segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

O universo das trotinetas partilhadas: vigiadas no Porto e um mistério em Lisboa

 




REPORTAGEM

O universo das trotinetas partilhadas: vigiadas no Porto e um mistério em Lisboa

 

Enquanto o Porto tem acesso à localização em tempo real e impõe quotas a empresas, na capital há vários mistérios: quantas trotinetas existem e quais os limites a impor?

 


Manuel Rocha Leite

10 de Dezembro de 2022, 7:00

https://www.publico.pt/2022/12/10/local/reportagem/universo-trotinetas-partilhadas-vigiadas-porto-misterio-lisboa-2030867

 

“Eu ando de trotinete para todo o lado porque é um meio rápido, prático, barato, divertido e sustentável". O actor Nuno Lopes, de 44 anos, era uma das pessoas que circulava na Av. Fontes Pereira de Melo, na direcção do Marquês de Pombal, de trotineta partilhada, na manhã da última terça-feira. O encontro com o PÚBLICO foi uma casualidade, mas o recurso à trotineta não. Nuno Lopes conta que deixou de andar de táxi ou de Uber e utiliza-as tanto para as deslocações de lazer como as profissionais.

 

Anda “por toda a Lisboa”. Alguns sítios são mais favoráveis do que outros, uma vez que “a cidade não tem muitas ciclovias”. A sustentabilidade é algo que Nuno Lopes faz questão de sublinhar. Ao deixar de fazer os seus percursos em serviços TVDE e táxis, diz, está a contribuir para a promoção de uma atitude ambientalmente mais responsável. Lamenta que haja tanta gente contra as trotinetes, a criticarem nas redes sociais e em fóruns da internet, quando esta é uma opção que tem vantagens tanto para a carteira dos utilizadores como para o ambiente.

 

Mas actor admite problemas. Defende que “há falta de legislação” em Lisboa e que deveriam ser “mais pessoas multadas”, uma vez que se depara regularmente com muitas trotinetas mal estacionadas em cima dos passeios e com pessoas a circular em sítios não autorizados. Acredita que havendo uma regulamentação mais coesa, as pessoas seriam mais beneficiadas.

 

Mas a questão é se há ou não uma legislação adequada às necessidades das cidades. O Porto responde que sim. Lisboa ainda sofre na ignorância.

 

A regulamentação deste tipo de transporte nas duas principais cidades do país tem diferenças bastante nítidas. Começa logo por o conhecimento ou desconhecimento sobre a realidade: enquanto o número de trotinetas no Porto é controlado, em Lisboa é uma incógnita.

 

 Embora o licenciamento da actividade seja da responsabilidade do IMT, este organismo não dispõe da informação relativa ao número de trotinetas existente

IMT

 

Quantas são?

A Câmara da capital estima que haja entre 15 e 17 mil trotinetas na cidade mas o presidente da Câmara de Lisboa (CML) afirmou, recentemente, à Renascença que o número se encontra perto dos 18 mil. O PÚBLICO tentou, junto da autarquia, saber o número exacto de trotinetas por operadora. Não foi possível apurar. A câmara diz não ter acesso aos valores e remeteu a responsabilidade para o Instituto da Mobilidade e dos Transportes (IMT), que é o responsável pelo licenciamento da actividade das empresas.

 

Por seu lado, o instituto respondeu que não tinha acesso a tais números, pois “embora o licenciamento da actividade” deste tipo de veículos “seja da responsabilidade do IMT, este organismo não dispõe da informação relativa ao número de trotinetas existente, porquanto aqueles veículos não serem de licenciamento obrigatório”. E devolveu a questão para a Câmara de Lisboa.

 

Ainda assim, o PÚBLICO tentou saber junto das operadoras de Lisboa quantas trotinetas é que cada uma tem. Apurou que a Link tem duas mil trotinetas e a Lime 3500. Mas ainda há mais quatro operadoras - Bolt, Bird, Whoosh e Frog - que não facilitaram dados.

