quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Medina acusa Moedas de ser “um camaleão”. Moedas diz que Medina é “director de marketing” / O meu partido é Lisboa (2), por António Sérgio Rosa de Carvalho

 



 CÂMARA DE LISBOA

Medina acusa Moedas de ser “um camaleão”. Moedas diz que Medina é “director de marketing”

 

Candidatos à presidência da câmara de Lisboa do PS e PSD passaram quase uma hora a trocar acusações no frente a frente na TVI.

 

Luciano Alvarez e Cristiana Faria Moreira

7 de Setembro de 2021, 22:23

https://www.publico.pt/2021/09/07/politica/noticia/medina-acusa-moedas-camaleao-moedas-medina-director-marketing-1976675

 

Fernando Medina, actual presidente socialista da Câmara de Lisboa, e Carlos Moedas, candidato da coligação liderada PSD à eleição de dia 26 de Setembro, travaram na noite desta terça-feira um debate vivo e que ficou marcado por discordância total nas mais variadas áreas e por uma constante troca de acusações.

 

O debate arrancou, de resto, como o da semana passada, que opôs os candidatos dos partidos com assento parlamentar: os processos judiciais que têm ensombrado o urbanismo na capital. Medina defendeu-se, dizendo que está a apoiar as investigações para que “as entidades façam um apuramento com a máxima brevidade possível”. E voltou a acusar Moedas de “aproveitamento político” nestes casos em pleno período de pré-campanha eleitoral.

 

Já Carlos Moedas defendeu-se com a “necessidade de escrutinar” os 14 anos de governação socialista na câmara da capital, sublinhando que o “serviço de urbanismo é dos mais importantes numa câmara municipal”. “Há algo errado neste serviço de urbanismo”, disse, lembrando o caso do ex-vereador Manuel Salgado, arguido num inquérito judicial relacionado com a construção do Hospital CUF Tejo, em Alcântara, e que continua a ser consultor de Medina. “Não são casos nem casinhos. São problemas sérios”, atirou Moedas, defendendo-se das acusações de Medina de que a sua campanha se tem centrado apenas no ataque à sua gestão, sem apresentar ideias para a cidade. 

 

“Carlos Moedas demonstrou em que transformou a sua campanha. Carlos Moedas não tem qualquer ideia para Lisboa”, disse o autarca que se recandidata, acusando-o de agir como “um camaleão” que “vai dizendo umas coisas num sítio e o seu contrário noutro”. Moedas ripostou, dizendo que Medina é um “director marketing” da autarquia.

 

Depois das trocas de acusações, o debate havia de entrar então na discussão das propostas que cada um tem para a cidade. Medina e Moedas discordaram totalmente nas políticas de mobilidade, de habitação, nas taxas e impostos ou nas políticas ambientais chamadas ao debate. As picardias estiveram sempre mais presentes do que as propostas para a cidade. O debate chegou mesmo a ser confuso, já que os candidatos misturaram os mais variados temas.

 

No que se refere aos impostos, o candidato da coligação Novos Tempos começou por considerar que “as pessoas estão fartas de pagar impostos”, lembrando com isso que quer devolver 32 milhões de euros de IRS aos lisboetas.

 

Fernando Medina respondeu: “A Câmara de Lisboa é a autarquia na AML que tem os impostos mais baixos”. Para logo a seguir assumir a necessidade de “manter a segurança financeira” do município. “A CML reduziu o seu passivo em cerca de 1000 milhões de euros”, disse, acusando o PSD de ter levado a câmara à “bancarrota” quando governou Lisboa.

 

Isenção de IMT? “Um descontozinho"

O debate havia de passar para o grande tema da campanha: a habitação. Moedas voltou a acusar Medina de não ter cumprido o objectivo de disponibilizar as 6000 casas municipais que prometera há quatro anos. “É um dos maiores falhanços de Medina”, atirou, para, logo depois, dedicar tempo à sua medida: isentar o pagamento do IMT aos jovens até 35 anos que comprem a sua primeira casa até 250 mil euros na capital.

 

Medina rapidamente interveio para criticar a medida que, a seu ver, é um “descontozinho”. “A candidatura do PSD não aprendeu nada sobre o que se passa na habitação”, afirmou. “O que vai fazer a diferença não é o desconto do IMT, mas ter os 50 mil euros para dar de entrada”, acrescentou, considerando que a medida não resolverá as dificuldades dos jovens.

