Saudade Perpétua
Carta aberta ao Presidente da Câmara Municipal do Porto,
Dr. Rui Moreira;
https://www.facebook.com/saudadeperpetua/posts/4070479239746113
O Grupo Saudade Perpétua
(https://saudadeperpetua.weebly.com) foi fundado em 2011 para promover a
partilha de conhecimento sobre tudo o que diga respeito à dimensão histórica,
artística e cultural do Romantismo em Portugal. Composto maioritariamente por especialistas
neste tema, o Grupo tem promovido encontros informais e científicos, além de
publicações. Por conseguinte, não poderíamos ficar sem reacção perante o
ocorrido no Museu Romântico, e que consideramos grave.
O Museu Romântico da Quinta da Macieirinha, no Porto, que
nos habituámos a visitar, como espaço de recriação de ambientes oitocentistas,
literalmente desapareceu como tal. Actualmente, apresenta um conjunto de obras
contemporâneas, constituindo a designada "Extensão do Romantismo" coordenada
pelo "director artístico" dos museus da cidade do Porto, Nuno Faria.
Surpreende este novo projecto, demolidor de um outro
apresentado pela Câmara Municipal do Porto apenas três anos antes. No palacete
da Quinta da Macieirinha, com uma magnífica vista sobre o Douro, antiga casa de
campo da família Ferreira Pinto Basto (negociantes e industriais portuenses),
reconstituíam-se espaços deste período e um episódio singular e dos mais
marcantes na história da cidade, dado que foi morada de exílio do rei da
Sardenha-Piemonte, Carlos Alberto de Sabóia-Carignano, em 1849, após a derrota
na batalha de Novara contra o Império Austríaco.
Na verdade, quem hoje visita o palacete apercebe-se da
destruição do projecto (re)apresentado em 2018, pois desapareceram as portadas
de madeira interiores das janelas e a pintura de “fingido” das paredes das
escadas, técnica normalmente utilizada no século XIX. Estas preciosas
intervenções na “escaiola” – acabamento dado a paredes, revestidas de estuque
que imitavam o mármore polido – deram lugar a uma pintura monocromática que
tudo uniformizou, de modo aparentemente irreversível. Retiradas portadas e
cortinados, ainda se mantêm as obras de Jean-Baptiste Pillement (1728-1808),
pintor e decorador francês, com uma pintura de delicadas representações da
natureza e que muito influenciaram os artistas portugueses do século XIX.
Em 1972 a Câmara Municipal do Porto decidiu aqui instalar
o Museu Romântico, recriando os espaços de uma casa de Oitocentos, ligada ao
gosto das burguesias nortenhas, quer através de peças e mobiliário original,
quer através de algumas réplicas, em espaços que se baseavam nos desenhos,
aguarelas e documentos da época referentes a estes espaços intimistas.
Em 2018, com verbas comunitárias, alterou-se o percurso
do Museu, apresentaram-se textos sobre a história da casa e recuperaram-se
muitas obras, como o processo técnico de escaiola, na escadaria, com
intervenções de conservadores-restauradores. Ora, a presente “reconfiguração”
altera a ideia inicial deste projecto. Sendo um Museu recuperado com dinheiros
comunitários, com verbas de meio milhão de euros, questiona-se o radicalismo da
actual intervenção, e até a aceitação ou possibilidade legal desta opção, longe
da proposta de 2018 e que o Presidente da Câmara tanto valorizou na sua
inauguração.
A partir de 2018, o Museu Romântico da Quinta da
Macieirinha tornou-se o museu municipal mais visitado, justificando, assim, o
esforço e as avultadas verbas comunitárias. Paradoxalmente, o "director
artístico" pretende agora revelar o espaço como “produto cultural”,
inscrevendo-o num conjunto de "produtos culturais" que se
apresentarão intervencionados. Alude aos Museus municipais, como a Casa Marta
Ortigão Sampaio, onde se exibirão obras de gosto romântico. Estas peças estavam
expostas no Museu Romântico da Quinta da Macieirinha e foram recentemente
deslocadas para as reservas daquele Museu. Acrescenta ainda o "director
artístico" que as obras se poderão observar nas várias extensões do Museu
da Cidade. Assim, dispersa-se um espólio e uma colecção, certamente registada e
inventariada. Mais grave ainda é o facto de esta dispersão incluir peças doadas
e/ou depositadas propositadamente para a constituição do Museu Romântico, que
agora deixou de existir como tal.
O espaço deste Museu transformou-se em “espaço
performativo”, por o "director artístico" estar convencido que “não
era possível prolongar mais a visão que ali se perpetuava e teve o seu tempo de
existência”. Assim, supõe-se que haverá um fundamento legal para esta alteração
radical de um projecto tão recente, que teve a concordância do Presidente da
Câmara do Porto. O director artístico argumenta com um “distanciamento social
(…) uma inacessibilidade aos visitantes” devido à existência de baias, mas isso
sucede em muitos museus nacionais e internacionais, com o objectivo de
salvaguardar as peças.
Este novo projecto pretende que o espaço seja um “lugar
de encontro, de discussão e de construção da comunidade”, considerando o
herbário de Júlio Dinis peça fundamentalmente romântica e representativa da sua
“matriz”. Porém, questionamos esta radicalização que, desde logo, elimina o
diálogo – interessante e propício à reflexão – entre peças de épocas
diferentes; questionamos a afirmação de espaço redutor da casa, sem ligação com
o público, quando sabemos que o Museu Romântico da Quinta da Macieirinha tinha
um elevado número de visitantes. Realizavam-se inúmeras actividades escolares.
