domingo, 25 de julho de 2021

O sentido de comunidade que nos falta

 



OPINIÃO

O sentido de comunidade que nos falta

 

Há 100 anos que o mundo não vivia uma pandemia com a dimensão e a gravidade da que estamos hoje a viver. Isso deveria explicar as hesitações dos governos democráticos

 

Teresa de Sousa

25 de Julho de 2021, 0:30

https://www.publico.pt/2021/07/25/mundo/opiniao/sentido-comunidade-falta-1971676

 

1. Segundo os relatos da imprensa internacional só dos últimos dias, muitas regiões da Austrália voltaram a confinar; os Países Baixos voltaram a impor restrições nos cafés, bares e na vida nocturna; a incidência das infecções quase duplicou em Espanha; em França e na Itália, Emmanuel Macron e Mario Draghi adoptaram medidas de obrigatoriedade do Passe Digital Covid para ter acesso a inúmeros locais de diversão e de cultura, como forma de levar as pessoas a vacinarem-se. A variante Delta, que hoje é maioritária em todos os países europeus, é a responsável por todas estas decisões dos governos, obrigados a recuar nas medidas de desconfinamento.

 

No Reino Unido, o “Dia da Libertação” foi há quase uma semana e a vida regressou praticamente ao normal, com a vantagem de nos mostrar que esse normal ainda não é bem normal. Mantém-se ou não se mantém o isolamento profiláctico de quem teve contacto com uma pessoa infectada? As prateleiras dos supermercados estão a esvaziar-se porque, com a subida em flecha dos novos casos, não há gente para repor as mercadorias, porque esteve em contacto com alguém com covid-19. Mais adiantada na vacinação, a Inglaterra funciona hoje para os outros países europeus como uma espécie de laboratório cujos resultados seguimos com atenção para tentar evitar alguns erros. Mas, como quase tudo nesta pandemia, as lições não são fáceis nem óbvias.

 

A grande questão que se coloca é se o Reino Unido abriu demasiado depressa. Por cá, multiplicam-se as vozes a elogiar a coragem de Boris Johnson quando decidiu abrir o seu país. Vamos ter de esperar para ver o resultado dessa coragem.

 

2. Nos Estados Unidos, começa a haver dois tipos de estados – os azuis, democratas, onde quase toda a gente está vacinada, e os vermelhos, republicanos, onde a vacinação foi travada pelos negacionistas pró-Trump e as suas campanhas pela “liberdade de escolha”. O objectivo de Biden, que queria fazer do 4 de Julho o “dia da libertação” da pandemia, falhou não por falta de vacinas, não por falta de capacidade logística, mas apenas por razões de ideologia. Há, agora, os primeiros sinais de que alguns estados republicanos vão mudar de discurso, porque “descobriram” que a vacina é boa para a economia e para os empresários, que querem os seus trabalhadores vacinados. 

 

Os japoneses, na sua maioria, não queriam a realização dos Jogos em Tóquio, porque temiam o aumento dos contágios. O Comité Olímpico e o Governo japonês optaram por mantê-los, porventura porque eram demasiado grandes os interesses económicos em causa, mas também porque hoje tudo pode ser virtual, incluindo as Olimpíadas. Quem tinha razão? É difícil dizer.

 

Em Tóquio, no meio de uma enorme polémica, pudemos todos assistir na sexta-feira à mais estranha cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de que temos memória. Bancadas vazias, delegações nacionais reduzidas ao mínimo, uma arena onde nenhuma delas quis ficar mais tempo do que o estritamente necessário. Podemos chamar-lhes Jogos virtuais ou os Jogos das máscaras, tanto faz. Os japoneses, na sua maioria, não queriam a realização dos Jogos em Tóquio, porque temiam o aumento dos contágios. O Comité Olímpico e o Governo japonês optaram por mantê-los, porventura porque eram demasiado grandes os interesses económicos em causa, mas também porque hoje tudo pode ser virtual, incluindo as Olimpíadas.

 

Quem tinha razão? É difícil dizer. Afinal, os Jogos também podem ser um momento de comunhão entre todos os países do mundo, quando essa comunhão é absolutamente necessária para vencer a pandemia, que não poupou nenhum país, pobre ou rico, do Norte ou do Sul, do Oriente ou do Ocidente. Quase 200 milhões de pessoas infectadas. Quase 5 milhões de vítimas mortais.

 

Numa palavra, há 100 anos que o mundo não vivia uma pandemia com a dimensão e a gravidade da que estamos hoje a viver. Isso deveria explicar as hesitações dos governos democráticos, os erros que vão cometendo e corrigindo, a moderação dos principais actores políticos e sociais, a serenidade do debate. Nem sempre é assim.

