OPINIÃO
Jornalismo político e kremlinologia
A “fonte”, o recado e a intenção pelo mestre dos cenários
e da utilização dos jornalistas: Marcelo Rebelo de Sousa
José Pacheco
Pereira
4 de Setembro de
2021, 0:20
https://www.publico.pt/2021/09/04/opiniao/opiniao/jornalismo-politico-kremlinologia-1976256
O jornalismo
político português dificilmente se consegue livrar dos seus defeitos genéticos
em democracia e, por isso, é pouco informativo e pouco analítico, muito
opinativo e pouco rigoroso. Explico-me, repetindo o que já escrevi há muitos
anos, o jornalismo português veio de 48 anos de censura, o que é um lastro
perverso, que afectou mais de uma geração de jornalistas e os seus leitores. O
único jornalismo que sobreviveu à censura, deixando de lado os propagandistas e
funcionários da ditadura, era um jornalismo de esforço, de militância, e
vontade de exercer a sua profissão nas piores condições e com todos os
riscos. Era também neste contexto um jornalismo de oposição, que usava os
interstícios da censura para levar aos portugueses informação sobre o seu país
tal como ele era – pobre, desigual, reprimido, envolvido numa guerra injusta e
sem fim, isolado internacionalmente, com uma governação mesquinha, interesseira
assente na violência e na mentira. No Diário de Lisboa, no Diário Popular, na
Capital, no Expresso, na Vida Mundial, nalguns jornais locais, e, num ou noutro
caso muito isolado, na rádio e quase nada na televisão, de vez em quando lá
havia informação.
Não havia
verdadeiro jornalismo político, porque não havia liberdade. Foi preciso
recomeçar depois do 25 de Abril, à medida que os “velhos jornalistas” iam sendo
marginalizados e substituídos por novas gerações. Sobre este vazio surgiram
então duas escolas de jornalismo político, uma genética, a outra como reacção à
primeira, uma a do “jornalismo dos cenários” de Marcelo Rebelo de
Sousa/Expresso, e a outra a do “jornalismo inventivo” de Paulo
Portas/Independente.
A primeira escola
teve um efeito de superficialização da actividade política e introduziu um
estilo especulativo em que, como não é escrutinado, o público não percebe como
muito pouco acerta na realidade e como muitos dos “cenários” nunca se realizam.
Basta ouvir uma entrevista e ver as perguntas para se perceber como são
dominados pelos lugares-comuns dos cenários. A seguir, o efeito de rebanho faz
alastrar as mesmas questões, o mesmo estilo. A segunda escola acaba por
favorecer o subjectivismo, a pessoalização, as amizades e os ódios, aponta
alvos socialmente definidos, os de cima escapam à crítica, os de baixo são
ridicularizados, introduz muita snobeira e jactância num sentimento de
superioridade face àquilo que pensam ser a vulgaridade da democracia e dos
políticos. O engraçadismo é filho desta escola.
Gerações de
jornalistas formaram-se nestas escolas que ainda hoje dominam e deformam o
jornalismo político. Apesar do bater no peito pela “independência” dos
jornalistas, cada uma destas escolas teve na sua origem um mentor político, com
carreira que dura já há várias décadas, e serviam e servem objectivos não só da
sua carreira, como dos grupos a que pertencem, mais grupos do que partidos,
criando um jornalismo político intencional, muito pouco independente e, do
ponto de vista informativo e analítico, muito pobre.
Dito tudo
isto, um exemplo típico do modo como o jornalismo político português actua,
principalmente o tributário da escola dos “cenários”, foi a redução do
congresso do PS a um drama de “sucessão” que, verdadeiramente, não existiu.
Apesar de se perceber que a ideia de uma sucessão a curto prazo é propugnada
pelo Presidente, como se vê na capa do Expresso com o “recado”, apesar de se
saber que pelo menos Pedro Nuno Santos pretende ser sucessor, e de também se
saber que António Costa não o deseja, e de poder haver várias pessoas que
também o queiram ser, toda a informação relevante sobre o assunto cabe nesta
frase. Como foi possível gastarem-se horas de rádio e televisão, milhares de
palavras online e no papel, sobre um não-assunto, em Setembro de 2021?
Aplicando aquilo que faziam os especialistas na URSS, quando não tinham
qualquer informação sobre o que se passava: usando os critérios da
kremlinologia. Isto significava ver a ordem pela qual os dirigentes estavam
sentados, o seu lugar nas listas, em que ordem falavam, como eram saudados,
etc. António Costa, que é mais esperto do que muito do jornalismo político todo
junto, deu-lhes kremlinologia para se entreterem e eles assim fizeram. E tudo o
que é relevante na actual situação política, as questões “duras”,
principalmente a estabilidade governativa num PS sem maioria, e o Orçamento
como o vê o PCP ficam onde quem tem de as tratar deseja que estejam, atrás do
biombo.
Historiador


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