OPINIÃO
Otelo e o princípio de Peter
Muitos disseram que Otelo Saraiva de Carvalho foi uma
personagem complexa, contraditória, instável. Todos somos, quando não temos a
menor ideia do que estamos a fazer.
João Miguel
Tavares
27 de Julho de
2021, 0:00
Eram todos muito
jovens. Às vezes esquecemo-nos disso. Salgueiro Maia tinha 29 anos. Vasco
Lourenço tinha 31. Otelo era um pouco mais velho, tinha 37. Jaime Neves tinha
38. Ernesto Melo Antunes, que tantas vezes apareceu como a voz da experiência e
da razão dentro do MFA, tinha 40 anos. Ramalho Eanes, 39.
As melhores
tropas estavam em África. Os soldados revoltosos tinham pouco mais do que a
instrução militar. O 25 de Abril de 1974 foi feito por miúdos, e por jovens
oficiais que tinham passado várias vezes pela guerra, mas nunca por uma
revolução. Não sabiam como se fazia. Ou melhor: sabiam como se derrubava uma
ditadura, e derrubaram-na com grande coragem, brilhantismo e contenção – Abril
foi, nessa medida, um empreendimento impressionante e digno da nossa maior
gratidão –, mas não faziam a menor ideia de como se erguia uma democracia. O
talento para destruir nada tem a ver com o talento para construir. É a
diferença entre uma marreta e um estirador, e Otelo nunca teve talento para a
arquitectura.
Muitos disseram
que Otelo Saraiva de Carvalho foi uma personagem complexa, contraditória,
instável. Todos somos, quando não temos a menor ideia do que estamos a fazer. O
princípio de Peter explica isso: numa estrutura hierárquica, todos os
funcionários tendem a subir até ao seu nível de incompetência, e a competência
de Otelo terminou no dia 25 de Abril. A 26 de Abril, ele já era incompetente
para a sua função. Infelizmente, demorou demasiado tempo a percebê-lo, e desse
equívoco nasceu muito sofrimento e muitas mortes.
Otelo cometeu demasiados erros na época do COPCON, e
errou de forma catastrófica na época das FP-25. Podia ter sido apenas um herói,
mas os deuses amaldiçoaram-no com a pior das cegueiras: a inconsciência das
suas próprias limitações
Vasco Lourenço
escreveu um texto bonito sobre o seu amigo no PÚBLICO, onde disse: “Hoje, não
teremos o Portugal com que cada um de nós sonhou, mas temos o Portugal que os
portugueses têm sido capazes de construir. Em Liberdade e em Democracia.” Está
muito bem dito. Por um lado, ninguém podia impedir os capitães de Abril de
sonhar, muito menos em 1974 e 1975. Por outro, era inevitável que os sonhos de
uns se tornassem nos pesadelos de outros, porque todas as grandes utopias estão
pejadas de cadáveres. Salgueiro Maia, mais por temperamento do que por
experiência, sabia-o bem, regressou a casa, e é hoje a única e verdadeira face
apolínea de Abril: o capitão que após fazer o seu trabalho voltou para o
quartel, onde morreu modestamente, ainda novo, consciente dos perigos das
aventuras políticas extremadas e das tentações de engenharia social.
Vasco Pulido
Valente disse o essencial sobre Otelo em 1979, e só precisou de quatro
palavras: “Viva Otelo! Na reserva.” Sempre muito cheio de si e convencido das
suas qualidades, Otelo não seguiu o conselho. A probabilidade de ele ter alguma
competência para liderar o país seria semelhante à de Mário Soares ser um
mestre a conduzir colunas de chaimites. A megalomania de Otelo impediu-o de
perceber isso.
Em pleno Verão de
1975 – era ele, então, o “general Otelo Saraiva de Carvalho” –, andou entretido
a fazer viagens de Estado e de estudo pela Suécia e por Cuba. Estranhamente,
preferiu o modelo cubano para Portugal, e à chegada a Lisboa declarou: “Parece
que se vai tornando impossível fazer uma revolução socialista na totalidade
pela via pacífica.” Foi o tempo em que ameaçou colocar “os
contra-revolucionários no Campo Pequeno”. Otelo cometeu demasiados erros na
época do COPCON, e errou de forma catastrófica na época das FP-25. Podia ter
sido apenas um herói, mas os deuses amaldiçoaram-no com a pior das cegueiras: a
inconsciência das suas próprias limitações.


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