há muito tempo. Não pretendo sair das quatro linhas para questionar essas
autoridades, mas acredito que o momento está chegando”, disse Bolsonaro.
As declarações
levaram Fux a cancelar uma reunião entre os chefes dos poderes que havia
convocado. O presidente do STF disse que é “certo que, quando se atinge um dos
integrantes do tribunal, se atinge a corte por inteiro”.
4. Como o cerco a
Sérgio Reis e Roberto Jefferson, apoiantes de Bolsonaro, agravou a situação?
No dia 13 de
Agosto, a Polícia Federal prendeu Roberto Jefferson, presidente nacional do PTB
e importante aliado de Bolsonaro que vinha insuflando a retórica golpista do
mandatário e as ameaças à ordem democrática.
A prisão foi
solicitada pela Polícia Federal (PF) e autorizada por Moraes no âmbito da
investigação sobre uma suposta organização criminosa digital direccionada para
atacar as instituições a fim de abalar a democracia.
Bolsonaro, então,
afirmou nas redes sociais que pediria o impeachment de dois juízes do STF: “De
há muito, os ministros Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso, do Supremo
Tribunal Federal, extrapolam com actos os limites constitucionais”.
No meio do
confronto entre Bolsonaro e os juízes do Supremo, Reis divulgou nas redes
sociais uma grande manifestação de camionistas com pautas autoritárias e contra
o Supremo, com risco de paralisação e ameaça de caos no feriado de 7 de
Setembro.
“Se em 30 dias
não tirarem os caras [os ministros do STF], nós vamos invadir, quebrar tudo e
tirar os caras na marra [à força]”, afirmou o cantor Sérgio Reis numa conversa
com um amigo que veio a público no dia 14 de Agosto.
Reis foi
desautorizado por líderes dos camionistas que estão à frente das negociações
com o Governo e por ruralistas.
A 20 de Agosto, a
PF cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços do cantor. As medidas
foram solicitadas pela Procuradoria-Geral da República (PGR) e autorizadas por
Moraes.
Ao fazer o pedido
das buscas, a PGR afirmou que o cantor quis “afrontar e intimidar os poderes
constituídos” ao ameaçar parar o país por 72 horas como forma de pressionar o
presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, para aceitar pedido de destituição
contra juízes do STF.
Na mesma
sexta-feira, Bolsonaro cumpriu a ameaça e apresentou ao Senado um pedido de
impeachment contra Moraes assinado por ele próprio. Já o pedido contra o
ministro Barroso até o momento não foi apresentado.
5. Que protestos
de rua estão sendo convocados?
A escalada na
tensão entre os poderes é acompanhada de convocatórias de grupos favoráveis e
contrários a Bolsonaro para manifestações de rua.
Até o último dia
30, praticamente uma semana antes dos actos, movimentos de direita já
contabilizavam caravanas de autocarros de 108 cidades para a manifestação de 7
de Setembro em São Paulo.
O 7 de Setembro
tem sido tratado por bolsonaristas como de “nova Independência”. Com os ataques
ao Supremo em alta, o acto é visto como pró-golpe militar e contra as
instituições.
Apesar de a
destituição de juízes do STF, assim como o voto impresso, continuarem entre as
bandeiras do protesto, nas redes sociais é forte entre os apoiantes o discurso
de que a manifestação é pela liberdade de expressão. Há fortes indícios de que
a tentativa de promover uma guinada nos tópicos nas redes partiu de uma acção
coordenada
Bolsonaro
estimula a participação de apoiantes nos protestos e, apesar de ter feito uma
tentativa de associá-los à bandeira da liberdade de expressão, tem radicalizado
cada vez mais o seu discurso.
Em São Paulo,
grupos de esquerda e apoiantes do Presidente disputavam a avenida Paulista para
o 7 de Setembro, mas o governo estadual concedeu autorização ao protesto
bolsonarista. Após acção judicial, opositores tiveram autorização para realizar
a manifestação no Anhangabaú, no centro de São Paulo.
A tensão com a
realização de actos simultâneos pró e anti-Bolsonaro repetir-se-á em Brasília,
em que os manifestantes estarão em locais a apenas 3 km de distância.
6. Quais as
principais preocupações em relação aos protestos?
Além do teor
claramente golpista das declarações do Presidente e da possibilidade de
confrontos entre manifestantes, a politização da Polícia Militar é vista como
um dos principais riscos para o 7 de Setembro.
Caravanas rumo a
Brasília com a participação de policiais militares de outros estados e o clima
tenso na relação entre parte das tropas e governos estaduais de oposição a
Bolsonaro estão no centro das preocupações.
A questão ganhou
corpo em São Paulo após um ex-agente da polícia e um comandante no activo terem
convocado colegas para os protestos.
Governos
estaduais monitorizam possíveis actos de indisciplina, mas publicamente afirmam
que não há clima para preocupação. Em São Paulo, o coronel no activo Aleksander
Toaldo Lacerda foi suspenso depois de ter feito uma convocatória para o
protesto.
Enquanto isso,
procuradores da Justiça Militar e até juízes têm-se movimentado para coibir a
presença de PM no activo nos protestos, reiterando leis e regimentos que
impedem manifestações de carácter político-partidário.
Alvos dos
manifestantes bolsonaristas, o Congresso e o STF exigiram ao governo do
Distrito Federal o reforço no esquema de segurança. O Parlamento pediu
inclusive que fosse adoptada a mesma táctica usada nas tomadas de posse
presidenciais, o Protocolo de Reacção Táctica Integrada.
