terça-feira, 7 de setembro de 2021

O mundo perante a ameaça de Bolsonaro / Contra todos, Bolsonaro vai apostar tudo na fúria dos seus fiéis / VIDEO:Critics accuse Brazil’s Bolsonaro of stoking ‘coup’ fears ahead of mass ...


EDITORIAL

O mundo perante a ameaça de Bolsonaro

 

Não faz sentido neste momento acreditar que a democracia brasileira está em risco de entrar em colapso. Faz sentido, sim, notar que está sob uma forte ameaça por parte de um Presidente que não esconde a sua feição autoritária

 

Manuel Carvalho

6 de Setembro de 2021, 21:32

https://www.publico.pt/2021/09/06/mundo/editorial/mundo-ameaca-bolsonaro-1976505

 

É, no mínimo, estranho que numa carta assinada por 150 ex-líderes mundiais com duras críticas a Jair Bolsonaro não haja um único português. Num momento crítico do país com o qual dividimos a língua e intensos laços culturais e históricos, seria importante sinalizar que também em Portugal se partilha a preocupação internacional com as tentativas de Jair Bolsonaro de demolir a democracia brasileira. A omissão será certamente justificada pelo facto de ex-Presidentes ou ex-primeiros-ministros de Portugal desconhecerem a iniciativa, ou de não terem sido convocados para a subscrever. Seria por isso conveniente encontrar alternativas para expressar preocupação com a ameaça do bolsonarismo e mostrar que, como em todas as democracias, Portugal está solidário com todos os que se empenham em manter vivo o Estado de direito e os princípios constitucionais arduamente conquistados pelos brasileiros em 1988.

 

O que está em causa esta terça-feira, Dia da Independência do Brasil, com as manifestações organizadas em todo o país pelo Presidente brasileiro e pelos seus acólitos, não é apenas mais um episódio de um longo conflito político. Até agora, todas as ofensivas dirigidas por Bolsonaro contra a independência dos tribunais, a soberania do Congresso ou a liberdade da imprensa foram rechaçadas por um edifício institucional sólido e uma sociedade civil mobilizada e consciente dos valores da democracia. Ao trazer o combate político para a praça pública, Bolsonaro radicaliza as suas ameaças. Tanto quer mostrar que as ruas não são apenas terreno da oposição, o que é legítimo, como mostrar força para vergar a resistência que as instituições democráticas têm oferecido aos seus avanços ditatoriais.

 

É neste preciso momento que a solidariedade internacional faz sentido e falta. Os juízes brasileiros, os jornalistas, os deputados e todos os que se batem pela preservação da ordem constitucional precisam de saber que o mundo está atento e solidário com as suas causas. Bolsonaro precisa de saber que o mundo condena sem reservas as suas tentativas de sabotagem, seja através da compra de deputados, de inéditos e impensáveis pedidos de afastamento de juízes incómodos, de ataques soezes a jornais ou de despudoradas tentativas de ingerência nas eleições através da extinção de um sistema de voto digital até agora elogiado internacionalmente.

 

Não faz sentido neste momento acreditar que a democracia brasileira está em risco de entrar em colapso. Faz sentido, sim, notar que está sob uma forte ameaça por parte de um Presidente que não esconde a sua feição autoritária. Até agora, o Brasil mostrou ser uma nação com nervo para resistir e garantir que os seus cidadãos poderão exercer a sua vontade nas eleições de 2022. É bom que saibam que não estão sozinhos. 

 

tp.ocilbup@ohlavrac.leunam

 

BRASIL

Contra todos, Bolsonaro vai apostar tudo na fúria dos seus fiéis

 

Há semanas que o Presidente brasileiro tem apelado à participação dos seus apoiantes em manifestações do Dia da Independência. Bolsonaro nunca esteve tão fraco como agora e a radicalização parece ser a arma que lhe resta.

 

João Ruela Ribeiro

6 de Setembro de 2021, 22:30

https://www.publico.pt/2021/09/06/mundo/noticia/bolsonaro-vai-apostar-furia-fieis-1976524

 

Após semanas de elevada tensão acumulada na política brasileira, o país prepara-se para celebrar o Dia da Independência esta terça-feira, marcado por manifestações pró-governamentais em praticamente todas as grandes cidades. As marchas têm sido amplamente promovidas pelo Presidente Jair Bolsonaro, que parece encontrar apenas a radicalização como resposta aos vários ventos que foi semeando desde que chegou ao cargo.

 

Há uma enorme expectativa para o que se pode desenrolar ao longo desta terça-feira, sobretudo em Brasília, para onde está convocada a mais importante manifestação de apoio a Bolsonaro, e em que o próprio Presidente deverá estar presente. O chefe de Estado não se tem coibido de fazer dos actos deste feriado nacional um teste à sua própria força política, almejando aparecer ao lado de um banho de multidão trajada a verde e amarelo que fale mais alto do que a generalidade das sondagens que o mostram em queda livre a pouco mais de um ano das eleições.

 

Esse seria um objectivo razoável para qualquer líder político em qualquer canto do mundo, mas com Bolsonaro tudo é um pouco mais intenso e conflituoso. As manifestações do Dia da Independência surgem num contexto de um profundo confronto entre o Presidente e as restantes instituições do país, desde os tribunais, passando pelo Congresso e pela maioria dos governadores. Esse clima é permanente desde a chegada do capitão reformado ao Palácio do Planalto, mas nos últimos tempos a temperatura aqueceu.

