sexta-feira, 3 de setembro de 2021

A “Geração mais qualificada de sempre” só é aproveitada em discursos

 



OPINIÃO

A “Geração mais qualificada de sempre” só é aproveitada em discursos

 

A “geração mais qualificada de sempre” é como a Cantiga da Rua. Vai de boca em boca, mas não é de ninguém.

 

Susana Peralta

3 de Setembro de 2021, 12:08

https://www.publico.pt/2021/09/03/opiniao/opiniao/-geracao-qualificada-so-aproveitada-discursos-1976182

 

Uma das protagonistas do discurso de António Costa no encerramento do congresso do PS foi a “geração mais qualificada de sempre”. Já tinha falado dela em julho, no Hospital Militar da Estrela, que vai ser requalificado em 107 habitações para a dita geração, tendo também referido a necessidade de melhorar ordenados, tornar a política fiscal mais justa e garantir o acesso a serviços públicos de qualidade. Uma agenda vasta. No início de agosto, o secretário de Estado Tiago Antunes tinha também sublinhado a necessidade de não desperdiçarmos a geração mais qualificada de sempre e prometido políticas para lhes dar “maior segurança, estabilidade, condições de autonomização”. Uma agenda, afinal, ainda mais vasta. A preocupação com a geração mais qualificada de sempre não vem de hoje. Na sua campanha para as primárias socialistas de 2014, Costa falou da necessidade de aproveitar a dita geração. No discurso natalício de 2018, o primeiro-ministro afirmava que “o país não se pode dar ao luxo de perder a sua geração mais qualificada de sempre”, referindo-se ao Programa Regressar.

 

A “geração mais qualificada de sempre” é como a Cantiga da Rua. Vai de boca em boca, mas não é de ninguém. Encontrei várias referências de Manuel Caldeira Cabral, então Ministro da Economia, à geração mais qualificada de sempre – a propósito da Web Summit de 2017, por ocasião da reunião do Conselho Estratégico da Plataforma Portugal i4.0 em 2018, na Lisbon Summit do mesmo ano. Nos idos de 2013, o primeiro-ministro Pedro Passos Coelho confessava-se desolado pela emigração da tal geração. Em 2011, Ana Drago, então deputada pelo Bloco de Esquerda, criticava o governo de Passos Coelho por não criar “alternativas para que o país possa contar com a geração mais qualificada da sua História”. Catarina Martins já em 2017 falava da necessidade de dar “espaço à geração mais qualificada de aceder ao emprego”. Francisco Rodrigues dos Santos queixava-se, nas páginas do Observador em 2018, da situação paradoxal de “a geração mais qualificada de sempre não conseguir vislumbrar o retorno das suas valências académicas em oportunidades de trabalho”. E até Aníbal Cavaco Silva se referiu à “geração de portugueses mais qualificada da nossa História” no discurso proferido na sessão de abertura da conferência Roteiros do Futuro dedicada ao tema “Portugal e os Jovens”, em 2015.

 

Razões para preocupação há, e não são poucas. Um estudo recente da Fundação Gulbenkian mostra que em 2017 apenas 24% dos sub-30 tinha casa própria, uma percentagem muito baixa quando comparada com os 41% da mesma faixa etária em 2011 ou os 64% em 2001. Segundo o “Updated OECD Youth Action Plan”, um pequeno documento de seis páginas preparado para a reunião do Conselho de Ministros dos países da OCDE na primavera, Portugal é o quarto país da UE com maior taxa de desemprego dos sub-30 (só Espanha, Grécia e Itália estão pior). Mesmo no contexto mais alargado da OCDE, Portugal fica no topo da tabela e acima da média deste conjunto de países. Para os jovens que não estão desempregados, as perspetivas também não são famosas. No artigo “Failing Young and Temporary Workers: the Impact of Covid-19 on a Dual Labour Market”, que escrevi em co-autoria com os meus colegas Bruno P. Carvalho, Carolina Nunes, João Pereira dos Santos e José Tavares, analisamos o emprego temporário com alguma atenção, através dos micro-dados do Inquérito ao Emprego, do INE. Pré-pandemia, a percentagem de trabalho temporário em Portugal situava-se nos 22%, o que coloca o país no topo da OCDE em termos de precariedade laboral. O valor médio escondia grandes diferenças etárias: entre os sub-25, a percentagem de contratos temporários situava-se acima dos 60% e na faixa etária 25-34 era de cerca de 35%. Nos mais velhos, ficava-se pelos 15%.

 

A pandemia trouxe uma destruição dos contratos a prazo, como aqui escrevi em agosto, o que atingiu bastante os trabalhadores mais jovens. No mesmo trabalho, mostramos que o aumento de inscritos nos centros de emprego devido à pandemia, em 2020, está concentrado nos indivíduos com menos de 34 anos. Mais precisamente, estimamos que, quando comparado com o impacto da pandemia nos trabalhadores maiores de 55 anos, o impacto sofrido pelos sub-34 foi entre 21% e 26% superior. Não é, por isso, de espantar que o impacto da pandemia na saúde mental dos jovens sub-30 tenha sido um dos piores da OCDE, com mais de 40% dos jovens entre os 18 e os 30 anos a reportarem que a sua saúde mental piorou com a crise (pior, só Grécia e Chile).

 

Podia ser que o problema fosse recente – mas não é, a crise só o veio agravar. Podia ser que a classe política só tivesse reparado nele agora – mas governo e oposição, poder executivo e poder legislativo, presidência, todos se têm mostrado preocupados com a geração mais qualificada de sempre. O próprio primeiro-ministro anda preocupado, pelo menos, desde 2014, e já é chefe de governo desde 2015. E as medidas anunciadas no fim-de-semana são em grande medida extensões de políticas existentes. Então, em que ficamos?

 

Fui procurar informação sobre duas políticas dirigidas a essa querida geração, de que se falou bastante esta semana: o Regressar e o IRS jovem. Aprendi que, até fevereiro de 2020, tinham sido recebidas cerca de 800 candidaturas ao Regressar, abrangendo 1700 pessoas, e até encontrei a distribuição por países de origem e por qualificações. É curto. Falta informação mais recente, perceber a situação atual destas pessoas, se voltaram a emigrar. E falta o mais importante: avaliar se teriam regressado sem o Regressar. É que uma coisa é uma pessoa estar a pensar voltar para Portugal e aproveitar os cerca de sete mil euros e o benefício fiscal, outra é estas vantagens fazerem alguém mudar de ideias e regressar ao país. Do IRS Jovem, nem o número de beneficiários conhecemos, quanto mais outras coisas fundamentais como a poupança média de cada um em sede de IRS, a distribuição entre jovens mais ou menos abonados, mais ou menos educados. Das duas, uma. Ou não temos esta informação porque as políticas têm sido um falhanço e o governo não quer dizer a verdade, o que seria grave. Ou simplesmente ninguém - nem governo, que propõe, nem parceiros à esquerda, que se congratulam, nem oposição de direita, que discute paternidade - se pergunta se estas medidas servem para alguma coisa, o que menos grave não é. Em qualquer dos casos, quem se lixa é a geração mais qualificada de sempre. Que aproveitada, até é. Mas só para compor discursos.

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