 

O Governo deveria ter explicado melhor as medidas que foi tomando nesta fase mais “ambígua” da pandemia. Mas também não custa muito um esforço para tentar compreendê-las. É afinal o que se espera de cidadãos livres e informados

 

3. Em Portugal, a última semana foi pródiga em declarações e manifestações de denúncia vigorosa da chamada “ditadura sanitária”. A imagem das t-shirts de algumas dezenas de manifestantes que, em Lisboa e no Porto, quiseram protestar contra as regras de confinamento, tornou-se viral. Tinha um erro ortográfico. “Não há ditadura sanitária” em vez de “Não à ditadura sanitária”. (Quem nunca se enganou que atire a primeira pedra). Acabou por servir de metáfora para as escolhas difíceis com que todos, incluindo o Governo, nos defrontamos.

 

O problema é que muita gente que sabe onde colocar o “h” se lançou igualmente numa campanha furiosa contra a “ditadura sanitária”, ao ponto de cair no ridículo de fazer comparações com a ditadura (a verdadeira, de antes do 25 de Abril), e de acusar a PSP, que interrompe jantares que se prolongam para lá das 22h30, de usar dos mesmos modos dos esbirros do antigo regime.

 

Quase toda a gente se sentiu em condições de tecer sábias considerações sobre a decisão do Governo de obrigar à prova de vacinação completa ou testagem para entrar num restaurante durante os fins-de-semana. E porque não nos dias de semana? O vírus respeita os dias úteis? Ouvimos de tudo. A ninguém terá ocorrido que, talvez, a medida do Governo fosse uma medida de dissuasão, para não ter de voltar a fechar os restaurantes? Ou que, nos dias úteis, é bastante mais improvável que nos reunamos com os amigos ou com a família à mesa de um restaurante? O Governo deveria ter explicado melhor as medidas que foi tomando nesta fase mais “ambígua” da pandemia, quando se vê a luz da vacinação ao fundo do túnel, mas ainda não se sabe exactamente o seu cumprimento. Mas também não custa muito um esforço para tentar compreendê-las. É afinal o que se espera de cidadãos livres e informados, como aqueles que reclamam o fim da “ditadura sanitária”. Em França, foram medidas parecidas que levaram a que muita gente corresse para os centros de vacinação, quando o Governo se deparou com a falta de vontade de muita gente, no país europeu que mais desconfia das vacinas.

 

Questionar as decisões do Governo é absolutamente legítimo e útil para as suas eventuais correcções. Transformar esse questionamento em actos de rebeldia contra uma “ditadura” é ridículo, para não dizer perigoso. Mas vê-se por todo o lado. No Facebook ou no Twitter ou mesmo na mais selecta imprensa escrita, para não falar das televisões.

 

Dizia alguém, acabado de chegar de Copenhaga, que nunca viu a mesma proliferação de especialistas a dar a sua opinião sobre a pandemia nos noticiários das televisões dinamarquesas, o que o deixou muito admirado. Na generalidade dos países europeus, os telejornais são de meia hora, criteriosamente aproveitada para dar as notícias mais relevantes. Não são um misto de informação e entretenimento, como acontece por cá, que é preciso preencher de qualquer maneira e durante uma hora e meia.

 

4. Uma nota final. A pandemia não é só um problema de meios de combate à propagação do vírus ou de equilíbrio entre liberdade individual e interesse colectivo ou entre saúde e economia. É, antes de tudo, o luto e a dor de cada um de nós por aqueles que nos morreram, vítimas da covid-19, dos que ficaram com sequelas e que lutam por readaptar-se ao trabalho e à vida, ou o medo que nos aflige constantemente de que os nossos filhos, pais, avós, netos, amigos possam ainda vir a sofrer da doença. É neste luto que podemos, talvez, reencontrar-nos no que nos une a todos, como comunidade. Não podemos esquecer o dever da memória. Nem o dever da esperança.

 

Um grupo de cidadãos portugueses tomou a iniciativa de convocar para o Outono de 2021 as “Jornadas de memória, luto e afirmação da esperança”, numa iniciativa cujo propósito é não deixar esquecer a experiência traumática que o último ano representou para centenas de milhares de famílias neste país. E que ainda representa, quando continuam a morrer todos os dias pessoas que fazem parte das nossas vidas e das vidas dos outros. Dela falarei na minha próxima coluna.

Sem comentários: