Medina acusa Moedas de ser “um camaleão”. Moedas diz que
Medina é “director de marketing”
Candidatos à presidência da câmara de Lisboa do PS e PSD
passaram quase uma hora a trocar acusações no frente a frente na TVI.
Luciano Alvarez e
Cristiana Faria Moreira
7 de Setembro de
2021, 22:23
Fernando Medina,
actual presidente socialista da Câmara de Lisboa, e Carlos Moedas, candidato da
coligação liderada PSD à eleição de dia 26 de Setembro, travaram na noite desta
terça-feira um debate vivo e que ficou marcado por discordância total nas mais
variadas áreas e por uma constante troca de acusações.
O debate
arrancou, de resto, como o da semana passada, que opôs os candidatos dos
partidos com assento parlamentar: os processos judiciais que têm ensombrado o
urbanismo na capital. Medina defendeu-se, dizendo que está a apoiar as
investigações para que “as entidades façam um apuramento com a máxima brevidade
possível”. E voltou a acusar Moedas de “aproveitamento político” nestes casos
em pleno período de pré-campanha eleitoral.
Já Carlos Moedas
defendeu-se com a “necessidade de escrutinar” os 14 anos de governação
socialista na câmara da capital, sublinhando que o “serviço de urbanismo é dos
mais importantes numa câmara municipal”. “Há algo errado neste serviço de
urbanismo”, disse, lembrando o caso do ex-vereador Manuel Salgado, arguido num
inquérito judicial relacionado com a construção do Hospital CUF Tejo, em
Alcântara, e que continua a ser consultor de Medina. “Não são casos
nem casinhos. São problemas sérios”, atirou Moedas, defendendo-se das
acusações de Medina de que a sua campanha se tem centrado apenas no ataque à
sua gestão, sem apresentar ideias para a cidade.
“Carlos Moedas
demonstrou em que transformou a sua campanha. Carlos Moedas não tem qualquer
ideia para Lisboa”, disse o autarca que se recandidata, acusando-o de agir como
“um camaleão” que “vai dizendo umas coisas num sítio e o seu contrário
noutro”. Moedas ripostou, dizendo que Medina é um “director marketing” da
autarquia.
Depois das trocas
de acusações, o debate havia de entrar então na discussão das propostas que
cada um tem para a cidade. Medina e Moedas discordaram totalmente nas políticas
de mobilidade, de habitação, nas taxas e impostos ou nas políticas ambientais
chamadas ao debate. As picardias estiveram sempre mais presentes do que as
propostas para a cidade. O debate chegou mesmo a ser confuso, já que os
candidatos misturaram os mais variados temas.
No que se refere
aos impostos, o candidato da coligação Novos Tempos começou por considerar que
“as pessoas estão fartas de pagar impostos”, lembrando com isso que quer
devolver 32 milhões de euros de IRS aos lisboetas.
Fernando Medina
respondeu: “A Câmara de Lisboa é a autarquia na AML que tem os impostos mais
baixos”. Para logo a seguir assumir a necessidade de “manter a segurança
financeira” do município. “A CML reduziu o seu passivo em cerca de 1000 milhões
de euros”, disse, acusando o PSD de ter levado a câmara à “bancarrota” quando
governou Lisboa.
Isenção de IMT?
“Um descontozinho"
O debate havia de
passar para o grande tema da campanha: a habitação. Moedas voltou a acusar
Medina de não ter cumprido o objectivo de disponibilizar as 6000 casas
municipais que prometera há quatro anos. “É um dos maiores falhanços de Medina”,
atirou, para, logo depois, dedicar tempo à sua medida: isentar o pagamento do
IMT aos jovens até 35 anos que comprem a sua primeira casa até 250 mil euros na
capital.
Medina
rapidamente interveio para criticar a medida que, a seu ver, é um “descontozinho”.
“A candidatura do PSD não aprendeu nada sobre o que se passa na habitação”,
afirmou. “O que vai fazer a diferença não é o desconto do IMT, mas ter os 50
mil euros para dar de entrada”, acrescentou, considerando que a medida não
resolverá as dificuldades dos jovens.
Transportes
gratuitos para jovens e idosos
Sobre a entrada
de automóveis na cidade, os dois candidatos haviam de ser confrontados sobre se
faz sentido criar uma taxa para os carros que entram no centro da cidade.
Na resposta, o actual autarca afirmou que existem já “muitas taxas” e que “a
grande resposta que tem de ser construída é o investimento nos transportes
públicos pesados no acesso a Lisboa”, como o reforço e melhoria das redes
ferroviárias e a expansão do metropolitano.
“À medida que
vamos aumentando a oferta de transporte público, vamos reduzindo a entrada
de automóveis”, lembrou Medina, para logo depois criticar algumas omissões no
programa do adversário.
“O que é notável
é que um candidato em 2021, com o conhecimento que tem, é capaz de, num
capítulo inteiro sobre alterações climáticas, não ter uma palavra sobre a
redução de emissões dos transportes, que é a maior fonte de emissão na cidade
de Lisboa”, atirou. “É chocante.”
Na resposta,
Moedas lembrou ter sido ele o comissário europeu responsável por criar um fundo
de 3,5 mil milhões de euros por ano para o combate às alterações
climáticas. E, sobre essa eventual hipótese de taxar as entradas de carros na
cidade, disse ser contra.
Para reduzir a
entrada de carros na capital, o candidato social-democrata propõe a
construção de parques dissuasores à entrada da cidade. E a gratuitidade do
transporte público para jovens até aos 23 anos e pessoas com mais de 65 anos,
como medida de “incentivo ao transporte público”.
Medina puxou dos
galões com a introdução do passe metropolitano, que reduziu para 40 euros o
custo de todas as viagens na Grande Lisboa. Uma medida que, lembrou, foi
criticada pelo PSD, que acusou então o Governo de eleitoralismo. “Nós
fizemos uma reforma da maior importância social e ambiental. O programa do
PSD é mais uma bola de Natal”, no que à mobilidade diz respeito, criticou
Medina.
Foi então que
Moedas se demarcou do líder do partido, Rui Rio. “A coligação Novos
Tempos tem cinco partidos. Sou militante do PSD e tenho as minhas ideias.”
"As pessoas
estão cansadas desta governação”
A construção de
ciclovias em Lisboa foi outro dos temas chamados ao debate, com Moedas a
garantir que se for eleito presidente da câmara muda a via na Avenida Almirante
Reis, prometendo ainda uma auditoria.
Medina respondeu
acusando Moedas de ter “adoptado a estratégia do automóvel”: “Quer ser
simpático com as pessoas que estão do lado da promoção do automóvel. E faz isto
parecendo ser moderninho ao mesmo tempo. Quer estar bem com Deus e com o diabo.
Isto é fatal em política.”
Moedas respondeu
de pronto: “Em 2019, morreram 26 pessoas nas ciclovias. É uma conversa redonda?
Não é.”
As últimas
palavras do debate couberam a Carlos Moedas, que reafirmou a esperança em sair
vitorioso no próximo dia 26. “Eu é que vou ganhar as eleições”, disse. “As
pessoas estão cansadas de um presidente da Câmara que não as ouve, que não fala
com elas e não está com elas. As pessoas estão cansadas desta
governação”, concluiu.
OPINIÃO
O meu partido é Lisboa (2)
As únicas forças verdadeiramente e antecipadamente
vencedoras das próximas eleições autárquicas são as forças da cidadania activa
e participativa.
António Sérgio
Rosa de Carvalho
22 de Abril de
2021, 17:20
https://www.publico.pt/2021/04/22/opiniao/noticia/partido-lisboa-2-1959644
O número 2 neste
título refere o facto de ele ser utilizado pela segunda vez. Com efeito, ele
foi utilizado anteriormente por mim numa análise crítica do percurso
político de António Costa (1) ilustrado pelo
título do seu livro Caminho Aberto. Tratava-se de um cargo como presidente da
autarquia constituir apenas um ‘trampolim’ para “voos mais altos”, como, aliás,
se veio a confirmar.
O que se pretende
de um candidato à Câmara Municipal de Lisboa? Um genuíno interesse e apelo
baseado num conhecimento profundo dos verdadeiros desafios da cidade adquirido
por anos de observação, reflexão e participação. Tudo isto, traduzido numa grande
capacidade de gestão consciente e cuidada junto a efectiva visão estratégica,
equilibrada entre desenvolvimento e salvaguarda, também com adequada
sensibilidade para as questões sociais e a urgência no campo da habitação.
