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OPINIÃO
Fachada ou Fantochada?
A vaga de destruição do interior do edificado do período
de transição, 300 prédios entre 2007 e 2017 só em Lisboa, estendeu-se
ultimamente ao património classificado quer desse período quer de períodos
anteriores e posteriores e portanto as cidades portuguesas, com raras
excepções, estão a perder importantíssima documentação material da sua história
a uma velocidade nunca vista até agora.
Luis Barreira de
Sousa
3 de Setembro de
2021, 13:34
https://www.publico.pt/2021/09/03/opiniao/opiniao/fachada-fantochada-1976193
Ao longo dos
próximos seis anos o estado investirá mais de 3 mil milhões de euros na
construção de casas, sob diversas modalidades e com diferentes propósitos, o
que será um grande desafio não só para a concepção e construção de habitação
nova de qualidade como também para a preservação da integridade do edificado
patrimonial que será objecto de reabilitação - ou até mesmo para o eventual
resgate do edificado histórico que foi parcialmente destruído por reabilitação
mal feita.
Começo por me
referir ao edificado do período da transição, isto é, da segunda metade do
século XIX e da primeira do século XX, que corresponde a grande parte do que
vemos nos centros históricos ainda hoje e que por conseguinte é a alma das
nossas cidades.
É sobretudo a
este património que se aplica geralmente desde a década de 60, o discutível
princípio da conservação apenas da fachada o qual, como infelizmente todos
sabemos, convive com a indiferença cada vez maior em relação ao que os donos
queiram fazer no interior dos prédios.
Graças a esse
discutível princípio a estrutura interior desses prédios construída em madeira,
argamassa e cal foi sendo substituída por uma nova estrutura muito mais pesada
construída em cimento e ferro sem qualquer consideração pela sua menor
adaptabilidade à temperatura e aos sismos, pela sua maior pegada ambiental ou
pela sua maior dependência de importações.
A vaga de
destruição do interior do edificado do período de transição, 300 prédios entre
2007 e 2017 só em Lisboa, segundo Paulo Ferrero, estendeu-se ultimamente ao
património classificado quer desse período quer de períodos anteriores e
posteriores e portanto as cidades portuguesas, com raras excepções, estão
também a perder importantíssima documentação material da sua história a uma
velocidade nunca vista até agora.
O próprio
princípio da conservação apenas da fachada está em declínio tendo deixado de
incluir a manutenção das cantarias limpas, alvenarias de argamassa de cal
pigmentada, das portas originais tradicionalmente feitas com a nossa madeira de
pinho e pintadas com tintas feitas com as nossas resinas, das janelas também de
madeira e de caixilhos subdivididos com vidros pequenos, dos telhados e suas
coberturas de telha e dos algerozes interiores de barro cozido que despejam as
águas em caneiros tapados incrustados nos passeios.
Em vez disso, o
principio da manutenção apenas da fachada passou gradualmente a conviver com:
cantarias pintadas, revestimentos de cimento pintados com tintas químicas,
portas feitas de plástico e sem ligação formal com as originárias, janelas
cujos caixilhos são agora também feitos de plástico com o pretexto ardiloso de
contribuir para a eficiência energética e cujas vidraças variam livremente ao
gosto dos ocupantes de cada apartamento, novos andares de mansardas altas
cobertas de chapa cinzenta no lugar dos sótãos - autênticas cabeleiras como em
tempos disse com humor Eduardo Souto de Moura - e algerozes exteriores feitos
de plástico que despejam diretamente para cima dos passeios.
2. Esta
degradação lamentável do património edificado histórico, classificado e não
classificado, em resultado da aplicação do princípio da conservação apenas da
fachada aos prédios do período de transição ou anteriores, e da recente
adulteração desse mesmo princípio, tem contribuído também para o aumento das rendas
dos apartamentos nos centros históricos e por consequência não só para a
expulsão dos que aí nasceram e gostaria de continuar como para a dificuldade de
para aí se mudarem os que vêm trabalhar para a cidade.
