REPORTAGEM
O universo das trotinetas partilhadas: vigiadas no Porto
e um mistério em Lisboa
Enquanto o Porto tem acesso à localização em tempo real e
impõe quotas a empresas, na capital há vários mistérios: quantas trotinetas
existem e quais os limites a impor?
Manuel Rocha
Leite
10 de Dezembro de
2022, 7:00
“Eu ando de trotinete
para todo o lado porque é um meio rápido, prático, barato, divertido e
sustentável". O actor Nuno Lopes, de 44 anos, era uma das pessoas que
circulava na Av. Fontes Pereira de Melo, na direcção do Marquês de Pombal, de
trotineta partilhada, na manhã da última terça-feira. O encontro com o PÚBLICO
foi uma casualidade, mas o recurso à trotineta não. Nuno Lopes conta que deixou
de andar de táxi ou de Uber e utiliza-as tanto para as deslocações de lazer
como as profissionais.
Anda “por toda a
Lisboa”. Alguns sítios são mais favoráveis do que outros, uma vez que “a cidade
não tem muitas ciclovias”. A sustentabilidade é algo que Nuno Lopes faz questão
de sublinhar. Ao deixar de fazer os seus percursos em serviços TVDE e táxis,
diz, está a contribuir para a promoção de uma atitude ambientalmente mais
responsável. Lamenta que haja tanta gente contra as trotinetes, a criticarem
nas redes sociais e em fóruns da internet, quando esta é uma opção que tem
vantagens tanto para a carteira dos utilizadores como para o ambiente.
Mas actor admite
problemas. Defende que “há falta de legislação” em Lisboa e que deveriam ser
“mais pessoas multadas”, uma vez que se depara regularmente com muitas
trotinetas mal estacionadas em cima dos passeios e com pessoas a circular em
sítios não autorizados. Acredita que havendo uma regulamentação mais coesa, as
pessoas seriam mais beneficiadas.
Mas a questão é
se há ou não uma legislação adequada às necessidades das cidades. O Porto
responde que sim. Lisboa ainda sofre na ignorância.
A regulamentação
deste tipo de transporte nas duas principais cidades do país tem diferenças
bastante nítidas. Começa logo por o conhecimento ou desconhecimento sobre a
realidade: enquanto o número de trotinetas no Porto é controlado, em Lisboa é
uma incógnita.
IMT
Quantas são?
A Câmara da
capital estima que haja entre 15 e 17 mil trotinetas na cidade mas o presidente
da Câmara de Lisboa (CML) afirmou, recentemente, à Renascença que o número se
encontra perto dos 18 mil. O PÚBLICO tentou, junto da autarquia, saber o número
exacto de trotinetas por operadora. Não foi possível apurar. A câmara diz não
ter acesso aos valores e remeteu a responsabilidade para o Instituto da
Mobilidade e dos Transportes (IMT), que é o responsável pelo licenciamento da
actividade das empresas.
Por seu lado, o
instituto respondeu que não tinha acesso a tais números, pois “embora o
licenciamento da actividade” deste tipo de veículos “seja da responsabilidade
do IMT, este organismo não dispõe da informação relativa ao número de
trotinetas existente, porquanto aqueles veículos não serem de licenciamento
obrigatório”. E devolveu a questão para a Câmara de Lisboa.
Ainda assim, o
PÚBLICO tentou saber junto das operadoras de Lisboa quantas trotinetas é que
cada uma tem. Apurou que a Link tem duas mil trotinetas e a Lime 3500. Mas
ainda há mais quatro operadoras - Bolt, Bird, Whoosh e Frog - que não
facilitaram dados.
Mas há um número
que a CML conhece: o das trotinetas autuadas e removidas no ano de 2022 (até ao
mês de Outubro). É a EMEL e a Polícia Municipal de Lisboa que fiscalizam o
estacionamento destes veículos, sendo que, de Janeiro a Outubro, foram
registadas 2685 trotinetas removidas ou autuadas. O número registado no mês de
Outubro é quase metade do valor total (1106). Por cada trotinete removida, é
elaborado um auto de contra-ordenação no valor de 15€, sendo também aplicada
uma taxa de remoção no valor de 41€ e taxa de parqueamento no valor 17€ (por
cada período de 24h em parque).
