segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

Lisboa em risco de inundações com Marés de Tempestade mais frequentes – como a cidade se pode proteger deste efeito das alterações climáticas

 


CIDADE

Lisboa em risco de inundações com Marés de Tempestade mais frequentes – como a cidade se pode proteger deste efeito das alterações climáticas

 

Fenómeno ocorre quando a maré cheia coincide com uma queda abudante de chuva e é um dos riscos a que Lisboa está mais vulnerável, pela extensa zona ribeirinha, com a consequência de inundações. Terá acontecido esta semana.

 

por Catarina Carvalho

08.12.2022

https://amensagem.pt/2022/12/08/lisboa-risco-de-inundacoes-mares-de-tempestade-alteracoes-climaticas/

 

Os riscos de inundações em Lisboa são elevados e vão agravar-se ao longo do século. É o que indicam todos os dados e estudos realizados sobre as alterações climáticas da cidade – e o que querem prevenir todos os planos de combate a elas, nomeadamente a Estratégia Municipal de Adaptação às Alterações Climáticas de Lisboa.   

 

Foi o que disse em cima dos acontecimentos desta semana Carlos Moedas, o presidente da Câmara: “As mudanças climáticas existem, estão para ficar e Lisboa teve três fenómenos desta dimensão desde outubro.” Moedas referiu mais uma vez a urgência de “lutar para mudar esta situação” e a aprovação na Assembleia Municipal do orçamento “que vai permitir fazer os grandes túneis de drenagem.”

 

A verdade é que a Estratégia da CML de Adaptação às Alterações Climáticas foi apresentada em 2017 – há cinco anos – e já apontava para “um aumento da frequência de eventos de precipitação intensa ou muito intensa, acompanhada de ventos fortes com rajadas” – o que, a par da seca e do calor excessivo representa aquilo com que de mais certo a cidade pode contar. 

 

Esta semana, terá sido, infelizmente, só um exemplo.

 

Ao fim da tarde e noite do dia 7 de dezembro caíram, em poucas horas, 87 mm de precipitação, ou seja, mais de metade da média do que chove normalmente em todo o mês de Dezembro em Lisboa, na ordem dos 126,2 mm – na mesma altura da chamada preia-mar, ou seja, maré-cheia.

 

Foi o que bastou para que a cidade ficasse alagada, sobretudo as zonas mais baixas – assim como os concelhos de Oeiras, Sintra, Cascais, Loures e Odivelas.

 

Terá acontecido um fenómeno de Storm Surge – Maré de Tempestade – algo a que se assiste quando o nível das águas do Tejo sobe por efeito da maré e isso se associa a um temporal.

 

E algo que em Lisboa, tem “especial acuidade, atendendo às características geomorfológicas da cidade – frente ribeirinha estreita delimitada em toda a sua extensão pelo sistema de colinas que definem uma série de bacias de drenagem a confluir para o estuário”, como explica o documento da Estratégia de Adaptação às Alterações Climáticas.

 

A chuva nas ruas da Baixa.

E alerta: tendo em conta que todos os cenários climáticos para o século XXI “projetam o agravamento da subida do nível médio do mar, este fenómeno poderá ter no futuro impactos agravados – galgamento de costa, inundações, afetação na mobilidade, estacionamento, efeitos em estruturas e infraestruturas”.

 

O que fazer?

O Plano da CML dizia que era importante “monitorizar os níveis da maré (hora e altura) em toda a frente ribeirinha para redefinição da cota de efeito de maré – também associada a episódios de precipitação intensa – a fim de dimensionar opções de prevenção e adaptação”. Esta semana foi levantado o aviso laranja, e um pedido para que “não se saísse de casa”.

 

Mas as medidas que terão de ser implementadas têm a ver com questões de infraestrutura – o que já foi feito no Plano para o Parque das Nações e mais recentemente, o Plano Pormenor da Boavista Poente.

 

Para o resto da semana, o IPMA mantém os avisos, e diz que os valores serão significativos e “poderão atingir localmente entre 60 e 120 mm”. Os danos, esses serão avaliados a posteriori, mas houve uma morte, de uma mulher que ficou presa numa cave, em Algés. Foram resgatadas 14 pessoas em Lisboa.  

 

Como prevenir o principal risco: a subida das águas

Não é possível ouvir a chuva a cair e não pensar se isto agora não será assim sempre, ou pior. O Plano de Ação Climática de Lisboa – que foi apresentado em 2021 – descreve as tragédias que podem estar para acontecer, e que requerem ação imediata.

 

  • Agravamento da magnitude de episódios de vento forte/rajada;
  • Aumento de precipitação intensa, tanto em frequência como em magnitude;
  • Temperaturas elevadas, agravando-se o seu efeito com a diminuição da precipitação;
  • Ondas de frio – risco elevado para a população idosa cada vez mais vulnerável;
  • Aumento do nível médio da água do mar e eventos de precipitação extrema, com a crescente ocupação de território, maior risco de inundação em Lisboa.

 

O relatório da Rede C40 Cities, da qual Lisboa faz parte desde 2019, identificou que uma das questões mais urgentes para Lisboa é a que nos proteja da subida das águas do mar e das cheias.

 

Lisboa tem uma grande percentagem de terreno alagável, com “uma frente ribeirinha extensa e estreita. Há uma faixa entre as colunas e o estuário do Tejo muito vulnerável aos riscos de sobre elevação da maré”, dizia Cristina Lourenço, responsável pelo PAC, da CML, na sua apresentação.

 

Para controlar as inundações nas zonas baixas da cidade está em curso o Plano Geral de Drenagem de Lisboa, lançado por Carmona Rodrigues e depois adaptado por Fernando Medina e continuado como uma das obras pricipais por Carlos Moedas.

 

O plano prevê a construção de dois túneis com mais de 5 metros de diâmetro para drenagem, o reforço da capacidade de coletores e a “melhoria da captação do escoamento de superfície e de beneficiação das descargas por alargamento de saídas no rio Tejo”.

 

Lisboa é uma espécie de “bacia” como dizia Carlos Moedas na conferência de imprensa – em que a água escorre para o centro.

 

Outros riscos da cidade

Em Lisboa, a estratégia da CML alerta para a “extensa impermeabilização do solo” com “aumento da vulnerabilidade às inundações – escoamento superficial, e o facto de “alguns dos principais eixos urbanos coincidirem com estas áreas de vulnerabilidade vai implicar o agravamento do risco para a localização de atividades económicas ou de outros valores a salvaguardar, como se evidencia nos exercícios de mapeamento efetuados”.

 

Foi o que aconteceu esta semana com as muitas lojas de rés do chão alagadas – porque há “significativa concentração nesses eixos de estabelecimentos comerciais (figura 4.8) e de instalações hoteleiras (figura 4.9) demonstrativo da necessidade dessas instalações adotarem medidas de adaptação face ao risco de inundação”.

 

Outro dado importante – a crescente ocupações do subsolo, que, segundo a CML, não tem cartografia pormenorizada: “infraestruturas (incluindo túneis) e caves em subsolo (uso público e privados). Estas ocupações têm fortes implicações quer ao nível das vulnerabilidades às inundações, quer na eficácia da gestão do ciclo da água”.

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