domingo, 24 de outubro de 2021

O centro tem de continuar a resistir

 



OPINIÃO

O centro tem de continuar a resistir

 

Veio do outro lado do Atlântico a frase breve que talvez melhor define Angela Merkel e o seu legado: “Thanks to you, the centre has held through many storms”.

 

Teresa de Sousa

24 de Outubro de 2021, 6:32

https://www.publico.pt/2021/10/24/opiniao/opiniao/centro-continuar-resistir-1982254

 

1. Era a última cimeira de Angela Merkel. Os seus pares europeus não pouparam nas palavras e nos gestos para significar o seu agradecimento e a sua admiração por 16 anos e 107 Conselhos Europeus em que, praticamente desde o primeiro dia, a sua influência foi decisiva. Quase sempre em favor do compromisso e, portanto, a bem da Europa. Deixa um vazio enorme, não tanto pelas políticas que defendeu, que nem sempre foram as melhores para o conjunto, mas pela sua forma particular de exercer a liderança e a política – consensual, na medida do possível, esclarecida, aberta à discussão e ao compromisso, dispensando os grandes gestos ou as grandes tiradas destinadas a emocionar a plateia, desprezando com um sorriso nos lábios as vaidades dos que a rodeavam, na sua maioria homens.

 

Compararam-na ao Vaticano ou à Torre Eiffel. Veio do outro lado do Atlântico a frase breve que talvez melhor a define e ao seu legado. “Thanks to you, the centre has held through many storms” [Graças a ti, o centro conseguiu resistir através de muitas tempestades]. A frase é de Barack Obama, que a acompanhou ao longo dos seus dois mandatos na Casa Branca, que acabou por forjar com ela uma forte cumplicidade, partilhando com a chanceler um esforço de racionalidade e de moderação que são cada vez menos visíveis nas nossas democracias liberais. O centro prevaleceu nas eleições que ditarem quem lhe vai suceder na chancelaria de Berlim. Por quase toda a Europa, o tribalismo e a polarização teimam em manifestar-se, muitas vezes de onde menos se esperaria, minando o centro, fragmentado a paisagem política, tornando cada vez mais decisivo cada combate em defesa da democracia liberal. Na França como na Polónia, na Itália como na Dinamarca, em Espanha ou em Portugal. A questão esteve presente no Conselho Europeu de quinta e sexta-feira. A chanceler pôde exercer a sua influência moderadora.

 

2. Como lidar com a Polónia, o quinto país mais populoso da União Europeia, com uma posição geopolítica fundamental nos equilíbrios de poder continentais, que arrasta consigo um passado que, ao longo de quase todo o século XX, viveu tantas vezes como tragédia?

 

A Europa é a única organização internacional construída a partir da lei – é isso que lhe dá o seu caracter único. É um pacto firmado entre democracias – a condição indispensável para lhe pertencer –, o que quer exactamente dizer que tem por fundamento o respeito pela democracia liberal, pelo Estado de Direito e pela natureza inviolável e universal dos Direitos Humanos. Por isso, a lei europeia deve ser respeitada e cumprida em todos os seus Estados-membros. É esse o compromisso que cada país subscreve solenemente quando escolhe aderir. Por isso, representa um compromisso igualmente solene com os valores fundamentais em que a integração assenta, expressos em cada tratado desde a sua fundação. O Tratado de Lisboa prevê no seu Artº 7º as sanções a que um Estado-membro fica sujeito quando viola estes princípios e que podem incluir a suspensão do seu direito de voto no Conselho. A Comissão já abriu vários procedimentos que decorrem da sua aplicação, quer a Varsóvia quer a Budapeste, que se prolongam sem fim à vista, num processo burocrático e por vezes pouco transparente que não ajuda ao esclarecimento das respectivas opiniões públicas e permite aos dois governos tocar a corda “patriótica” para se fazerem de vítimas. A questão polaca foi debatida pelos líderes na quinta-feira e Merkel fez bem em aconselhar que o melhor seria manter o diálogo com Varsóvia, independentemente dos procedimentos legais. Não é fácil encontrar um equilíbrio.