Em Lisboa existe
um sistema de geofencing, que proíbe que as trotinetas funcionem em determinada
área da cidade. Ainda assim, o engenheiro de mobilidade Mário Alves, que
integra a Associação de Cidadãos Automobilizados, lamenta a falta de acção por
parte das operadoras quanto à forma como os utilizadores abandonam as
trotinetas. É comum verem-se passeios atestados de veículos ou trotinetas
deixadas de tal forma que impossibilitam a circulação, o que ocorre com
frequência em Alfama ou nas zonas junto ao rio Tejo. Quem mais sofre as
consequências desta falta de civismo são as pessoas com mobilidade reduzida ou
deficiências visuais.
Para combater
estes problemas, as operadoras começaram a pedir aos utilizadores para enviarem
uma fotografia das trotinetas no final do percurso, de modo a avaliarem se a
forma como as deixaram estacionadas. O engenheiro Mário Alves reconhece que a
realidade é “irresponsável”, acusando as operadoras de “deixarem passar”
situações que não deveriam ser toleradas, uma vez que “querem ganhar dinheiro”.
Não só as operadoras têm acesso à localização em tempo real
das trotinetas, como a própria CMP também a tem
Pedro Baganha, vereador da Câmara do Porto
Os limites
estabelecidos pelo Porto
Ao contrário de
Lisboa, a Câmara do Porto (CMP) tem acesso ao número de trotinetas que cada
operadora tem. A Bolt tem 700, a Circ tem 630 (com mais 70 bicicletas
eléctricas) e a Bird tem 900. O regulamento deste tipo de transporte partilhado
no Porto estabeleceu um limite de trotinetas, em que se prevê uma concessão
inicial de 700 veículos por operadora, “podendo, casuisticamente, ser estendido
até aos 900”.
Ao PÚBLICO, o
vereador da câmara do Porto responsável pela mobilidade, Pedro Baganha,
acrescentou ainda que não só as operadoras têm acesso à localização em tempo
real das trotinetas, como a própria CMP também a tem. A câmara sabe sempre onde
é que estas se localizam através de uma plataforma geográfica comum, sendo mais
fácil haver um rastreio e fiscalização.
Além disso, o
Porto tem aprovado um regulamento que “mitigou grande parte dos problemas” que
eram encontrados na cidade relativamente a este tema. Em particular, uma das
regras imposta pela câmara foi “a necessidade de início e término das viagens
nos designados pontos de partilha”, que permitiu que “a questão da desarrumação
dos veículos no espaço público fosse muito mitigada”, havendo sanções tanto
para as operadoras, como para os veículos. “Os próprios utilizadores continuam
a pagar a sua utilização”, acrescentou.
Pedro Baganha
garantiu que a Polícia Municipal do Porto fará as fiscalizações de forma
regular. E esse controlo já começou. A autarquia diz que, depois de uma “fase
inicial de sensibilização conjunta com o Departamento Municipal de Mobilidade”,
foram registadas 48 contra-ordenações na primeira fiscalização realizada na
semana de 5 a 9 de Dezembro. As multas variam entre os 30 e os 88 euros.
Uma outra questão
que surge no debate sobre as trotinetas é se este é, efectivamente, um meio
sustentável de deslocação. Isto porque há muitas avariadas, ou por serem
vandalizadas, ou por questões de desgaste e surgem amiúde imagens que mostram
trotinetas vandalizadas, deitadas para o rio ou em cima de árvores.
Mário Alves
admite que Lisboa pode não ser uma cidade muito fácil para estes veículos,
tanto por causa da calçada, como por causa dos paralelepípedos, que podem
afectar a durabilidade destes veículos. Tanto a Bolt, como a Link e a Bird
partilharam que as trotinetas duram, em média, até cinco anos, podendo chegar a
durar mais. Ainda assim, quando estas deixam de funcionar, as empresas garantem
que aproveitam as peças para novas trotinetas, garantindo assim um sistema
circular.