 

Transportes gratuitos para jovens e idosos

Sobre a entrada de automóveis na cidade, os dois candidatos haviam de ser confrontados sobre se faz sentido criar uma taxa para os carros que entram no centro da cidade. Na resposta, o actual autarca afirmou que existem já “muitas taxas” e que “a grande resposta que tem de ser construída é o investimento nos transportes públicos pesados no acesso a Lisboa”, como o reforço e melhoria das redes ferroviárias e a expansão do metropolitano.

 

“À medida que vamos aumentando a oferta de transporte público, vamos reduzindo a entrada de automóveis”, lembrou Medina, para logo depois criticar algumas omissões no programa do adversário.

 

“O que é notável é que um candidato em 2021, com o conhecimento que tem, é capaz de, num capítulo inteiro sobre alterações climáticas, não ter uma palavra sobre a redução de emissões dos transportes, que é a maior fonte de emissão na cidade de Lisboa”, atirou. “É chocante.”

 

Na resposta, Moedas lembrou ter sido ele o comissário europeu responsável por criar um fundo de 3,5 mil milhões de euros por ano para o combate às alterações climáticas. E, sobre essa eventual hipótese de taxar as entradas de carros na cidade, disse ser contra.

 

Para reduzir a entrada de carros na capital, o candidato social-democrata propõe a construção de parques dissuasores à entrada da cidade. E a gratuitidade do transporte público para jovens até aos 23 anos e pessoas com mais de 65 anos, como medida de “incentivo ao transporte público”. 

 

Medina puxou dos galões com a introdução do passe metropolitano, que reduziu para 40 euros o custo de todas as viagens na Grande Lisboa. Uma medida que, lembrou, foi criticada pelo PSD, que acusou então o Governo de eleitoralismo. “Nós fizemos uma reforma da maior importância social e ambiental. O programa do PSD é mais uma bola de Natal”, no que à mobilidade diz respeito, criticou Medina. 

 

Foi então que Moedas se demarcou do líder do partido, Rui Rio. “A coligação Novos Tempos tem cinco partidos. Sou militante do PSD e tenho as minhas ideias.”

 

"As pessoas estão cansadas desta governação”

A construção de ciclovias em Lisboa foi outro dos temas chamados ao debate, com Moedas a garantir que se for eleito presidente da câmara muda a via na Avenida Almirante Reis, prometendo ainda uma auditoria.

 

Medina respondeu acusando Moedas de ter “adoptado a estratégia do automóvel”: “Quer ser simpático com as pessoas que estão do lado da promoção do automóvel. E faz isto parecendo ser moderninho ao mesmo tempo. Quer estar bem com Deus e com o diabo. Isto é fatal em política.”

 

Moedas respondeu de pronto: “Em 2019, morreram 26 pessoas nas ciclovias. É uma conversa redonda? Não é.”

 

As últimas palavras do debate couberam a Carlos Moedas, que reafirmou a esperança em sair vitorioso no próximo dia 26. “Eu é que vou ganhar as eleições”, disse. “As pessoas estão cansadas de um presidente da Câmara que não as ouve, que não fala com elas e não está com elas. As pessoas estão cansadas desta governação”, concluiu. 

 



OPINIÃO

O meu partido é Lisboa (2)

 

As únicas forças verdadeiramente e antecipadamente vencedoras das próximas eleições autárquicas são as forças da cidadania activa e participativa.

 

António Sérgio Rosa de Carvalho

22 de Abril de 2021, 17:20

https://www.publico.pt/2021/04/22/opiniao/noticia/partido-lisboa-2-1959644

 

O número 2 neste título refere o facto de ele ser utilizado pela segunda vez. Com efeito, ele foi utilizado anteriormente por mim numa análise crítica do percurso político de António Costa (1) ilustrado pelo título do seu livro Caminho Aberto. Tratava-se de um cargo como presidente da autarquia constituir apenas um ‘trampolim’ para “voos mais altos”, como, aliás, se veio a confirmar.

 

O que se pretende de um candidato à Câmara Municipal de Lisboa? Um genuíno interesse e apelo baseado num conhecimento profundo dos verdadeiros desafios da cidade adquirido por anos de observação, reflexão e participação. Tudo isto, traduzido numa grande capacidade de gestão consciente e cuidada junto a efectiva visão estratégica, equilibrada entre desenvolvimento e salvaguarda, também com adequada sensibilidade para as questões sociais e a urgência no campo da habitação.

