Fernando Medina entrou em modo “animal feroz”
Medina está crescido porque precisa mesmo de crescer, aos
olhos dos portugueses e dos socialistas. O entusiasmo com que se atirou ao
pescoço tenro de Carlos Moedas é o seu aquecimento para, num futuro próximo, se
atirar o pescoço duro de Pedro Nuno Santos.
João Miguel Tavares
9 de Setembro de
2021, 0:03
https://www.publico.pt/2021/09/09/opiniao/opiniao/fernando-medina-entrou-modo-animal-feroz-1976816
Fernando Medina
está crescido — e, como acontece com todos os crescidos, começou a engrossar a
voz. Esse foi o aspecto mais relevante do debate com Carlos Moedas, na
terça-feira. Esqueçam as questões substanciais, porque nada de radicalmente
distinto opõe Moedas a Medina. A dupla M&M tanto podia estar na esquerda do
PSD como na direita do PS, e se eles fossem saltando entre a presidência e a
vice-presidência da câmara de Lisboa ninguém daria pela diferença.
Claro que quando
se está em campanha eleitoral é necessário apresentar propostas divergentes e
simular visões muito distintas sobre a cidade, mas elas são pouco mais do que
encenação política. Em termos estratégicos, acontece com Medina/Moedas o mesmo
que já acontecia com Costa/Rio — são políticos que num outro contexto teriam
tudo para se entenderem (há, aliás, abundantes registos de palavras mútuas de
simpatia), mas que actualmente estão reféns do muro que foi erguido em 2015
entre direita e esquerda, após António Costa ter derrubado o muro entre a
esquerda e a esquerda radical.
Fernando Medina
não está politicamente mais próximo de João Ferreira do que de Carlos Moedas —
simplesmente, o PCP é hoje a muleta oficial do PS, seja no governo, seja nas
autarquias. Donde, não só é com João Ferreira que Medina tem de se entender,
como é com Carlos Moedas que tem de se desentender. Considerando que em termos
substanciais as tais divergências — mais IMT, menos IMT; mais ciclovia, menos
ciclovia; mais linha circular, menos linha circular — não são relevantes, a
divergência vai toda para o estilo. E, de repente, eis que temos diante de nós
Fernando Medina, ex-sonsinho tecnocrata, em modo “animal feroz”, recorrendo a
uma postura e a uma agressividade verbal que ninguém lhe conhecia antes desta
campanha.
O PS acha que já pode regressar, sem penalização
eleitoral, à arrogância de outros tempos
A voz grossa de
Medina, sobretudo em relação às suspeitas de favorecimentos e negócios
duvidosos na área do urbanismo lisboeta, demonstra, desde logo, o enorme
crescimento de confiança do PS. Há cinco anos, com a prisão de José Sócrates
ainda fresca, nenhum socialista se atreveria a utilizar aquele tom indignado
diante de perguntas perfeitamente legítimas sobre investigações em curso. Soava
demasiado a um passado recente problemático. Da mesma forma, o batidíssimo
argumento do “aproveitamento político em alturas de campanhas eleitorais”, um
clássico socrático, tenderia a ser utilizado com muito mais pudor. Deixou de
ser. O PS acha que já pode regressar, sem penalização eleitoral, à arrogância
de outros tempos.
Para já, está a
resultar. Carlos Moedas não estava bem preparado para a postura agressiva do
seu adversário, cometeu algumas gafes e perdeu o debate, ou, pelo menos, não o
ganhou — como desesperadamente precisava. A estratégia de Medina correu bem
tendo em conta os objectivos no presente, e correu ainda melhor tendo em conta
os objectivos no futuro. Com o início da campanha autárquica dominado pela
sucessão de António Costa, inclusive com uma ajudinha de Marcelo, Medina está a
jogar em dois tabuleiros. Derrotar Moedas de forma vistosa em Lisboa não
significa apenas ganhar de novo a câmara — significa vencer um adversário de
primeira linha e obter um trunfo precioso na luta interna socialista.
Medina está
crescido porque precisa mesmo de crescer, aos olhos dos portugueses e dos
socialistas. O entusiasmo com que se atirou ao pescoço tenro de Carlos Moedas é
o seu aquecimento para, num futuro próximo, se atirar o pescoço duro de Pedro
Nuno Santos.
Jornalista


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