Paris dá o
exemplo
E sem a ajuda das
ciclovias, os trajectos podem realmente ser desagradáveis. Na Avenida da
República, em Lisboa, Leonardo Paula circula com uma mala pousada em cima de
uma trotineta partilhada. É business manager e trabalha temporariamente em
Lisboa. Vive na zona de Entrecampos e tem de se deslocar todos os dias para o
emprego na Avenida Duque de Ávila. Tanto para ir para o trabalho, como para
voltar para casa, é numa trotineta eléctrica que faz sempre o seu percurso, não
demorando mais de 10 minutos.
Leonardo vê as
boas condições da ciclovia da avenida favoráveis a este tipo de deslocação,
sentindo-se seguro durante todo o percurso. Ainda assim, quando tenta fazê-lo
na Avenida Almirante Reis, considera que é “impossível”, tal como muitas outras
zonas de Lisboa, que são "caóticas".
Caótica é também
a palavra usada pelo engenheiro Mário Alves para descrever uma cidade que vê as
trotinetas a “tomar conta do espaço público”. Ainda assim, sublinha que o
principal problema das cidades continua a ser o mau estacionamento de
automóveis. Mas acredita que a solução para Lisboa passa por aquilo que é feito
em cidades europeias, como Barcelona e Paris.
Nestes casos, a
regulamentação das trotinetas funciona com contratos de concessão com regras
“muito rigorosas e explícitas” e punições, no caso de as empresas não cumprirem
com as regras. Esta concessão implica que cada operadora “pague por cada
trotinete”, havendo um limite de trotinetas para cada uma delas. Assim, num
prazo de dois/três anos, a licença pode ser renovada ou não, caso as operadoras
“se portarem mal”.
É o que está a
acontecer neste momento em Paris. As três empresas que operam na capital
francesa (Lime, Dott e Tier) estão em vias de não ter a sua concessão, que
expira em 2023, renovada. O PÚBLICO tentou obter umas respostas junto das
câmaras de Paris e Barcelona sobre este assunto, mas não obteve resposta.
As 15 mil
trotinetas parisienses têm causado muitos transtornos na cidade, não só pelo
mau estacionamento, como também pela velocidade excessiva que este tipo de
transporte atinge. O número de acidentes aumentou, tendo em 2021 chegado a
morrer uma pessoa. As trotinetas estão a ultrapassar as vantagens que trazem
para a cidade, admitiu ao Le Parisien o encarregado pela pasta dos transportes
em Paris, David Belliard, também vice-presidente dos Verdes. Para Belliard “em
termos de segurança, ambiente e partilha do espaço público, vai ser complicado
continuar”. A decisão tomada pela presidente da câmara de Paris, Anne Hidalgo,
deverá ser anunciada brevemente.
Uma decisão como
esta poderá afectar a mobilidade de Nuno Lopes em Paris. Não é só em Lisboa que
o actor adopta a trotineta como meio de transporte principal. Quando está em
trabalho na cidade francesa, é também assim que se desloca. Mas Nuno Lopes
reconhece que Paris está mais bem preparada do que Lisboa a nível do número de
ciclovias e regulamentação.
Voltando a
Portugal, o certo é que as trotinetes fazem agora parte do quotidiano de muitas
cidades e são cada vez mais os apelos a que o seu uso seja regulamentado. No
Funchal, por exemplo, uma cidade muito turística, as trotinetas não são
bem-vindas. Para o município, “esta questão, até ao momento, não tem sido
prioritária”. A orografia da cidade do Funchal “dificulta a introdução destes
meios de transporte, sendo apenas acessível a parte mais plana da cidade, à
beira-mar”.
As trotinetas da
única empresa que opera na cidade madeirense não estão autorizadas a estacionar
em área pública. Apenas em áreas privadas como espaços comerciais ou
logradouros de prédios. Este tipo de medidas leva a que, para quem ande pelas
ruas do Funchal, não se depare com situações de falta de segurança causadas por
trotinetas.




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