CIDADE
Lisboa em risco de inundações com Marés de Tempestade
mais frequentes – como a cidade se pode proteger deste efeito das alterações
climáticas
Fenómeno ocorre quando a maré cheia coincide com uma
queda abudante de chuva e é um dos riscos a que Lisboa está mais vulnerável,
pela extensa zona ribeirinha, com a consequência de inundações. Terá acontecido
esta semana.
por Catarina
Carvalho
08.12.2022
Os riscos de
inundações em Lisboa são elevados e vão agravar-se ao longo do século. É o que
indicam todos os dados e estudos realizados sobre as alterações climáticas da
cidade – e o que querem prevenir todos os planos de combate a elas,
nomeadamente a Estratégia Municipal de Adaptação às Alterações Climáticas de
Lisboa.
Foi o que disse
em cima dos acontecimentos desta semana Carlos Moedas, o presidente da Câmara:
“As mudanças climáticas existem, estão para ficar e Lisboa teve três fenómenos
desta dimensão desde outubro.” Moedas referiu mais uma vez a urgência de “lutar
para mudar esta situação” e a aprovação na Assembleia Municipal do orçamento
“que vai permitir fazer os grandes túneis de drenagem.”
A verdade é que a
Estratégia da CML de Adaptação às Alterações Climáticas foi apresentada em 2017
– há cinco anos – e já apontava para “um aumento da frequência de eventos de
precipitação intensa ou muito intensa, acompanhada de ventos fortes com
rajadas” – o que, a par da seca e do calor excessivo representa aquilo com que
de mais certo a cidade pode contar.
Esta semana, terá
sido, infelizmente, só um exemplo.
Ao fim da tarde e
noite do dia 7 de dezembro caíram, em poucas horas, 87 mm de precipitação, ou
seja, mais de metade da média do que chove normalmente em todo o mês de
Dezembro em Lisboa, na ordem dos 126,2 mm – na mesma altura da chamada
preia-mar, ou seja, maré-cheia.
Foi o que bastou
para que a cidade ficasse alagada, sobretudo as zonas mais baixas – assim como
os concelhos de Oeiras, Sintra, Cascais, Loures e Odivelas.
Terá acontecido
um fenómeno de Storm Surge – Maré de Tempestade – algo a que se assiste quando
o nível das águas do Tejo sobe por efeito da maré e isso se associa a um
temporal.
E algo que em
Lisboa, tem “especial acuidade, atendendo às características geomorfológicas da
cidade – frente ribeirinha estreita delimitada em toda a sua extensão pelo
sistema de colinas que definem uma série de bacias de drenagem a confluir para
o estuário”, como explica o documento da Estratégia de Adaptação às Alterações
Climáticas.
A chuva nas ruas
da Baixa.
E alerta: tendo
em conta que todos os cenários climáticos para o século XXI “projetam o
agravamento da subida do nível médio do mar, este fenómeno poderá ter no futuro
impactos agravados – galgamento de costa, inundações, afetação na mobilidade,
estacionamento, efeitos em estruturas e infraestruturas”.
O que fazer?
O Plano da CML
dizia que era importante “monitorizar os níveis da maré (hora e altura) em toda
a frente ribeirinha para redefinição da cota de efeito de maré – também
associada a episódios de precipitação intensa – a fim de dimensionar opções de
prevenção e adaptação”. Esta semana foi levantado o aviso laranja, e um pedido
para que “não se saísse de casa”.
Mas as medidas
que terão de ser implementadas têm a ver com questões de infraestrutura – o que
já foi feito no Plano para o Parque das Nações e mais recentemente, o Plano
Pormenor da Boavista Poente.
Para o resto da
semana, o IPMA mantém os avisos, e diz que os valores serão significativos e
“poderão atingir localmente entre 60 e 120 mm”. Os danos, esses serão avaliados
a posteriori, mas houve uma morte, de uma mulher que ficou presa numa cave, em
Algés. Foram resgatadas 14 pessoas em Lisboa.
Como prevenir o
principal risco: a subida das águas
Não é possível
ouvir a chuva a cair e não pensar se isto agora não será assim sempre, ou pior.
O Plano de Ação Climática de Lisboa – que foi apresentado em 2021 – descreve as
tragédias que podem estar para acontecer, e que requerem ação imediata.
- Agravamento da magnitude de episódios de vento forte/rajada;
- Aumento de precipitação intensa, tanto em frequência como em magnitude;
- Temperaturas elevadas, agravando-se o seu efeito com a diminuição da precipitação;
- Ondas de frio – risco elevado para a população idosa cada vez mais vulnerável;
- Aumento do nível médio da água do mar e eventos de precipitação extrema, com a crescente ocupação de território, maior risco de inundação em Lisboa.
O relatório da
Rede C40 Cities, da qual Lisboa faz parte desde 2019, identificou que uma das
questões mais urgentes para Lisboa é a que nos proteja da subida das águas do
mar e das cheias.
Lisboa tem uma
grande percentagem de terreno alagável, com “uma frente ribeirinha extensa e
estreita. Há uma faixa entre as colunas e o estuário do Tejo muito vulnerável
aos riscos de sobre elevação da maré”, dizia Cristina Lourenço, responsável
pelo PAC, da CML, na sua apresentação.
Para controlar as
inundações nas zonas baixas da cidade está em curso o Plano Geral de Drenagem
de Lisboa, lançado por Carmona Rodrigues e depois adaptado por Fernando Medina
e continuado como uma das obras pricipais por Carlos Moedas.
O plano prevê a
construção de dois túneis com mais de 5 metros de diâmetro para drenagem, o
reforço da capacidade de coletores e a “melhoria da captação do escoamento de
superfície e de beneficiação das descargas por alargamento de saídas no rio
Tejo”.
Lisboa é uma
espécie de “bacia” como dizia Carlos Moedas na conferência de imprensa – em que
a água escorre para o centro.
Outros riscos da
cidade
Em Lisboa, a
estratégia da CML alerta para a “extensa impermeabilização do solo” com
“aumento da vulnerabilidade às inundações – escoamento superficial, e o facto
de “alguns dos principais eixos urbanos coincidirem com estas áreas de
vulnerabilidade vai implicar o agravamento do risco para a localização de
atividades económicas ou de outros valores a salvaguardar, como se evidencia
nos exercícios de mapeamento efetuados”.
Foi o que
aconteceu esta semana com as muitas lojas de rés do chão alagadas – porque há
“significativa concentração nesses eixos de estabelecimentos comerciais (figura
4.8) e de instalações hoteleiras (figura 4.9) demonstrativo da necessidade
dessas instalações adotarem medidas de adaptação face ao risco de inundação”.
Outro dado
importante – a crescente ocupações do subsolo, que, segundo a CML, não tem
cartografia pormenorizada: “infraestruturas (incluindo túneis) e caves em
subsolo (uso público e privados). Estas ocupações têm fortes implicações quer
ao nível das vulnerabilidades às inundações, quer na eficácia da gestão do
ciclo da água”.

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