OPINIÃO
A importância de um político dizer “sou homossexual”
A orientação sexual é de tal forma estruturante na vida
de cada indivíduo, que o seu conhecimento deveria ser tão banal quanto saber
quais as suas origens familiares, a sua religião ou o clube de futebol.
João Miguel
Tavares
7 de Setembro de
2021, 0:05
https://www.publico.pt/2021/09/07/opiniao/opiniao/importancia-politico-dizer-homossexual-1976464
Há muita gente,
convencida de ser progressista, que acha que quando um político decide assumir
publicamente a sua homossexualidade está apenas a falar de um tema que não diz
respeito a ninguém, a não ser ao próprio. A tese é: trata-se de um não-assunto,
na medida em que a orientação sexual de alguém é irrelevante para o desempenho
das suas funções. O argumento parece sólido à primeira vista, mas eu discordo
dele, e vale a pena explicar porquê, celebrando desta forma a decisão de Paulo
Rangel falar publicamente sobre a sua homossexualidade no programa Alta
Definição.
Manuel Luís
Goucha desempenhou um papel pioneiro ao expor publicamente a sua relação em
2008, numa capa da revista Lux onde ainda assim a palavra proibida era omitida
João Miguel
Tavares
Há duas razões
fundamentais para a minha discordância. A primeira razão tem a ver com
o exemplo, e essa é essencialmente conjuntural — está relacionada com o
tempo que vivemos. Esta quarta-feira faço 48 anos (podem dar-me os parabéns) e
a mudança de comportamentos e mentalidades em relação à homossexualidade ao
longo da minha vida é nada menos que incrível. Não me refiro só à minha
geração, já bastante arejada nessa matéria, mas à geração dos meus pais e avós,
em que a diminuição do preconceito é hoje visível de uma forma que me pareceria
impensável há apenas 20 anos. Para isso, foi essencial o esforço de muitos
activistas sobretudo ao longo das décadas de 1990 e 2000, mas também (e é
impressionante como isto aconteceu há tão pouco tempo) de figuras públicas,
nomeadamente na televisão, que assumiram a sua homossexualidade.
Manuel Luís
Goucha desempenhou um papel pioneiro ao expor publicamente a sua relação em
2008, numa capa da revista Lux onde ainda assim a palavra proibida era omitida.
Antetítulo: “Manuel Luís Goucha fala da sua cumplicidade com Rui Oliveira”.
Título: “É a pessoa de quem mais gosto”. Pode parecer ridículo utilizar a
palavra “coragem” para dar uma entrevista destas a uma revista cor-de-rosa, mas
acho que coragem é mesmo a palavra certa, porque o público televisivo de Goucha
não era composto por jovens urbanos sofisticados, mas por gente mais velha,
mais pobre e mais tradicionalista, que poderia reagir com preconceito e mudar
de canal. Não foi o que aconteceu. Goucha continua a ser uma das mais populares
figuras da televisão portuguesa e depois dele muitos outros assumiram a sua
homossexualidade, ajudando desta forma a banalizar o tema, o que é
absolutamente essencial para a sua normalização e para facilitar a vida a
tantos miúdos para quem a sua sexualidade ainda é um problema.
A segunda razão
que quero referir é mais profunda, e tem a ver com aquilo que
numa democracia liberal é legítimo conhecer sobre a personalidade de um
político. Embora eu seja contra qualquer coming out forçado, sempre me fez
confusão que a orientação sexual de uma figura pública — sobretudo quando se
trata de um político de primeira linha — fosse tão facilmente classificada como
“vida privada”, na medida em que essa ideia me parece ter na sua origem mais
vestígios de preconceito do que de defesa da privacidade propriamente dita.
Um político é
obrigado a dar-se a conhecer. A orientação sexual é de tal forma estruturante
na vida de cada indivíduo, que o seu conhecimento deveria ser tão banal quanto
saber quais as suas origens familiares, a sua religião ou o clube de futebol. A
manutenção dessa alegada “privacidade” exige a cumplicidade e o silêncio por
parte de quem sobre ele escreve ou faz perguntas. Toda a gente do meio sabe,
mas ninguém pode falar. Isso não é saudável. Paulo Rangel tomou a decisão certa
— e todos ganhamos com isso.


Sem comentários:
Enviar um comentário