Com efeito, se o
dono da obra, sobremaneira no caso de ser uma entidade pública, tivesse que
respeitar não só a fachada como a estrutura interior dos prédios, como se vê em
tantos outros centros históricos pela Europa fora, os apartamentos, além de
muito mais resistentes aos sismos e aos extremos de temperatura, seriam mais
baratos e portanto acessíveis aos jovens adultos de qualquer classe social.
Desde que, claro
está, uma parte importante do referido património não tivesse sido ainda por
cima capturada por detentores de vistos de ouro e exilados fiscais ou desviada
para o chamado alojamento local, este sem quaisquer entraves durante quase
cinco anos a pretexto da falácia segundo a qual se tratava duma finalidade
‘residencial’ como qualquer outra.
Além de terem
deixado encarecer o metro quadrado em consequência da substituição das
estruturas em madeira e cal por estruturas caras de cimento e ferro e da
afectação de uma grande parte do edificado em alojamento para turistas europeus
pouco exigentes, as nossas autoridades municipais até há muito pouco tempo
também achavam que não tinham responsabilidades em matéria de habitação
acessível mas apenas em matéria de habitação social e mesmo assim praticamente
só em Lisboa e no Porto.
Foi afinal só na
campanha eleitoral de 2017 que pela primeira vez o tema da habitação acessível
irrompeu na maioria das campanhas locais e as promessas então feitas não
puderam ser cumpridas por desentendimentos com o Tribunal de Contas sobre o
modelo escolhido e porque a luta contra a pandemia absorveu recursos humanos e
materiais.
Se os edis
portugueses conhecessem melhor o perfil dos grandes municípios nos outros
países desenvolvidos, teriam presente que a disponibilização e gestão de
habitação social e acessível é desde sempre uma das suas principais funções e
que, segundo a OCDE, a percentagem de habitação intervencionada no
conjunto do edificado é por isso muito maior do que entre nós: 37,5 por cento
na Holanda, 24 na Áustria, 22 na Dinamarca, 17,5 no RU, 14 em França, 13 na
Irlanda, 10 na Finlândia, mas apenas 2,5 por cento em Portugal.
É claro que não é
fácil adquirir perícia neste domínio, que implica, além de regulação nacional
com poderes de intervenção administrativa sem contemplações em caso de
violação, diálogo local permanente com os munícipes, empresários com currículo,
projetistas independentes dos empreiteiros e fiscais que não se limitem a fazer
uma avaliação de conformidade com a lei.
No entanto, uma
vez reunidas essas condições, e respeitando integralmente o nosso edificado
histórico, fachadas e interiores, a reabilitação urbana pode dar um grande
contributo para proporcionar apartamentos de renda acessível aos portugueses
que acabaram de entrar no mundo do trabalho e querem criar família dentro da
cidade - em complemento do mercado livre de casas arrendadas cuja oferta será
sempre insuficiente mesmo quando for finalmente libertado das leis iníquas que
o distorceram, desde as centenárias às mais recentes.
3. Mas a alergia
geral à conservação integral do edificado histórico deve ser muito forte ou de
outro modo não se compreenderia porque é que nunca mais se ouviu falar da
classificação como património mundial da Baixa Pombalina, desde que os partidos
do arco de governação tomaram a decisão insensata de instalar bares,
restaurantes e discotecas no Terreiro do Paço.
Já em 1988 uma
petição para que os prédios pombalinos ardidos na Alta Pombalina fossem
integralmente reconstruídos, por fora e por dentro, e com os materiais e as
técnicas originais, não conseguira influenciar os responsáveis pela aprovação
do projeto de reconstrução.
Só se explica a
desistência da classificação de um dos maiores e mais bem preservados centros
históricos iluministas europeus pela vontade de ir ao encontro dos promotores
imobiliários apátridas que aproveitaram a destruição gerada pela crise da
dívida e a desregulamentação imposta pelos credores para dominar em poucos anos
a reabilitação urbana nas nossas principais cidades, a fim de alimentar a
procura de residências para os detentores de vistos de ouro e exilados fiscais
e para o mercado de alojamento local.
O resultado está
à vista: o que demorou dois séculos e meio a conceber, construir e manter, e
pelos vistos era afinal desprezado por quem manda no gosto e no negócio, foi
seriamente comprometido em poucas décadas.