 

Ora, Carlos Moedas (2)  apresentou uma declaração de amor à cidade baseada ‘numa mão cheia de nada’ incapaz de nos convencer da sua maturidade de conhecimento dos verdadeiros desafios da cidade no presente e no futuro. Ficámos com a impressão de que ele constitui apenas o candidato de forças políticas moribundas, que assim e desesperadamente procuram um renascimento.

 

Fica-se nitidamente com a impressão de que, em essência, não se trata de uma ‘Fénix’, mas de uma inefectiva e mera jogada política definida pelo vazio de um falso mérito passado.

 

Ou não perceberam ainda os chamados ‘liberais’ devastados por anos e anos de materialismo feroz e ganancioso que Joe Biden revelou-se fortemente não apenas como o candidato anti-Trump, mas também, e cada vez mais, como o anti-Reagan? O seu novo “New Deal” é baseado na consciência de que a sensibilidade das classes trabalhadoras e populares ao populismo irracional surge das profundas desigualdades criadas pelo neoliberalismo.

 

Os ‘35 anos a bazucar’ (título de Miguel Sousa Tavares) (3) ilustraram perfeitamente e dramaticamente as teias e ‘polvos’ desenvolvidos por toda uma geração a que podemos chamar a geração do ‘Compromisso Portugal’ com políticos, gestores, empresários, banqueiros que nos levaram agora às encruzilhadas sucessivas e inefectivas da justiça e ao impasse de uma classe política cada vez mais desprestigiada.

 

As únicas forças verdadeiramente e antecipadamente vencedoras das próximas eleições autárquicas são as forças da cidadania activa e participativa. No entanto, estas forças, constituídas por grupos heterogéneos e flutuantes de cidadãos, unidos apenas por temas, mas com diferentes, variadas e pluralistas motivações e convicções, mantêm-se exteriores às definições de campos políticos.

 

Não nos espantemos, portanto, que nós, como votantes, sejamos também ‘órfãos políticos’ sem candidatos que nos representem, capazes de nos libertarem do ‘limbo’ a que fomos condenados

 

Daí os partidos políticos tentarem ‘agarrar’ e conduzir este autêntico potencial com promessas aliciantes aos ‘independentes’.(4) Disso, já tivemos com fartura com Sá Fernandes e Helena Roseta, que viabilizaram constantemente e sistematicamente a gestões de Costa e de Medina.

 

Com os tais 35 anos criámos legiões de órfãos. Toda uma juventude licenciada mas exilada, numa gigantesca diáspora.(5)

 

Não nos espantemos, portanto, que nós, como votantes, sejamos também ‘órfãos políticos’ sem candidatos que nos representem, capazes de nos libertarem do ‘limbo’ a que fomos condenados.

 

E isto numa Lisboa que até ao ciclo corona estava prisioneira de monoculturas destruidoras (turismo de massas, omnipresente alojamento local, crise da habitação, omnipotente imobiliário especulativo, monocultura exclusiva dos hotéis., etc..) e terá que enfrentar profundos, e até agora incertos, desafios futuros no período pós-corona.

 

Um é claro e sobrepõe-se a todos os outros: as alterações climáticas.

 

Sim, quando caoticamente a caixa de Pandora foi aberta, e tudo se escapou e diluiu num ápice, como neve derretida sobre o Sol, a única coisa que ficou foi a esperança.

 

A minha esperança vai para uma cidadania cada vez mais activa, maduramente crítica e verdadeiramente independente.

 

Como já afirmei anteriormente: a cidadania exerce-se. A cidadania não vai a votos!(6)

 

Historiador de Arquitectura


(1   (1)   https://www.publico.pt/2014/08/06/politica/opiniao/o-meu-partido-e-lisboa-1665458

   

(2    (2)  https://www.publico.pt/2021/03/04/politica/noticia/carlos-moedas-decisao-vida-reflectiva-pensada-1953129

 

(3    (3)   https://expresso.pt/opiniao/2021-03-05-35-anos-a-bazucar

 

(4    (4)   https://www.publico.pt/2021/04/21/politica/noticia/ps-be-cds-alargam-direitos-independentes-psd-quer-saber-sao-filiados-partidos-1959538

 

(5(    (5)  https://www.publico.pt/2017/02/24/sociedade/noticia/emigracao-mantem-os-niveis-altos-da-crise-e-isso-e-devastador-para-o-pais-1763125

 

(6   (6)   https://www.publico.pt/2009/07/19/jornal/uma-questao-de-promiscuidades-17324530


Sem comentários: