quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Fim do SEF. PS e BE já chegaram a acordo para aprovar extinção total / PSD perde na batalha do SEF: PS e Bloco aprovam distribuição de competências e nova agência para as migrações / Um apelo à revisão da Nova Lei da Imigração e à reposição do SEF, por António Sérgio Rosa de Carvalho.

 

PARLAMENTO

PSD perde na batalha do SEF: PS e Bloco aprovam distribuição de competências e nova agência para as migrações

 

Socialistas e bloquistas juntaram-se para alterar texto do Governo e incorporar já a nova entidade administrativa proposta pelo Bloco que foi a condição para a aprovação da extinção do SEF.

 

Maria Lopes

20 de Outubro de 2021, 11:50

https://www.publico.pt/2021/10/20/politica/noticia/psd-perde-batalha-sef-ps-bloco-aprovam-distribuicao-competencias-nova-agencia-migracoes-1981792

 

Está aprovada na especialidade a extinção do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) e a distribuição das suas competências pela PSP, GNR, PJ e Instituto de Registos e Notariado tal e qual como o Governo pretendia, assim como a criação de uma nova Agência Portuguesa para as Migrações e Asilo exigida pelo Bloco. O PS e o Bloco aprovaram sozinhos, apenas com a deputada não-inscrita Joacine Katar Moreira, a proposta de lei e as suas próprias alterações ao texto do Governo nesta quarta-feira de manhã na Comissão de Assuntos Constitucionais. O PCP e o PSD votaram contra, ao passo que CDS, PAN e Chega faltaram à reunião.

 

Os comunistas só votaram a favor dos artigos sobre a salvaguarda dos direitos adquiridos dos trabalhadores do SEF, da sua formação em direito migratório, direitos humanos e apoio ao migrante e requerente de asilo.

 

O texto final é um cozinhado entre a proposta de lei do Governo e o projecto de lei do Bloco (que assim o vai retirar em prol da versão que acertou com o PS). Nele já consta a Agência Portuguesa para as Migrações e Asilo (APMA) — que era a base da proposta do Bloco e que funcionou como a moeda de troca para os bloquistas apoiarem a extinção do SEF —, que agora o Governo tem de criar num prazo de 60 dias e que terá natureza meramente administrativa.

 

O que fará a nova agência

A APMA tem como missão concretizar as políticas públicas em matéria migratória e de asilo, incluindo a regularizar a entrada e permanência de cidadãos estrangeiros em território nacional, emitir pareceres sobre pedidos de vistos, de asilo e de instalação de refugiados, e participar na execução da política de cooperação internacional do Estado no âmbito das migrações e asilo.

 

Fica por saber se a gestão das bases de dados actuais do SEF, que são consideradas um património informativo muito importante, passará também para a APMA depois de o Conselho Superior do Ministério Público ter alertado, no seu parecer, que essa informação não deveria ficar sob a tutela de uma entidade meramente administrativa.

 

O texto agora acordado estipula que, depois da entrada em vigor da nova agência, os sistemas informáticos e de comunicações do SEF, incluindo as relativas à parte nacional do sistema de informação Schengen e outros existentes no âmbito do controlo da circulação de pessoas, passam a ser geridos por uma “unidade de tecnologias de informação de segurança nos termos fixados por decreto-lei”. Isso significa que o decreto-lei do Governo que criar a Agência deverá igualmente definir quem fará a gestão desse património.

 

O diploma segue agora para votação final no plenário na sexta-feira e o PCP já anunciou que manterá o seu voto contra por entender que, “sendo justa a separação clara de funções judiciais e administrativas, não é justa a extinção do SEF”, segundo afirmou António Filipe. E adverte que a integração noutras forças de segurança trará problemas porque estas são de “natureza diversa” e esses critérios de integração “não são claros” e “serão criadas instabilidades, por exemplo, no controlo fronteiriço”.


