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Otelo: herói de Abril ou vilão extremista?
A morte de Otelo Saraiva de Carvalho deveria ser uma
oportunidade para repensar o papel de uma figura cinzenta da história do país:
aqui ainda não faço juízos de valor sobre o papel que desempenhou na história,
mas antes refiro que está longe de ser uma personagem consensual – devendo ser
analisada como tal.
João Pires
Estudante de
Economia na Universidade NOVA de Lisboa - NOVA SBE. Filiado na Juventude
Popular desde 2018.
26 de Julho de
2021, 16:10
https://www.publico.pt/2021/07/26/p3/cronica/otelo-heroi-abril-vilao-extremista-1971858
A morte de Otelo
Saraiva de Carvalho desencadeou as mais variadas reacções por parte dos seus
apoiantes e detractores. Entre aqueles que defendem o seu papel na Revolução
dos Cravos em Abril de 1974 até aos que apontam a acção terrorista das FP-25 e
o seu papel de relevo neste grupo, poucos são os que apresentam uma posição
que, realçando o seu papel em Abril, não deixa de apontar a sua vertente mais
violenta como presumível líder das Forças Populares 25 de Abril.
A morte de Otelo
Saraiva de Carvalho deveria ser uma oportunidade para repensar o papel de uma
figura cinzenta da história do país: aqui ainda não faço juízos de valor sobre
o papel que desempenhou na história, mas antes refiro que está longe de ser uma
personagem consensual – devendo ser analisada como tal. É inegável o importante
papel de Otelo no âmbito da Revolução de Abril, como principal estratega e
ideólogo de uma Revolução que deveria ser apreciada por todos,
independentemente dos excessos que se sucederam, como um passo importante para
a democratização de um regime datado, autoritário e danoso para um grande
conjunto da população durante mais de quatro décadas.
E é inegável
também o papel de Otelo como figura de relevo nas FP-25 e na actividade terrorista
e violenta do grupo durante a década de 1980 – confirmada, sucessivas vezes,
pelo poder judicial. Para a nossa cultura democrática e para a capacidade de
ver a História sem lentes que nos turvem a visão, é importante que se atribua a
Otelo tudo aquilo pelo que é responsável – para que não se glorifique alguém
que tem um papel mais profundo, e não necessariamente mais positivo, do que
aquilo que pode ser visto em Abril e, talvez, com uma visão sobre a democracia
que não era tão linear e objectiva.
Podem afirmar que
este não é o momento certo para fazer tal análise e tal julgamento – compreendo
que sim – mas penso que parte da nossa cultura democrática passa também por
reconhecer o papel extremamente importante dos capitães de Abril e de todos
aqueles que lutaram pela liberdade, mas sem aceitá-los de forma acrítica e que
não reconheça o papel nefasto e impactante para a democracia numa época em que
esta estava já estabilizada e instituída. Penso que Otelo será contado na
História como deveria ser contado agora – como uma personagem importante para o
25 de Abril mas com uma presença nefasta nos anos seguintes.
À população
portuguesa, não se pede, naturalmente, que tenha a mesma opinião que eu – mas
que reflicta sobre o tema e que passe dos argumentos clássicos a argumentos
mais profundos e densos sobre o tema. Pede-se um debate mais elevado e,
sobretudo, uma maior reflexão sobre o papel que Otelo (e outros) desempenharam
para a História do país. Pede-se uma ausência de uma glorificação cega e
acrítica e uma ausência de uma demonização, que compreenda a vicissitude dos
eventos e os impactos, positivos e negativos, das suas acções. Principalmente,
que se defenda o 25 de Abril pelo seu propósito primeiro, mas que se respeitem
as vítimas das FP-25. Ainda que a proximidade temporal dificulte o julgamento
histórico, creio que teremos uma perspectiva isenta do papel de Otelo na
história do país. Não hoje. Mas um dia.

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