Desalojando da
Baixa Pombalina os velhos residentes, profissionais liberais e pequenos
comerciantes para dar lugar a hospedarias e restaurantes de baixíssima
qualidade, desenhados por quem não foi visivelmente treinado para amar e
valorizar a beleza dos interiores dos prédios pombalinos, e às famosas lojas de
bugigangas, que não passam de centros de emprego fictício de imigrantes em
escala para outros destinos mais promissores.
E desalojando
todo o sector bancário português que abandonou as suas sedes históricas em
torno do banco central e do ministério das Finanças sem que uma única
autoridade tivesse pestanejado.
Bem pelo
contrário, a avaliar A) pela facilidade com que a CGD alijou a importantíssima
sede histórica do BNU, que é o banco emissor de Macau há mais de cem anos e
continua a ser sinónimo de banco para as gerações mais velhas em outros países
lusófonos, e o empenho com que está a ser esventrada para acolher mais uma
dessas coleções privadas que misteriosamente proliferaram nas últimas décadas, ou
B) pela ligeireza com que a sede de uma das bolsas de valores mais antigas da
Europa, no torreão nascente do Terreiro do Paço, em vez de ter sido apetrechada
para voltar a acolhe-la, foi convertida num centro de interpretação da pesca do
bacalhau…
Ou seja, em vez
de terem feito o que pudessem para consolidar a identidade do lugar simbólico
por excelência da nossa liberdade nacional, o famoso Terreiro do Paço, onde os
ministérios, os tribunais, a Marinha, os bancos e as grandes casas comerciais
estiveram sedeados ininterruptamente desde a Idade Media, e que por isso era a
porta de entrada obrigatória de todos os chefes de estado que nos visitavam, os
poderes públicos competentes não só cederam à pressão para entregar espaço nas
sedes dos ministérios para a instalação de restaurantes, e de um hotel no caso
da sede histórica do ministério da Administração Interna, como criaram
condições para a liberalização da transformação da Baixa Pombalina toda, antes
que alguém se lembrasse do projeto de propor à UNESCO a respetiva elevação a
património mundial, como era e é a ambição dos lisboetas.
Há no entanto
muito património pombalino privado e público cujos ricos interiores não foram
ainda destruídos e podem voltar a servir para habitação sem terem que ser
descaracterizados com intervenções agressivas como a substituição de portas e
janelas e a remoção de soalhos em madeiras exóticas bem conservadas, a
demolição de paredes ou o rebaixamento de tetos.
E muito
património público que conserva os seus usos originais e pode assim ancorar o
resgate da identidade da Baixa Pombalina: paço municipal, banco central, sedes
históricas do ministérios da Agricultura, da Justiça e das Finanças, dos
tribunais Supremo e da Relação de Lisboa, dos estados-maiores da Marinha e, em
Santa Apolónia, do Exército.
4. Esperemos pois
que os debates da campanha para as próximas eleições autárquicas contribuam
para o aumento da consciência da necessidade de arrepiar o caminho que tem sido
seguido até aqui e, aproveitando a próxima vaga de construção de habitação
social e acessível ao abrigo do PRR, de resgatar com essa finalidade alguns dos
prédios erradamente desviados para a hotelaria de baixa qualidade e, sobretudo,
de valorizar o muito que resta incólume do edificado dos séculos XVIII, XIX e XX,
mantendo intactas as preciosas fachadas e os ricos miolos dos prédios e, no que
respeita ao Terreiro do Paço e à restante Baixa Pombalina, consolidando a sua
identidade original e corrigindo os erros lamentáveis que se fizeram por forma
a que possa ainda vir a ser classificada como património mundial pela
UNESCO.
Para esse efeito,
as autoridades municipais deviam recuperar a capacidade que historicamente
sempre tiveram de, em diálogo permanente com a parte mais fraca, ou seja com os
residentes, e se necessário recorrendo ao referendo local, regulamentar o tipo
de actividade que pode ter lugar em cada zona, a fim de poderem libertar os
bairros residenciais históricos da proliferação do alojamento local e de
poderem pôr cobro à extinção alucinante das lojas tradicionais e sua
substituição por comedouros, bares e discotecas para turismo de massas.

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