Fim do SEF. PS e BE já chegaram a acordo para aprovar extinção total

 

Já não haverá Serviço de Estrangeiros e Asilo, mas sim uma Agência para as Migrações e Asilo, que tratará de toda a parte documental dos estrangeiros e da política migratória

 

Fim do SEF.  PS e BE já chegaram  a acordo para aprovar extinção total

 

Valentina Marcelino

16 Outubro 2021 — 16:46

https://www.dn.pt/politica/fim-do-sef-ps-e-be-ja-chegaram-a-acordo-para-aprovar-extincao-total-14227350.html?fbclid=IwAR2lN0cANN5rJzsOvdR_WvRNGY36srQiIzzK0KV23W2wE5gV_maBvpK6FnY

 

O Partido Socialista (PS) e o Bloco de Esquerda (BE) vão levar a votos na próxima quarta-feira na 1ª Comissão parlamentar o texto que acordaram e que incorpora as respetivas propostas de alteração ao diploma do governo para a extinção do SEF.

 

A proposta do executivo tinha sido aprovada na generalidade com os votos a favor apenas do PS e da deputada Joacine Katar Moreira e com a abstenção do BE e do PAN, e está agora na fase de debate na especialidade na Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias.

 

Segundo o documento a que o DN teve acesso, a maior novidade do acordo, para cuja aprovação bastam os votos dos socialistas e dos bloquistas, é uma vitória do BE: trata-se da criação, já proposta pelo partido coordenado por Catarina Martins em julho passado, de uma Agência para as Migrações e Asilo (APMA), que substituirá o Serviço de Estrangeiros e Asilo (SEA) que o governo tinha avançado.

 

Não há, no entanto, referência neste texto de acordo se a APMA ficará sob o comando da Presidência do Conselho de Ministros, que tutela a Secretaria de Estado para a Integração e as Migrações, "promovendo uma separação entre a segurança interna e as políticas de imigração", como pretendia o BE quando sugeriu esta estrutura, ou sob o ministério da Administração Interna, como ficava o SEA do diploma do governo.

 

"Essa é a nossa proposta. Contudo, ainda não está definido", confirmou ao DN a deputada bloquista Beatriz Gomes Dias, responsável por esta pasta. "Na quarta será a votação indiciária na comissão. Se for aprovado será votado em plenário na sexta feira", acrescenta a deputada.

 

No que o PS e o BE estão em sintonia é que a APMA seja criada "no prazo de 60 dias" (o BE queria 30), "com a missão de concretizar as políticas públicas em matéria migratória e de asilo, nomeadamente a de regularização da entrada e permanência de cidadãos estrangeiros em território nacional, emitir pareceres sobre os pedidos de vistos, de asilo e de instalação de refugiados, assim como participar na execução da política de cooperação internacional do Estado português no âmbito das migrações e asilo".

 

E que junto da APMA funcione "um órgão consultivo em matéria migratória e de asilo, assegurando a representação de departamentos governamentais e de organizações não governamentais, como tal reconhecidas nos termos da lei, cujo objeto estatutário se destine primordialmente à defesa dos direitos das pessoas migrantes, refugiadas e requerentes de asilo, à defesa dos direitos humanos ou ao combate ao racismo e xenofobia, competindo-lhe, designadamente, emitir pareceres, recomendações e sugestões que lhe sejam submetidos".

 

Além da APMA, as atuais funções administrativas do SEF - cuja separação das policiais era o principal desígnio do governo - passam também a ser exercidas "pelo Instituto dos Registos e do Notariado no que respeita aos cidadãos estrangeiros titulares de autorização de residência (...) bem como a emissão de passaportes".

 

Conforme o DN já noticiou, a proposta do governo tinha sido "chumbado" por todos os 13 pareceres pedidos pela 1ª comissão a diversas entidades.

 

Quanto às funções policiais do SEF, a ser repartidas pela PJ, GNR e PSP, mantém-se, no essencial o que era defendido pelo governo, mas com o BE a conseguir introduzir algumas condições relacionadas com a formação dos agentes da PSP e dos militares da GNR para as novas funções.

 

Por proposta do BE, socialistas concordaram em que fosse "assegurada a formação regular e continuada dos efetivos da PSP, GNR e PJ, bem como dos funcionários do IRN, em matérias de direitos humanos, direito das migrações, direito de asilo e em outras matérias relacionadas com as suas novas atribuições".

 

Em relação às poderosas bases de dados policiais do SEF, a cujo controlo não era feita referência no diploma do governo, como alertou no seu parecer o Conselho Superior do Ministério Público (CSMP), o acordo PS/BE determina que "até à entrada em vigor do diploma(...) são mantidas em vigor as normas que regulam os sistemas informáticos e de comunicações do SEF, incluindo as relativas à Parte Nacional do Sistema de Informação Schengen e outros existentes no âmbito do controlo da circulação de pessoas, passando a sua gestão a ser assegurada por uma unidade de tecnologias de Informação de Segurança" - sem referir sob que tutela vai ficar.

 

Foi ainda sob proposta do BE, que na versão do documento que vai ser votada ficou garantido que "o governo assegura a prestação de apoio jurídico, através de parceria com a Ordem dos Advogados e com organizações representativas de migrantes e requerentes de asilo, assim como apoio humanitário, linguístico, médico e psicológico ao migrante e ao requerente de asilo nas zonas internacionais" e que "atendimento ao migrante é realizado preferencialmente por profissionais com formação em direito migratório e sempre de forma a garantir a sua privacidade e confidencialidade.

 

Em relação à transição dos funcionários do SEF para a APMA, IRN, GNR, PJ e PSP esta será feita, no caso do "pessoal da carreira de investigação e fiscalização para outras forças de segurança ou serviços, assim como os trabalhadores da carreira geral" sem "redução das respetivas categoria, antiguidade e índice remuneratório, sendo assegurada a contagem de todo o tempo de serviço prestado no SEF, designadamente para efeitos de promoção, disponibilidade e aposentação".

 

Quanto à transição para outras entidades "deve ter em conta os conteúdos funcionais e a natureza das funções exercidas anteriormente pelo trabalhador nos últimos três anos".

 

A extinção do SEF foi acelerada, recorde-se, pela morte do cidadão ucraniano Ihor Homeniuk nas instalações desta polícia no aeroporto de Lisboa e pela qual já foram condenados três inspetores.

 

A Inspeção-Geral da Administração Interna detetou várias falhas de procedimentos e controlo no Espaço Equiparado a Centro de Instalação Temporária (EECIT) onde estava Ihor.

 

Quanto a estes EECIT, segundo o acordo do BE e do PS, vão ficar sob "gestão" da PSP e da GNR, nas respetivas áreas de controlo de fronteiras da sua responsabilidade.

 

Recorde-se que a PJ assume a exclusividade da "investigação dos crimes de auxílio à imigração ilegal, associação de auxílio à imigração ilegal, tráfico de pessoas e de outros com estes conexos", que partilhava com o SEF.

 

A PSP fica, nas suas áreas de jurisdição, com a "vigilância, fiscalização e controlo das fronteiras aeroportuárias; a vigilância, fiscalização e controlo dos terminais de cruzeiro; a execução do cumprimento das decisões de afastamento coercivo e das decisões judiciais de expulsão de cidadãos estrangeiros" e com "a realização dos controlos móveis e de operações conjuntas com forças e serviços de segurança nacionais e congéneres estrangeiras".

 

A GNR fica responsável pela "vigilância, fiscalização e controlo das fronteiras marítima e terrestre" e também pela execução das decisões de afastamento e pelos controlos móveis, nas suas áreas de jurisdição





OPINIÃO

Um apelo à revisão da Nova Lei da Imigração e à reposição do SEF

 

Chegou o momento de voltar a rever a Nova Lei da Imigração e de garantir a continuidade do SEF. Um SEF reformado na sua essência, reconhecido e viabilizado por apoio político e apetrechado por meios à altura das suas importantes e insubstituíveis funções.

 

António Sérgio Rosa de Carvalho

25 de Maio de 2021, 17:05

https://www.publico.pt/2021/05/25/opiniao/opiniao/apelo-revisao-nova-lei-imigracao-reposicao-sef-1963951

 

O maior paradoxo que anunciava um escândalo sem precedentes, uma situação que todos implicitamente conheciam,( 1 )  constitui o facto que ele estrondosamente se revelou no preciso momento em que António Costa, reboliço, se insinuava no Porto perante o topo da Europa, apresentando a Europa Social.

 

Entretanto, anunciou um ‘remendo’ para a situação, ( 2 ) pago por fundos europeus, fundos de reconstrução e apoio ligados a imposições ambientais definidas pelo Green Deal, para garantir não só a continuidade de uma situação ambiental e humana inaceitável, mas para eventualmente triplicar o grau de destruição de um Parque Natural e oficializar a ilegalidade massificada num irresponsável e irrealista contraciclo perante os Acordos de Schengen.