Estranha-se também que alguns técnicos tenham preferido pedir transferência
para outros museus.
Na verdade, torna-se chocante e até revoltante que não se
tenha estabelecido um diálogo temporal, entre ambientes românticos; uma sedução
por espaços – que até poderiam ser regularmente remodelados, mas que também
poderiam traduzir escolhas e gostos de uma época, em confronto com a
espacialidade das obras contemporâneas; a visibilidade de referentes que
poderiam combinar, ajustar-se ou confrontar com os romantismos…
Lamentavelmente, optou-se por uma mera exposição de arte contemporânea,
remetendo para um discurso contemporâneo sem debate nem diálogo com eixos
oitocentistas, hoje quase desaparecidos devido a um ostensivo propósito em os
eliminar. O palacete da Quinta da Macieirinha agora apenas pontualmente
apresenta referentes românticos, como se de um exotismo se tratasse,
sobrepondo-se-lhe um espectáculo contemporâneo somente com ligeiras
reminiscências oitocentistas.
O Museu Romântico da Quinta da Macieirinha era um espaço
museológico que fazia todo o sentido, no contexto da cidade e do país. A sua
reformulação criou um vazio e empobreceu o Porto.
Por tudo isto, dentro do que seja ainda possível,
apelamos à reversão do erro cometido, e à não dispersão do espólio, de modo a
que o Porto volte a ter um verdadeiro Museu Romântico - visto tratar-se da
época áurea da cidade, e aquela em que, provavelmente, o Porto mais se destacou
nacional e internacionalmente.
3 de Setembro de 2021,
Pelo Grupo Saudade Perpétua:
Alexandra de Carvalho Antunes; Investigadora
Álvaro de Sousa Holstein; Escritor / Investigador
independente
Ana Anjos Mântua; Conservadora do MNSR, Coordenadora da
Casa-Museu Fernando de Castro
André Godinho Varela Remígio; Conservador-restaurador
António Santos da Cunha; Antiquário / Decorador
António Teixeira Lopes Cruz; Sócio gerente da Quinta
"Villa Rachel" Lda. (vitivinicultura e turismo), Licenciado em
Economia (UP)
Arlete Monteiro; Investigadora independente
Carlos Caetano; Investigador em História e História da
Arte e da Cultura Portuguesas, CEPESE / CHAM
Cláudia Emanuel; Investigadora doutorada em Estudos do
Património
Cláudia Thomé Witte; Investigadora independente, membro
do Instituto Histórico de Petrópolis
Cristina Moscatel; Historiadora, Investigadora do CHAM -
Universidade dos Açores
Cristina Neiva Correia; Técnica superior do Palácio
Nacional da Ajuda
Cristina Ramos Horta; Ex-Directora do Museu da Cerâmica
das Caldas da Rainha
Duarte Nuno Morgado; Sacerdote
Fabíola Franco Pires; Arquitecta e investigadora do
CITCEM
Fernando Manuel Cerqueira Barros; Arquitecto;
investigador na área do Património Arquitectónico
Fernando Pinto Coelho; Arquitecto / Artista plástico
Francisco Queiroz ; Historiador de arte (CEPESE /
ARTIS-IHA, FLUL)
Inês Thomas Almeida; Musicóloga
Isabel Marília Viana Peres; Docente
Ivo Rafael Silva; Investigador do Centro de Estudos
Interculturais do ISCAP
Jorge Ricardo Ferreira Pinto; Geógrafo, docente do ISCET,
investigador do CEGOT
José Daniel Soares Ferreira; Técnico de Museologia e
Património
José Eduardo Reis; Bancário / Fotógrafo
José Huet; Profissional de seguros
José Pedro de Galhano Tenreiro; Investigador em História
da Arquitectura
Lourenço Correia de Matos; Investigador, Académico
correspondente da Academia Portuguesa da História
Margarida Araújo; Investigadora independente / Fotógrafa
Maria de Aires Silveira; Técnica superior, MNAC
Maria Gabriela Oliveira; Historiadora / Investigadora
Maria João Botelho Moniz Burnay; Conservadora / Palácio
Nacional da Ajuda
Mário Adrião Almeida de Morais Marques; Engenheiro Civil
Mário Correia Moniz ; Arquitecto
Mário Manuel Marques; Cantor lírico e de concerto
Marta Páscoa; Arquivista
Miguel Ayres de Campos-Tovar; Investigador doutorado em
História da Arte (Courtauld Institute of Art)
Nuno Miguel de Amorim; Designer de interiores
Paulo Duarte de Almeida; Professor
Paulo Ribeiro Baptista; Investigador
Pedro Pascoal de Melo; Investigador
Pedro Urbano; Investigador do IHC/UNL
Rafaela Ferreira; Investigadora independente, criadora de
conteúdos digitais
Ramiro Gonçalves; Técnico superior (DGPC/MNAA)
Ricardo Charters d'Azevedo; Engenheiro electrotécnico
Rita van Zeller; Gerente comercial / Jurista
Ruth da Gama; Docente
Sérgio Figueira; Historiador / Investigador do CITCEM,
escritor
Sílvia Ferreira ; Historiadora de arte
Vítor Aguiar Branco Sampaio; Investigador do CITCEM
(Grupo de Populações e Saúde)

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