7. Qual foi a
reacção ao pedido de impeachment contra Moraes e aos apelos para o 7 de
Setembro?
Bolsonaro
apresentou ao Senado o pedido de impeachment a 20 de Agosto. Além da
destituição do cargo, Bolsonaro pediu o afastamento do juiz de funções públicas
por oito anos.
A acusação teve
como foco a actuação do ministro no inquérito das fake news, no qual Bolsonaro
foi incluído por ataques ao sistema eleitoral. Segundo Bolsonaro, os actos
praticados pelo ministro “transbordam os limites republicanos aceitáveis” e
Moraes não “tem a indispensável imparcialidade para o julgamento dos actos” do
Presidente da República.
No dia da
apresentação, o STF divulgou uma nota oficial em que “manifesta total
confiança” no juiz, diferentes instituições e dez partidos políticos repudiaram
a medida.
Dias depois, o
presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), rejeitou o pedido de
impeachment, apontando falta de base jurídica. Além disso, destacou que a
rejeição poderia ser uma oportunidade para o restabelecimento das “boas
relações entre os poderes”.
Na última
quinta-feira, após encontro com governadores, Pacheco disse que “não se
negoceia a democracia”. Já o presidente da Câmara, Arthur Lira, afirmou que
Bolsonaro sabe que é o único a perder se por acaso houver tumultos nas
manifestações.
Na mesma data, o
presidente do STF, Luiz Fux, afirmou que a “liberdade de expressão não abrange
violência e ameaça” e que o tribunal estará “vigilante” no feriado da
Independência, pela manutenção da plenitude democrática.
Além disso, um
artigo publicado pelo juiz Ricardo Lewandowski na Folha, foi visto por juízes
do STF e integrantes da cúpula do Congresso como o mais claro recado a
Bolsonaro, ao demonstrar as estratégias que o poder judicial pode adoptar caso
o chefe do Executivo resolva partir para uma ruptura institucional.
8. Qual o papel
das Forças Armadas nesta crise?
O papel dos
militares nas ameaças golpistas de Bolsonaro não é um tema novo, já que o
Presidente vem referindo-se às Forças como “meu Exército”.
Diante da
pandemia, o chefe do Executivo por diversas vezes fez discursos ameaçando com
um decreto e fazendo inclusive menção a um estado de sítio.
O último
episódio foi o desfile de veículos militares na Praça dos Três Poderes a 10 de
Agosto, no mesmo dia da votação na Câmara dos Deputados da PEC do voto
impresso.
Interpretado como
uma tentativa de demonstração de força do Presidente no momento em que aparece
encurralado e em queda nas sondagens, o desfile foi alvo de uma série de
críticas do meio político, sendo visto como mais uma tentativa do Planalto de
pressionar outros poderes e de buscar a politização das Forças Armadas.
O
vice-presidente, Hamilton Mourão, afirmou na semana passada que as
manifestações de 7 de Setembro não buscam uma ruptura institucional.
9. Quais são os
factores que deixam Bolsonaro politicamente encurralado neste momento?
Bolsonaro vem
assistindo nos últimos meses a uma sequência de movimentos políticos e
judiciais com potencial para o encurralar. No aspecto eleitoral, a sua
pré-candidatura à reeleição sofreu um baque com a reabilitação de Lula da
Silva, que passou a liderar as sondagens de intenção de voto para 2022.
Ao mesmo tempo, o
seu Governo tornou-se num alvo da Comissão Parlamentar de Investigação da
Covid-19 no Senado, com investigações que buscam responsabilizar o Executivo
pelos erros na gestão da pandemia e na compra de vacinas.
Bolsonaro também
foi criticado pela reacção do Governo na economia, diante do impacto trazido
pela pandemia.
O ministro da
Economia, Paulo Guedes, perdeu poder e espaço, passou a sofrer cobranças mais
incisivas do empresariado e viu a sua agenda de reformas e privatizações ser
travada no Congresso.
As previsões para
o cenário económico mostram uma corrosão do optimismo alardeado com a retomada
pós-pandemia, no meio de índices crescentes de inflação e recuo do PIB.
Em Julho, segundo
a sondagem da Datafolha, a reprovação de Bolsonaro bateu novo recorde: 51% dos
brasileiros avaliam o Governo como ruim ou péssimo. Já a avaliação positiva do
Presidente, que havia atingido o seu pior nível em Março (24%), permaneceu
estável.
Sectores da
oposição passaram também a organizar protestos de rua com abrangência nacional
e internacional a partir de Maio, que tiveram adesão significativa e criaram um
novo facto político, demonstrando insatisfação de parcelas da sociedade com a
actual gestão.
Numa tentativa de
sobreviver a um eventual pedido de impeachment, diante dos mais de cem
protocolados na Câmara dos Deputados (inclusive um super-pedido, assinado por
partidos da oposição e ex-bolsonaristas), o Presidente ampliou o espaço do
centrão no Planalto.
Levou o senador
Ciro Nogueira para chefiar a Casa Civil e acentuou o relacionamento com
deputados do bloco fisiológico de partidos que compõem o centrão,
principalmente com emendas que lhes dão benesses e cargos. A guinada sepultou o
discurso da campanha eleitoral de 2018 contra o “toma lá, dá cá”.
Exclusivo PÚBLICO/Folha de S.Paulo

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