IMAGEM DE OVOODOCORVO
OPINIÃO
Uma União Europeia a deslizar para a direita
Isabel Meirelles,
Vice-presidente do PSD, Deputada Coordenadora da Comissão de Assuntos Europeus
25 Julho 2021, 23:09
https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/uma-uniao-europeia-a-deslizar-para-a-direita-766625
Perante as
atitudes de Budapeste e Varsóvia, os líderes europeus avançaram com um novo
mecanismo que permite à Comissão Europeia suspender o financiamento de
dinheiros do orçamento comunitário a países que não cumpram os preceitos do
Estado de direito.
A acrescentar à
crise sanitária social e económica da pandemia prefiguram-se, igualmente,
várias crises políticas, com países da União Europeia (UE) que iniciaram uma
deriva política de direita extremada.
O relatório da
Comissão Europeia sobre o Estado de Direito da União destaca pela segunda vez a
Hungria e a Polónia, países atualmente alvo do procedimento do artigo 7º do
Tratado da UE, que visa avaliar se os valores democráticos estão em risco e
que, em caso afirmativo, tem como consequência a aplicação de sanções como a
retirada do direito de voto no Conselho até a sanções pecuniárias, nomeadamente
poder ser-lhes vedado o acesso a fundos comunitários.
A batalha legal
com o governo nacionalista húngaro do Fidez de Viktor Orbán já vem de longe,
designadamente ao nível do Parlamento Europeu, em que vários membros do PPE, a
maior família política desta instituição, pediu a sua saída, devido à assunção
reiterada de posições antieuropeias.
Viktor Orbán
antecipou-se e abandonou o PPE pelo seu próprio pé, não sem interpor recurso
para o Tribunal de Justiça, solicitando a anulação da resolução aprovada em
2018 pelo Parlamento Europeu, a qual desencadeou a abertura do procedimento por
violação das regras democráticas.
O Tribunal de
Justiça negou, porém, provimento a este recurso, o que se traduziu num forte
revés para Orbán.
Também a Polónia
de Mateusz Morawiecki trava igual batalha legal relacionada com os valores e
direitos fundamentais da União e está a ser alvo deste procedimento por razões
muito semelhantes às da Hungria, nomeadamente pela falta de independência das
principais instituições responsáveis pela prevenção e luta contra a corrupção,
por suspeitas de ingerência na independência dos tribunais e dos media.
Contudo, dado que
a aprovação final do procedimento sancionatório requer a unanimidade dos
restantes Estados-membros, Budapeste e Varsóvia prometem apoiar-se mutuamente
com vetos cruzados a cada um dos procedimentos abertos, o que pode tornar
ineficazes estes procedimentos.
Porém, os líderes
europeus ripostaram e acordaram, aquando da constituição do fundo de
recuperação destinado ao combate à crise criada pela pandemia, um novo
mecanismo que permite à Comissão Europeia suspender o financiamento de dinheiros
do orçamento comunitário de longo prazo a países que tenham incumprido os
preceitos do Estado de direito.
Porém, a cereja
no topo do bolo tem a ver com a Eslovénia, que exerce a Presidência rotativa do
Conselho da União até final do ano, e que também começa de forma controversa
com acusações de atropelos ao Estado de direito por parte do governo
conservador de Janez Jansa, designadamente no que concerne ao seu sistema
judicial.
Desde o final do
regime comunista, em 1991, que a Eslovénia nunca procedeu a uma única reforma
de fundo do seu sistema judicial, o que se tem traduzido na violação dos
direitos humanos de milhares de cidadãos e na perseguição de jornalistas
independentes ou da oposição política.
Em suma, uma
organização cada vez mais instável, com eventuais exits e a ameaça da União
poder rasgar-se a qualquer momento.

Sem comentários:
Enviar um comentário