Especialistas querem comboio, não avião, para viagens
como Lisboa-Madrid
Alta velocidade pode competir com o avião em deslocações
com menos de cinco horas e ligações noturnas devem ser subsidiadas. O setor
esteve em debate ontem em Lisboa
“Também há o fator ambiental. "O comboio de alta
velocidade elétrico tem dez vezes menos emissões do que um avião",
sublinhou Frederico Francisco. Quanto mais utilizado for um troço ferroviário,
mais depressa a viagem sobre carris compensa mais do que a viagem pelo ar.
Mesmo quando o comboio de alta velocidade é movido a gasóleo - como em Espanha
-, são emitidas seis vezes menos partículas de dióxido de carbono.”
Diogo Ferreira
Nunes
03 Setembro 2021
— 07:59
Teremos de
esperar até 2024 para termos o primeiro vislumbre de alta velocidade. O novo
troço Évora-Elvas permitirá ao comboio chegar aos 250 Km/h e colocará Portugal
na rota dos países desenvolvidos da ferrovia. O papel da alta velocidade no
sistema de transportes e a concorrência com o avião foi o principal motivo de
debate no dia em que o comboio europeu partiu de Lisboa para Paris.
"Para
viagens abaixo dos 700 ou 800 quilómetros devemos privilegiar o comboio",
sustenta ao Dinheiro Vivo o diretor executivo da comunidade de empresas
ferroviárias e de infraestruturas europeias (CER), à margem da
conferência"Connecting Europe Express: Ligações ferroviárias de alta
velocidade e de cidade a cidade", organizada pela Comissão Europeia no
âmbito do Ano Europeu do Transporte Ferroviário, que decorreu ontem em Lisboa.
Para Alberto
Mazzola, o comboio de alta velocidade é a melhor alternativa ao avião.
A alta velocidade
consegue competir com o avião num percurso de até cinco horas, conforme
demonstrou o coordenador do Plano Ferroviário Nacional, Frederico Francisco,
durante uma apresentação.
"Concentramo-nos
demasiado na velocidade mas o tempo é mais importante: até duas horas, o
comboio domina; para mais de cinco horas, domina o transporte aéreo. Os dois
modos concorrem entre si nas viagens entre duas horas e meia e cinco
horas", defendeu o especialista português.
Um comboio de
alta velocidade, a 200 Km/h, consegue percorrer 800 quilómetros em quatro
horas, com a vantagem de transportar os passageiros para o centro das cidades.
No avião, os aeroportos ficam cada vez mais longe das áreas urbanas, o que no
centro da Europa anula a rapidez da viagem.
Também há o fator
ambiental. "O comboio de alta velocidade elétrico tem dez vezes menos
emissões do que um avião", sublinhou Frederico Francisco. Quanto mais
utilizado for um troço ferroviário, mais depressa a viagem sobre carris
compensa mais do que a viagem pelo ar. Mesmo quando o comboio de alta
velocidade é movido a gasóleo - como em Espanha -, são emitidas seis vezes
menos partículas de dióxido de carbono.
Além do vislumbre
de 2024, a partir de 2028 está previsto que a viagem de comboio entre Lisboa e
Porto passe a demorar duas horas, assim que estiver construída a primeira parte
(Porto-Soure) da nova linha entre as duas cidades. Dois anos depois, será
possível viajar em uma hora e 15 minutos entre Lisboa e Porto.
Nas viagens
internacionais, os comboios também podem tirar passageiros aos aviões com as
ligações noturnas. Um passageiro entra a bordo num país pela hora do jantar e
chega ao amanhecer a uma estação a mais de mil quilómetros de distância.
A comissária
europeia dos Transportes, Adina Valean, tinha defendido que os comboios
noturnos não precisam de ser subsidiados pelo Estado; ou seja, poderiam
financiar-se autonomamente. Os especialistas, no entanto, não concordam.
"Se apenas
existissem comboios na Europa, faria sentido não haver subsídios. Mas como
estamos a concorrer com meios de transporte que poluem muito mais, vamos poupar
muitas emissões de dióxido de carbono, e isso tem um custo. Se isso não for
pago no bilhete, tem de ser pago pelo Estado", defendeu Alberto Mazzola.
Reduzir as taxas
que as transportadoras ferroviárias têm de pagar às empresas que gerem as
linhas ferroviárias também é uma medida que pode apoiar o relançamento destes
comboios na Europa.
"Numa
perspetiva europeia, para os comboios noturnos, defendemos que é preciso
introduzir uma categoria diferente de tarifas, mais baratas, de acesso à
infraestrutura ferroviária. A expectativa é que estes comboios cheguem na manhã
do dia seguinte, pelo que não precisam de andar tão depressa", acrescentou
o presidente do conselho de administração do CER, Andreas Matthä.
Desde março do
ano passado que não há uma ligação ferroviária noturna, depois da suspensão dos
serviços para Espanha, pelo Lusitânia Comboio Hotel (Lisboa-Madrid), e para
França, pelo Sud Expresso (Lisboa-Hendaye).
O Sud Expresso
seguia em conjunto com o Lusitânia Comboio Hotel até Medina del Campo, já em
Espanha. No Sud, a CP alugava as carruagens à fabricante Talgo e tinha perdas
anuais de três milhões de euros. O Lusitânia era explorado, em conjunto, pela
CP e pela Renfe e gerava prejuízos anuais de dois milhões de euros.
A CP está a
estudar o regresso do Sud Expresso, mas o governo espanhol não dá sinais de
querer comboios noturnos a atravessar a sua rede ferroviária.
Diogo Ferreira
Nunes é jornalista do Dinheiro Vivo

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