 

Mas há um número que a CML conhece: o das trotinetas autuadas e removidas no ano de 2022 (até ao mês de Outubro). É a EMEL e a Polícia Municipal de Lisboa que fiscalizam o estacionamento destes veículos, sendo que, de Janeiro a Outubro, foram registadas 2685 trotinetas removidas ou autuadas. O número registado no mês de Outubro é quase metade do valor total (1106). Por cada trotinete removida, é elaborado um auto de contra-ordenação no valor de 15€, sendo também aplicada uma taxa de remoção no valor de 41€ e taxa de parqueamento no valor 17€ (por cada período de 24h em parque).

 

Em Lisboa existe um sistema de geofencing, que proíbe que as trotinetas funcionem em determinada área da cidade. Ainda assim, o engenheiro de mobilidade Mário Alves, que integra a Associação de Cidadãos Automobilizados, lamenta a falta de acção por parte das operadoras quanto à forma como os utilizadores abandonam as trotinetas. É comum verem-se passeios atestados de veículos ou trotinetas deixadas de tal forma que impossibilitam a circulação, o que ocorre com frequência em Alfama ou nas zonas junto ao rio Tejo. Quem mais sofre as consequências desta falta de civismo são as pessoas com mobilidade reduzida ou deficiências visuais.

 

Para combater estes problemas, as operadoras começaram a pedir aos utilizadores para enviarem uma fotografia das trotinetas no final do percurso, de modo a avaliarem se a forma como as deixaram estacionadas. O engenheiro Mário Alves reconhece que a realidade é “irresponsável”, acusando as operadoras de “deixarem passar” situações que não deveriam ser toleradas, uma vez que “querem ganhar dinheiro”.

 

Não só as operadoras têm acesso à localização em tempo real das trotinetas, como a própria CMP também a tem

Pedro Baganha, vereador da Câmara do Porto

 

Os limites estabelecidos pelo Porto

Ao contrário de Lisboa, a Câmara do Porto (CMP) tem acesso ao número de trotinetas que cada operadora tem. A Bolt tem 700, a Circ tem 630 (com mais 70 bicicletas eléctricas) e a Bird tem 900. O regulamento deste tipo de transporte partilhado no Porto estabeleceu um limite de trotinetas, em que se prevê uma concessão inicial de 700 veículos por operadora, “podendo, casuisticamente, ser estendido até aos 900”.

 

Ao PÚBLICO, o vereador da câmara do Porto responsável pela mobilidade, Pedro Baganha, acrescentou ainda que não só as operadoras têm acesso à localização em tempo real das trotinetas, como a própria CMP também a tem. A câmara sabe sempre onde é que estas se localizam através de uma plataforma geográfica comum, sendo mais fácil haver um rastreio e fiscalização.

 

Além disso, o Porto tem aprovado um regulamento que “mitigou grande parte dos problemas” que eram encontrados na cidade relativamente a este tema. Em particular, uma das regras imposta pela câmara foi “a necessidade de início e término das viagens nos designados pontos de partilha”, que permitiu que “a questão da desarrumação dos veículos no espaço público fosse muito mitigada”, havendo sanções tanto para as operadoras, como para os veículos. “Os próprios utilizadores continuam a pagar a sua utilização”, acrescentou.

 

Pedro Baganha garantiu que a Polícia Municipal do Porto fará as fiscalizações de forma regular. E esse controlo já começou. A autarquia diz que, depois de uma “fase inicial de sensibilização conjunta com o Departamento Municipal de Mobilidade”, foram registadas 48 contra-ordenações na primeira fiscalização realizada na semana de 5 a 9 de Dezembro. As multas variam entre os 30 e os 88 euros.

 

Uma outra questão que surge no debate sobre as trotinetas é se este é, efectivamente, um meio sustentável de deslocação. Isto porque há muitas avariadas, ou por serem vandalizadas, ou por questões de desgaste e surgem amiúde imagens que mostram trotinetas vandalizadas, deitadas para o rio ou em cima de árvores.

 

Mário Alves admite que Lisboa pode não ser uma cidade muito fácil para estes veículos, tanto por causa da calçada, como por causa dos paralelepípedos, que podem afectar a durabilidade destes veículos. Tanto a Bolt, como a Link e a Bird partilharam que as trotinetas duram, em média, até cinco anos, podendo chegar a durar mais. Ainda assim, quando estas deixam de funcionar, as empresas garantem que aproveitam as peças para novas trotinetas, garantindo assim um sistema circular.