 

Perante as situações de Lampedusa, as Canárias e agora muito recentemente Ceuta,( 3 )  o ministro francês do Interior diz que Espanha e Itália “controlam mal” a imigração ( 4 )  e promete retomar o controlo das fronteiras externas com a Presidência da França da UE em 2022.

 

E aqui chegamos a um dos muitos paradoxos inaceitáveis. Não temos, além do Algarve, uma vulnerabilidade na nossa costa Atlântica comparável ao Sul do Mediterrâneo. Portanto, não pensamos em termos de fronteiras externas. No entanto, desde 2017 e da alteração da Lei da Imigração, criámos, nós próprios, uma verdadeira ‘Fábrica de Legalizações’ para milhares de pessoas que sonham com uma vida na Europa. Portanto, o ‘efeito de chamada’ num irresponsável e irrealista total contraciclo com a Europa em relação ao qual o SEF foi avisando, e que custou a cabeça à sua antiga directora, não só se confirmou, mas foi progressivamente aumentando.

 

Não há dúvida que as redes e as máfias especializadas em imigração ilegal e escravatura estão instaladas no Alentejo, ( 5 ) e no Ribatejo ( 6 )  e na imensa rede de lojas nas cidades.( 7 )

 

Representamos, portanto, uma ameaça, criada por nós próprios, que encaixa, embora de forma original, no conceito de fronteiras externas e que se enquadra nas preocupações expressas pelo ministro Gérald Darmanin. Preocupações negadas pelo PS, o PCP e o BE.

 

Que o PCP e o BE, na sua negação sistemática e hostilidade ideológica perante o Projecto Europeu, se comportem com tal cegueira não é de admirar.

 

Mas que o PS e António Costa, em plena Presidência Portuguesa da UE, se comportem desta maneira é grave. Profundamente grave.

 

Num momento em o próprio conceito da Democracia é questionado e atacado por muitos.

 

Vivemos um momento em que a gestão dos frágeis equilíbrios sociais e humanos nas sociedades multiculturais, com os conhecidos perigos de extremismo traduzido em ‘votos de protesto’, se encontra sobre uma pressão extraordinária.

 

Em França, essa pressão é traduzida por manifestações públicas de protesto das forças policiais, por cartas assinadas pelo topo das Forças Armadas, e agora, sem dúvida, pelas preocupações explícitas do seu ministro do Interior.

 

Chegou portanto o momento de voltar a rever a Nova Lei da Imigração e de garantir a continuidade do SEF. Um SEF reformado na sua essência, reconhecido e viabilizado por apoio político e apetrechado por meios à altura das suas importantes e insubstituíveis funções.

 

Senão, podemos estar perante um outro e grave paradoxo: as mesmas forças políticas que vociferam indignações e rasgam continuamente as vestes pelos Direitos Humanos e a Justiça Social transformaram-se nos principais coveiros da Democracia!

 

Historiador de Arquitectura


( 1 ) https://www.publico.pt/2021/05/10/local/noticia/incuria-facilitismo-sucessivos-governos-levou-situacao-explosiva-odemira-acusam-autarcas-1961869

 

( 2 ) https://www.publico.pt/2021/05/12/local/noticia/governo-vai-financiar-instalacao-contentores-quintas-odemira-1962186

 

( 3 ) https://www.publico.pt/2021/05/19/mundo/noticia/oito-mil-migrantes-transformaramse-arma-diplomatica-espanha-marrocos-1963163

 

( 4 ) https://www.publico.pt/2021/05/22/mundo/noticia/ministro-frances-interior-espanha-italia-controlam-mal-imigracao-1963621

 

( 5 ) https://www.publico.pt/2021/05/04/sociedade/noticia/maioria-imigrantes-asia-paga-10-mil-euros-chegar-alentejo-estudo-1961170

 

( 6 ) https://www.publico.pt/2021/05/17/sociedade/reportagem/investigadas-santarem-situacoes-semelhantes-odemira-1962666

 

 ( 7 ) https://www.publico.pt/2021/05/15/local/opiniao/negocio-ha-atras-lojas-bugigangas-turistas-1962506

 


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