 

Deixar passar em claro a forma como Varsóvia desafia a ordem constitucional europeia não é possível, até porque existe um real risco de contágio que não se limita à Europa de Leste. O primeiro-ministro esloveno, por exemplo, é um admirador confesso de Orbán e de Trump. Os vários candidatos da direita democrática francesa às eleições presidenciais de Abril não hesitaram um minuto em aproveitar a “boleia” polaca para caírem estrondosamente na tentação de “piscar o olho” à extrema-direita, considerando que há matérias de soberania nacional que não se devem subordinar à lei europeia e que devem estar consagradas na Constituição. Ouvir Michel Barnier defender esta tese depois de ter chefiado as negociações do “Brexit” denunciando, a cada passo, os britânicos por querem “devolver” a Westminster o controlo da sua soberania, não é apenas patético. É mais uma prova de que o centro-direita europeu está a resistir mal aos “cantos de sereia” da direita populista e nacionalista, deixando-se levar por algumas das suas bandeiras identitárias e antieuropeias, em vez de as combater. Aliás, o primeiro-ministro polaco mostrou-lhes de que lado estava quando aproveitou a viagem a Bruxelas para dar um salto a Paris e cumprimentar Marine Le Pen. A Alemanha é, por enquanto, uma rara e honrosa excepção a esta tentação fatal, graças também a Angela Merkel.

 

Convém ainda ter presente que o caminho antiliberal não está irreversivelmente traçado, nem em Varsóvia nem em Budapeste. Basta lembrar as gigantescas manifestações polcas em protesto contra mais esta afronta do Governo a Bruxelas, empunhando bandeiras da União Europeia. Orbán já conseguiu ir mais longe na aplicação da sua tese sobre as virtudes da “democracia iliberal”, mas as sondagens indicam que a nova coligação entre todos os partidos da oposição em torno de um candidato conservador para desafiá-lo nas próximas eleições não pode, de maneira nenhuma, deixá-lo tranquilo. O diálogo europeu também deve incluir estas forças.

 

3. Em hora de fazer o balanço sobre o seu legado, a chanceler foi bastante criticada por ter sido demasiado condescendente com as infracções políticas de Varsóvia. O papel da Alemanha no passado ajuda, certamente, a justificar esta condescendência. Mas o seu espírito de compromisso também, assim como a sua reflexão sobre a Europa que deixa como legado. Uma Europa mais dividida, cujas democracias liberais estão a ser desafiadas por dentro pelos radicalismos populistas e nacionalistas, impreparada para compreender as transformações tectónicas que abalam o mundo. Desafiada pela instabilidade nas suas fronteiras. Com o seu modelo económico e social posto à prova pela crescente competição internacional. Deste ponto de vista, numa entrevista ao diário francês Le Figaro, Ivan Krastev dava a melhor e mais sintética definição das dificuldades porque tem passado a relação transatlântica: “Os americanos tentam explicar à Europa que o mundo mudou.”

 

4. Uma nota final sobre o segundo debate fundamental que mobilizou os líderes europeus – a energia, com a subida abrupta dos preços e as ameaças ao abastecimento. Não houve conclusões dignas desse nome, embora o problema seja suficientemente grave para pôr em causa a retoma económica pós-pandemia. Os europeus estão demasiado divididos para se entenderem sobre duas coisas fundamentais. A primeira, como compensar o erro estratégico calamitoso de se colocarem nas mãos de Putin para o abastecimento de gás natural em 40% das suas necessidades – sobretudo na Europa central. Merkel é a principal responsável, ao ignorar, por exemplo, o drama que isso pode constituir para a Polónia (e a Ucrânia), deixando-a ao sabor da chantagem de Moscovo. Nas últimas semanas, o Presidente russo foi pródigo em declarações esclarecedoras sobre a “arma” que o novo Nord Stream 2 lhe coloca nas mãos. Só não entende que não quer.

 

A segunda diz respeito aos enormes riscos económicos e sociais que a transição “verde” necessariamente comporta. A Europa quer ser a “melhor aluna da classe” e isso fica-lhe bem. Tem um custo difícil de suportar, quer em termos de competitividade, quer em termos de custo social, que não parece devidamente avaliado. Por isso, o Presidente Macron tem razão quando insiste em colocar o nuclear em cima da mesa. Por isso, Merkel se precipitou quando, em 2011, anunciou o encerramento de todas as centrais nucleares alemãs até 2024. Hoje, a Alemanha tem um sério problema com a substituição do carvão, uma séria dependência da Rússia e um atraso significativo na criação de novas fontes de emergia limpa. Não é o melhor dos mundos. É um desafio que o novo governo “centrista” alemão terá de enfrentar. A Europa espera ansiosamente por ele. O centro tem de continuar a resistir.

 

tp.ocilbup@asuos.ed.aseret

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