OPINIÃO
A “Geração mais qualificada de sempre” só é aproveitada
em discursos
A “geração mais qualificada de sempre” é como a Cantiga
da Rua. Vai de boca em boca, mas não é de ninguém.
Susana Peralta
3 de Setembro de
2021, 12:08
Uma das
protagonistas do discurso de António Costa no encerramento do congresso do PS
foi a “geração mais qualificada de sempre”. Já tinha falado dela em julho, no
Hospital Militar da Estrela, que vai ser requalificado em 107 habitações para a
dita geração, tendo também referido a necessidade de melhorar ordenados, tornar
a política fiscal mais justa e garantir o acesso a serviços públicos de
qualidade. Uma agenda vasta. No início de agosto, o secretário de Estado Tiago
Antunes tinha também sublinhado a necessidade de não desperdiçarmos a geração
mais qualificada de sempre e prometido políticas para lhes dar “maior
segurança, estabilidade, condições de autonomização”. Uma agenda, afinal, ainda
mais vasta. A preocupação com a geração mais qualificada de sempre não vem de
hoje. Na sua campanha para as primárias socialistas de 2014, Costa falou da
necessidade de aproveitar a dita geração. No discurso natalício de 2018, o
primeiro-ministro afirmava que “o país não se pode dar ao luxo de perder a sua
geração mais qualificada de sempre”, referindo-se ao Programa Regressar.
A “geração mais
qualificada de sempre” é como a Cantiga da Rua. Vai de boca em boca, mas
não é de ninguém. Encontrei várias referências de Manuel Caldeira Cabral, então
Ministro da Economia, à geração mais qualificada de sempre – a propósito da Web
Summit de 2017, por ocasião da reunião do Conselho Estratégico da Plataforma
Portugal i4.0 em 2018, na Lisbon Summit do mesmo ano. Nos idos de 2013, o primeiro-ministro
Pedro Passos Coelho confessava-se desolado pela emigração da tal geração. Em
2011, Ana Drago, então deputada pelo Bloco de Esquerda, criticava o governo de
Passos Coelho por não criar “alternativas para que o país possa contar com a
geração mais qualificada da sua História”. Catarina Martins já em 2017 falava
da necessidade de dar “espaço à geração mais qualificada de aceder ao emprego”.
Francisco Rodrigues dos Santos queixava-se, nas páginas do Observador em 2018,
da situação paradoxal de “a geração mais qualificada de sempre não conseguir
vislumbrar o retorno das suas valências académicas em oportunidades de
trabalho”. E até Aníbal Cavaco Silva se referiu à “geração de portugueses
mais qualificada da nossa História” no discurso proferido na sessão de
abertura da conferência Roteiros do Futuro dedicada ao tema “Portugal e os
Jovens”, em 2015.
Razões para
preocupação há, e não são poucas. Um estudo recente da Fundação Gulbenkian
mostra que em 2017 apenas 24% dos sub-30 tinha casa própria, uma percentagem
muito baixa quando comparada com os 41% da mesma faixa etária em 2011 ou os 64%
em 2001. Segundo o “Updated OECD Youth Action Plan”, um pequeno documento de
seis páginas preparado para a reunião do Conselho de Ministros dos países da OCDE
na primavera, Portugal é o quarto país da UE com maior taxa de desemprego dos
sub-30 (só Espanha, Grécia e Itália estão pior). Mesmo no contexto mais
alargado da OCDE, Portugal fica no topo da tabela e acima da média deste
conjunto de países. Para os jovens que não estão desempregados, as perspetivas
também não são famosas. No artigo “Failing Young and Temporary Workers: the
Impact of Covid-19 on a Dual Labour Market”, que escrevi em co-autoria com os
meus colegas Bruno P. Carvalho, Carolina Nunes, João Pereira dos Santos e José
Tavares, analisamos o emprego temporário com alguma atenção, através dos
micro-dados do Inquérito ao Emprego, do INE. Pré-pandemia, a percentagem de
trabalho temporário em Portugal situava-se nos 22%, o que coloca o país no topo
da OCDE em termos de precariedade laboral. O valor médio escondia grandes
diferenças etárias: entre os sub-25, a percentagem de contratos temporários
situava-se acima dos 60% e na faixa etária 25-34 era de cerca de 35%. Nos mais
velhos, ficava-se pelos 15%.
A pandemia trouxe
uma destruição dos contratos a prazo, como aqui escrevi em agosto, o que
atingiu bastante os trabalhadores mais jovens. No mesmo trabalho, mostramos que
o aumento de inscritos nos centros de emprego devido à pandemia, em 2020, está
concentrado nos indivíduos com menos de 34 anos. Mais precisamente, estimamos
que, quando comparado com o impacto da pandemia nos trabalhadores maiores de 55
anos, o impacto sofrido pelos sub-34 foi entre 21% e 26% superior. Não é, por
isso, de espantar que o impacto da pandemia na saúde mental dos jovens sub-30
tenha sido um dos piores da OCDE, com mais de 40% dos jovens entre os 18 e os
30 anos a reportarem que a sua saúde mental piorou com a crise (pior, só Grécia
e Chile).
Podia ser que o
problema fosse recente – mas não é, a crise só o veio agravar. Podia ser que a
classe política só tivesse reparado nele agora – mas governo e oposição, poder
executivo e poder legislativo, presidência, todos se têm mostrado preocupados
com a geração mais qualificada de sempre. O próprio primeiro-ministro anda
preocupado, pelo menos, desde 2014, e já é chefe de governo desde 2015. E as
medidas anunciadas no fim-de-semana são em grande medida extensões de políticas
existentes. Então, em que ficamos?
Fui procurar
informação sobre duas políticas dirigidas a essa querida geração, de que se
falou bastante esta semana: o Regressar e o IRS jovem. Aprendi que, até
fevereiro de 2020, tinham sido recebidas cerca de 800 candidaturas ao
Regressar, abrangendo 1700 pessoas, e até encontrei a distribuição por países
de origem e por qualificações. É curto. Falta informação mais recente, perceber
a situação atual destas pessoas, se voltaram a emigrar. E falta o mais
importante: avaliar se teriam regressado sem o Regressar. É que uma coisa é uma
pessoa estar a pensar voltar para Portugal e aproveitar os cerca de sete mil
euros e o benefício fiscal, outra é estas vantagens fazerem alguém mudar de
ideias e regressar ao país. Do IRS Jovem, nem o número de beneficiários
conhecemos, quanto mais outras coisas fundamentais como a poupança média de
cada um em sede de IRS, a distribuição entre jovens mais ou menos abonados,
mais ou menos educados. Das duas, uma. Ou não temos esta informação porque as
políticas têm sido um falhanço e o governo não quer dizer a verdade, o que
seria grave. Ou simplesmente ninguém - nem governo, que propõe, nem parceiros à
esquerda, que se congratulam, nem oposição de direita, que discute paternidade
- se pergunta se estas medidas servem para alguma coisa, o que menos grave não
é. Em qualquer dos casos, quem se lixa é a geração mais qualificada de sempre. Que
aproveitada, até é. Mas só para compor discursos.


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