 

O culminar da crise ocorreu no mês passado, quando o Presidente apresentou um pedido de destituição do juiz do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, por ter decretado a prisão de alguns dos seus aliados, acusados de promoverem actos de insubordinação em Brasília. O pedido, inédito na história democrática brasileira, foi amplamente rejeitado pelo Senado federal, mas nem por isso Bolsonaro tem procurado a pacificação. O Presidente já tinha visto cair antes por terra uma iniciativa legislativa para o regresso ao sistema de voto em papel – Bolsonaro tem propagado teorias da conspiração sobre supostas fraudes nas eleições brasileiras, sem nunca as comprovar.

 

Desde então, o dia 7 de Setembro impôs-se no horizonte de Bolsonaro como um marco para a sua sobrevivência política. Em deslocações por todo o país, numa antecipadíssima campanha eleitoral, o Presidente não tem perdido oportunidade para convocar todos os seus apoiantes para participarem nas manifestações do Dia da Independência, sem nunca deixar de recordar que integram uma batalha pelo futuro do Brasil.

 

Na última sexta-feira, na Bahia, Bolsonaro voltou a fazê-lo, embora sem nomear directamente os seus adversários. “Não podemos admitir que uma ou duas pessoas que, usando da força do poder, queiram dar novo rumo ao nosso país. Essas uma ou duas pessoas têm que entender o seu lugar. E o recado de vocês, povo brasileiro, nas ruas, na próxima terça-feira, dia 7, será um ultimato para essas duas pessoas”, declarou, referindo-se a Moraes e ao presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Luís Roberto Barroso.

 

Alguns dias antes, Bolsonaro já tinha dramatizado a situação em que se encontra com o objectivo de intensificar a mobilização para as manifestações ao dizer que vê “três alternativas” para o seu futuro: “Estar preso, ser morto ou a vitória.”

 

Pressão intensa

O Presidente brasileiro atravessa um dos períodos mais difíceis da sua governação e chega aos festejos do Dia da Independência com a coligação social e política que o tinha ajudado a vencer de forma surpreendente as eleições de 2018 totalmente desfeita. Para além do clima de confronto permanente com as autoridades judiciais, Bolsonaro vê-se sob a pressão das conclusões que têm sido apuradas pela Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado sobre a pandemia, que indicam não só a negligência do seu Governo no combate ao vírus, mas também levantam suspeitas de corrupção nos contratos de compra de vacinas.

 

A degradação da situação económica também surte efeitos políticos, com a perda de popularidade entre os sectores mais pobres, que, apesar das ajudas governamentais, estão a assistir a uma subida acentuada dos preços da maioria dos produtos básicos. Nos últimos dias, a Federação Brasileira dos Bancos (Febrabran) publicou um comunicado com apelos à “harmonia entre os poderes”, o que foi interpretado como o lobby financeiro a afastar-se de Bolsonaro, intuindo que este dificilmente terá condições para se manter como um candidato competitivo até Outubro de 2022.

 

Da base parlamentar que apoia o Governo, conhecida informalmente como “centrão”, surgem vários avisos para que Bolsonaro modere o discurso, sem sucesso. A manutenção de um respaldo parlamentar sólido na Câmara dos Deputados é crucial para que o Presidente evite a abertura de um processo de impeachment.

 

Encurralado como nunca e com a reeleição em alto risco, a Bolsonaro não parecem restar muitas saídas que não a radicalização, e essa é a expectativa para o que se vai passar esta terça-feira. A incógnita é saber que resposta irá obter. Um dos principais receios é o da participação de membros da Polícia Militar (PM), de forma encoberta, nas manifestações e na possibilidade de estalarem episódios de violência. Uma sondagem apontava para a participação de três em cada dez membros da PM nas manifestações desta terça-feira.

 

As PM dos estados são um dos bastiões do bolsonarismo e têm um historial de desobediência ao comando dos governadores. “Essas polícias constituem nestes anos de democracia um enclave institucional refractário à Constituição, à cultura democrática e à autoridade política civil e republicana”, diz ao PÚBLICO o antropólogo e um dos maiores especialistas em segurança pública no Brasil, Luiz Eduardo Soares.

 

O especialista diz que o clima face às marchas desta terça-feira é de “muita incerteza”. Embora tenham manifestado preocupação, os governadores têm garantido que as polícias dos seus estados não vão permitir qualquer abuso e afastam qualquer possibilidade de participação em actos que atentem contra o regime democrático. No entanto, a imagem de uma multidão a invadir o edifício do Capitólio em Washington, em Janeiro, é um fantasma que os analistas convocam para alertar para os perigos que situações limite como estas podem acarretar.

 

“Aqueles que têm interesse em radicalizar o processo podem criar uma cena de desordem, caos, conflito, para sugerir que são as esquerdas que fazem isso e que os governos estaduais não conseguem manter a ordem, o que justificaria uma intervenção”, nota Soares. Esta ideia não é nova. Em 2019, o senador Eduardo Bolsonaro, um dos filhos do Presidente, defendeu a possibilidade de se vir a aplicar uma nova versão do AI-5, um conjunto de medidas repressoras dos direitos e liberdades civis da época da Ditadura Militar, “se a esquerda se radicalizar”.

 

Isolado, sem força política e privado de quase todos os aliados, muitos duvidam da capacidade de Bolsonaro em conseguir, mesmo que queira, levar a cabo um golpe clássico. Mas Luiz Eduardo Soares deixa a principal lição que aprendeu nos últimos anos sobre Bolsonaro: “Podemos cometer todos os erros, menos subestimá-lo.”


Sem comentários: