quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Fernando Medina entrou em modo “animal feroz”

 



 OPINIÃO

Fernando Medina entrou em modo “animal feroz”

 

Medina está crescido porque precisa mesmo de crescer, aos olhos dos portugueses e dos socialistas. O entusiasmo com que se atirou ao pescoço tenro de Carlos Moedas é o seu aquecimento para, num futuro próximo, se atirar o pescoço duro de Pedro Nuno Santos.

 

João Miguel Tavares

9 de Setembro de 2021, 0:03

https://www.publico.pt/2021/09/09/opiniao/opiniao/fernando-medina-entrou-modo-animal-feroz-1976816

 

Fernando Medina está crescido — e, como acontece com todos os crescidos, começou a engrossar a voz. Esse foi o aspecto mais relevante do debate com Carlos Moedas, na terça-feira. Esqueçam as questões substanciais, porque nada de radicalmente distinto opõe Moedas a Medina. A dupla M&M tanto podia estar na esquerda do PSD como na direita do PS, e se eles fossem saltando entre a presidência e a vice-presidência da câmara de Lisboa ninguém daria pela diferença.

 

Claro que quando se está em campanha eleitoral é necessário apresentar propostas divergentes e simular visões muito distintas sobre a cidade, mas elas são pouco mais do que encenação política. Em termos estratégicos, acontece com Medina/Moedas o mesmo que já acontecia com Costa/Rio — são políticos que num outro contexto teriam tudo para se entenderem (há, aliás, abundantes registos de palavras mútuas de simpatia), mas que actualmente estão reféns do muro que foi erguido em 2015 entre direita e esquerda, após António Costa ter derrubado o muro entre a esquerda e a esquerda radical.

 

Fernando Medina não está politicamente mais próximo de João Ferreira do que de Carlos Moedas — simplesmente, o PCP é hoje a muleta oficial do PS, seja no governo, seja nas autarquias. Donde, não só é com João Ferreira que Medina tem de se entender, como é com Carlos Moedas que tem de se desentender. Considerando que em termos substanciais as tais divergências — mais IMT, menos IMT; mais ciclovia, menos ciclovia; mais linha circular, menos linha circular — não são relevantes, a divergência vai toda para o estilo. E, de repente, eis que temos diante de nós Fernando Medina, ex-sonsinho tecnocrata, em modo “animal feroz”, recorrendo a uma postura e a uma agressividade verbal que ninguém lhe conhecia antes desta campanha.

 

O PS acha que já pode regressar, sem penalização eleitoral, à arrogância de outros tempos

 

A voz grossa de Medina, sobretudo em relação às suspeitas de favorecimentos e negócios duvidosos na área do urbanismo lisboeta, demonstra, desde logo, o enorme crescimento de confiança do PS. Há cinco anos, com a prisão de José Sócrates ainda fresca, nenhum socialista se atreveria a utilizar aquele tom indignado diante de perguntas perfeitamente legítimas sobre investigações em curso. Soava demasiado a um passado recente problemático. Da mesma forma, o batidíssimo argumento do “aproveitamento político em alturas de campanhas eleitorais”, um clássico socrático, tenderia a ser utilizado com muito mais pudor. Deixou de ser. O PS acha que já pode regressar, sem penalização eleitoral, à arrogância de outros tempos.

 

Para já, está a resultar. Carlos Moedas não estava bem preparado para a postura agressiva do seu adversário, cometeu algumas gafes e perdeu o debate, ou, pelo menos, não o ganhou — como desesperadamente precisava. A estratégia de Medina correu bem tendo em conta os objectivos no presente, e correu ainda melhor tendo em conta os objectivos no futuro. Com o início da campanha autárquica dominado pela sucessão de António Costa, inclusive com uma ajudinha de Marcelo, Medina está a jogar em dois tabuleiros. Derrotar Moedas de forma vistosa em Lisboa não significa apenas ganhar de novo a câmara — significa vencer um adversário de primeira linha e obter um trunfo precioso na luta interna socialista.

 

Medina está crescido porque precisa mesmo de crescer, aos olhos dos portugueses e dos socialistas. O entusiasmo com que se atirou ao pescoço tenro de Carlos Moedas é o seu aquecimento para, num futuro próximo, se atirar o pescoço duro de Pedro Nuno Santos.

 

Jornalista

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