OPINIÃO
A grande lição a tirar do Afeganistão
Quem olha para o abandono do Afeganistão como um fracasso
dos Estados Unidos tem razão.
João Miguel
Tavares
4 de Setembro de
2021, 6:24
https://www.publico.pt/2021/09/04/opiniao/opiniao/licao-tirar-afeganistao-1976184
Um dia também eu
acreditei ser possível criar no Médio Oriente nações democráticas a partir das
ruínas de regimes ditatoriais. Foi um sonho bonito. Em Maio de 2003, eu estava
em Bagdad. Os americanos tinham vencido a guerra do Iraque, a população
celebrava a queda de Saddam e os soldados patrulhavam pacificamente as ruas,
sem capacetes na cabeça, nem coletes à prova de bala.
Até que chegou um
senhor chamado Paul Bremer, a quem George W. Bush, num momento de loucura,
resolveu atribuir a responsabilidade de reconstruir o Iraque e liderar um país
com 25 milhões de pessoas (hoje são 40 milhões). Bremer teve logo a
extraordinária ideia de desmantelar o que restava do exército iraquiano e de
remover do aparelho do Estado todos aquele que tinham o cartão do Partido Baath
– que, basicamente, eram todos os altos quadros do regime, porque os melhores
funcionários do país confundiam-se com os militantes do partido de Saddam. Com
essa decisão, cheia de vontade de cortar o “mal” pela raiz, Bremer atirou
dezenas de milhares de sunitas para o desemprego, que foram a correr reforçar a
rede de insurgência que colocou o Iraque a ferro e fogo na década seguinte.
Quem olha para o
abandono do Afeganistão como um fracasso dos Estados Unidos tem razão. Mas a
facilidade com que o regime afegão ruiu sem a presença do exército americano
prova que Joe Biden estava certo: seria absurdo os americanos continuarem a
gastar rios de dinheiro num regime insustentável.
Os Estados Unidos
patrocinaram dois extraordinários milagres de reconstrução após a Segunda
Guerra Mundial – a Alemanha e o Japão –, e ainda hoje se entretêm a comparar as
luzinhas que se vêem à noite do espaço na Coreia do Norte e na Coreia do Sul. A
certa altura acreditaram, e ninguém os pode levar demasiado a mal por isso, que
sendo universais a aspiração à liberdade, o amor ao consumo e os direitos
humanos, então seria possível continuar a construir nações livres, democráticas
e capitalistas por esse mundo fora. Só que, como disse sabiamente o papa
Francisco há dias, citando Vladimir Putin a pensar que estava a citar Angela
Merkel (Deus escreve direito por linhas tortas): “É preciso acabar com a
política irresponsável de intervir e construir a democracia noutros países,
ignorando as tradições dos povos.”
Note-se: esta é
uma frase de realpolitik pura, e nada iluminista. Infelizmente, hoje quase toda
a gente a subscreve, de Putin a Merkel, de Pequim a Washington, graças a 20
anos de guerra no Afeganistão, no Iraque ou na Síria; de Primaveras Árabes
fracassadas; e de uma África incapaz de debelar as suas elites corruptas, tenha
a descolonização dado origem a guerras civis ou não. Porque é que a
reconstrução de nações funcionou na Alemanha ou no Japão, mas não no
Afeganistão ou na Líbia? Simples: porque havia instituições e cultura política
para isso.
O amor inato à
democracia liberal não existe. Foi preciso muito sangue, muito suor e muitos
séculos para ele florescer. O fracasso da construção democrática em tantos
países devia ter esta consequência: reconhecer que essas instituições e essa
cultura política são um património precioso, único, que convém preservar e
aprimorar, porque é ele que faz com que a Europa não seja o Afeganistão. Num
mundo ocidental cada vez mais dado à autoflagelação, tendemos a esquecer isso.
Se a democracia é inviável em tantos lugares, convém proteger com unhas e
dentes os lugares onde ela é viável. Essa é a grande lição da tragédia
afegã.


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