Ora, Carlos
Moedas (2) apresentou
uma declaração de amor à cidade baseada ‘numa mão cheia de nada’ incapaz de nos
convencer da sua maturidade de conhecimento dos verdadeiros desafios da cidade
no presente e no futuro. Ficámos com a impressão de que ele constitui apenas o
candidato de forças políticas moribundas, que assim e desesperadamente procuram
um renascimento.
Fica-se
nitidamente com a impressão de que, em essência, não se trata de uma ‘Fénix’,
mas de uma inefectiva e mera jogada política definida pelo vazio de um falso
mérito passado.
Ou não perceberam
ainda os chamados ‘liberais’ devastados por anos e anos de materialismo feroz e
ganancioso que Joe Biden revelou-se fortemente não apenas como o candidato
anti-Trump, mas também, e cada vez mais, como o anti-Reagan? O seu novo “New
Deal” é baseado na consciência de que a sensibilidade das classes trabalhadoras
e populares ao populismo irracional surge das profundas desigualdades criadas
pelo neoliberalismo.
Os ‘35 anos a
bazucar’ (título de Miguel Sousa Tavares) (3) ilustraram
perfeitamente e dramaticamente as teias e ‘polvos’ desenvolvidos por toda uma
geração a que podemos chamar a geração do ‘Compromisso Portugal’ com políticos,
gestores, empresários, banqueiros que nos levaram agora às encruzilhadas
sucessivas e inefectivas da justiça e ao impasse de uma classe política cada
vez mais desprestigiada.
As únicas forças
verdadeiramente e antecipadamente vencedoras das próximas eleições autárquicas
são as forças da cidadania activa e participativa. No entanto, estas forças,
constituídas por grupos heterogéneos e flutuantes de cidadãos, unidos apenas
por temas, mas com diferentes, variadas e pluralistas motivações e convicções,
mantêm-se exteriores às definições de campos políticos.
Não nos espantemos, portanto, que nós, como votantes,
sejamos também ‘órfãos políticos’ sem candidatos que nos representem, capazes
de nos libertarem do ‘limbo’ a que fomos condenados
Daí os partidos
políticos tentarem ‘agarrar’ e conduzir este autêntico potencial com promessas
aliciantes aos ‘independentes’.(4) Disso, já
tivemos com fartura com Sá Fernandes e Helena Roseta, que viabilizaram
constantemente e sistematicamente a gestões de Costa e de Medina.
Com os tais 35
anos criámos legiões de órfãos. Toda uma juventude licenciada mas exilada, numa
gigantesca diáspora.(5)
Não nos
espantemos, portanto, que nós, como votantes, sejamos também ‘órfãos políticos’
sem candidatos que nos representem, capazes de nos libertarem do ‘limbo’ a que
fomos condenados.
E isto numa
Lisboa que até ao ciclo corona estava prisioneira de monoculturas destruidoras
(turismo de massas, omnipresente alojamento local, crise da habitação,
omnipotente imobiliário especulativo, monocultura exclusiva dos hotéis., etc..)
e terá que enfrentar profundos, e até agora incertos, desafios futuros no
período pós-corona.
Um é claro e
sobrepõe-se a todos os outros: as alterações climáticas.
Sim, quando
caoticamente a caixa de Pandora foi aberta, e tudo se escapou e diluiu num
ápice, como neve derretida sobre o Sol, a única coisa que ficou foi a
esperança.
A minha esperança
vai para uma cidadania cada vez mais activa, maduramente crítica e
verdadeiramente independente.
Como já afirmei
anteriormente: a cidadania exerce-se. A cidadania não vai a votos!(6)
Historiador de Arquitectura
(1 (1) https://www.publico.pt/2014/08/06/politica/opiniao/o-meu-partido-e-lisboa-1665458
(3 (3) https://expresso.pt/opiniao/2021-03-05-35-anos-a-bazucar
(6 (6) https://www.publico.pt/2009/07/19/jornal/uma-questao-de-promiscuidades-17324530




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