terça-feira, 7 de setembro de 2021

A importância de um político dizer “sou homossexual”

 



OPINIÃO

A importância de um político dizer “sou homossexual”

 

A orientação sexual é de tal forma estruturante na vida de cada indivíduo, que o seu conhecimento deveria ser tão banal quanto saber quais as suas origens familiares, a sua religião ou o clube de futebol.

 

João Miguel Tavares

7 de Setembro de 2021, 0:05

https://www.publico.pt/2021/09/07/opiniao/opiniao/importancia-politico-dizer-homossexual-1976464

 

Há muita gente, convencida de ser progressista, que acha que quando um político decide assumir publicamente a sua homossexualidade está apenas a falar de um tema que não diz respeito a ninguém, a não ser ao próprio. A tese é: trata-se de um não-assunto, na medida em que a orientação sexual de alguém é irrelevante para o desempenho das suas funções. O argumento parece sólido à primeira vista, mas eu discordo dele, e vale a pena explicar porquê, celebrando desta forma a decisão de Paulo Rangel falar publicamente sobre a sua homossexualidade no programa Alta Definição.

 

Manuel Luís Goucha desempenhou um papel pioneiro ao expor publicamente a sua relação em 2008, numa capa da revista Lux onde ainda assim a palavra proibida era omitida

João Miguel Tavares

 

Há duas razões fundamentais para a minha discordância. A primeira razão tem a ver com o exemplo, e essa é essencialmente conjuntural — está relacionada com o tempo que vivemos. Esta quarta-feira faço 48 anos (podem dar-me os parabéns) e a mudança de comportamentos e mentalidades em relação à homossexualidade ao longo da minha vida é nada menos que incrível. Não me refiro só à minha geração, já bastante arejada nessa matéria, mas à geração dos meus pais e avós, em que a diminuição do preconceito é hoje visível de uma forma que me pareceria impensável há apenas 20 anos. Para isso, foi essencial o esforço de muitos activistas sobretudo ao longo das décadas de 1990 e 2000, mas também (e é impressionante como isto aconteceu há tão pouco tempo) de figuras públicas, nomeadamente na televisão, que assumiram a sua homossexualidade.

 

Manuel Luís Goucha desempenhou um papel pioneiro ao expor publicamente a sua relação em 2008, numa capa da revista Lux onde ainda assim a palavra proibida era omitida. Antetítulo: “Manuel Luís Goucha fala da sua cumplicidade com Rui Oliveira”. Título: “É a pessoa de quem mais gosto”. Pode parecer ridículo utilizar a palavra “coragem” para dar uma entrevista destas a uma revista cor-de-rosa, mas acho que coragem é mesmo a palavra certa, porque o público televisivo de Goucha não era composto por jovens urbanos sofisticados, mas por gente mais velha, mais pobre e mais tradicionalista, que poderia reagir com preconceito e mudar de canal. Não foi o que aconteceu. Goucha continua a ser uma das mais populares figuras da televisão portuguesa e depois dele muitos outros assumiram a sua homossexualidade, ajudando desta forma a banalizar o tema, o que é absolutamente essencial para a sua normalização e para facilitar a vida a tantos miúdos para quem a sua sexualidade ainda é um problema.

 

A segunda razão que quero referir é mais profunda, e tem a ver com aquilo que numa democracia liberal é legítimo conhecer sobre a personalidade de um político. Embora eu seja contra qualquer coming out forçado, sempre me fez confusão que a orientação sexual de uma figura pública — sobretudo quando se trata de um político de primeira linha — fosse tão facilmente classificada como “vida privada”, na medida em que essa ideia me parece ter na sua origem mais vestígios de preconceito do que de defesa da privacidade propriamente dita.

 

Um político é obrigado a dar-se a conhecer. A orientação sexual é de tal forma estruturante na vida de cada indivíduo, que o seu conhecimento deveria ser tão banal quanto saber quais as suas origens familiares, a sua religião ou o clube de futebol. A manutenção dessa alegada “privacidade” exige a cumplicidade e o silêncio por parte de quem sobre ele escreve ou faz perguntas. Toda a gente do meio sabe, mas ninguém pode falar. Isso não é saudável. Paulo Rangel tomou a decisão certa — e todos ganhamos com isso.

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