 

Paris dá o exemplo

E sem a ajuda das ciclovias, os trajectos podem realmente ser desagradáveis. Na Avenida da República, em Lisboa, Leonardo Paula circula com uma mala pousada em cima de uma trotineta partilhada. É business manager e trabalha temporariamente em Lisboa. Vive na zona de Entrecampos e tem de se deslocar todos os dias para o emprego na Avenida Duque de Ávila. Tanto para ir para o trabalho, como para voltar para casa, é numa trotineta eléctrica que faz sempre o seu percurso, não demorando mais de 10 minutos.

 

Leonardo vê as boas condições da ciclovia da avenida favoráveis a este tipo de deslocação, sentindo-se seguro durante todo o percurso. Ainda assim, quando tenta fazê-lo na Avenida Almirante Reis, considera que é “impossível”, tal como muitas outras zonas de Lisboa, que são "caóticas".​

 

Caótica é também a palavra usada pelo engenheiro Mário Alves para descrever uma cidade que vê as trotinetas a “tomar conta do espaço público”. Ainda assim, sublinha que o principal problema das cidades continua a ser o mau estacionamento de automóveis. Mas acredita que a solução para Lisboa passa por aquilo que é feito em cidades europeias, como Barcelona e Paris.

 

Nestes casos, a regulamentação das trotinetas funciona com contratos de concessão com regras “muito rigorosas e explícitas” e punições, no caso de as empresas não cumprirem com as regras. Esta concessão implica que cada operadora “pague por cada trotinete”, havendo um limite de trotinetas para cada uma delas. Assim, num prazo de dois/três anos, a licença pode ser renovada ou não, caso as operadoras “se portarem mal”.

 

É o que está a acontecer neste momento em Paris. As três empresas que operam na capital francesa (Lime, Dott e Tier) estão em vias de não ter a sua concessão, que expira em 2023, renovada. O PÚBLICO tentou obter umas respostas junto das câmaras de Paris e Barcelona sobre este assunto, mas não obteve resposta.

 

As 15 mil trotinetas parisienses têm causado muitos transtornos na cidade, não só pelo mau estacionamento, como também pela velocidade excessiva que este tipo de transporte atinge. O número de acidentes aumentou, tendo em 2021 chegado a morrer uma pessoa. As trotinetas estão a ultrapassar as vantagens que trazem para a cidade, admitiu ao Le Parisien o encarregado pela pasta dos transportes em Paris, David Belliard, também vice-presidente dos Verdes. Para Belliard “em termos de segurança, ambiente e partilha do espaço público, vai ser complicado continuar”. A decisão tomada pela presidente da câmara de Paris, Anne Hidalgo, deverá ser anunciada brevemente.

 

Uma decisão como esta poderá afectar a mobilidade de Nuno Lopes em Paris. Não é só em Lisboa que o actor adopta a trotineta como meio de transporte principal. Quando está em trabalho na cidade francesa, é também assim que se desloca. Mas Nuno Lopes reconhece que Paris está mais bem preparada do que Lisboa a nível do número de ciclovias e regulamentação.

 

Voltando a Portugal, o certo é que as trotinetes fazem agora parte do quotidiano de muitas cidades e são cada vez mais os apelos a que o seu uso seja regulamentado. No Funchal, por exemplo, uma cidade muito turística, as trotinetas não são bem-vindas. Para o município, “esta questão, até ao momento, não tem sido prioritária”. A orografia da cidade do Funchal “dificulta a introdução destes meios de transporte, sendo apenas acessível a parte mais plana da cidade, à beira-mar”.

 

As trotinetas da única empresa que opera na cidade madeirense não estão autorizadas a estacionar em área pública. Apenas em áreas privadas como espaços comerciais ou logradouros de prédios. Este tipo de medidas leva a que, para quem ande pelas ruas do Funchal, não se depare com situações de falta de segurança causadas por trotinetas.

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