“Betinhos” da Linha do Estoril vandalizam Vila Nova de
Milfontes
Cerca de 400 adolescentes escolheram a vila costeira
alentejana para passar umas semanas de férias alimentados à força de pão,
álcool e conservas. Deixam um rasto de violência e lixo.
Carlos Dias
22 de Julho de
2021, 15:01
Há quase duas
décadas que a situação se repete na segunda quinzena de Julho. Centenas de
jovens, com idades entre os 12 e os 16 anos, que os moradores descrevem como
“betos”, chegam a Vila Nova de Milfontes para uma espécie de ritual de
iniciação. Concentram-se em grupos com centenas de elementos e, madrugada
dentro, percorrem as ruas de Milfontes grafitando paredes, portas, janelas, o
passadiço instalado na vila e viaturas com imagens de índole sexual. Partem
vidros das portas e janelas, danificam zonas verdes e recorrem as pichagens que
ofendem a comunidade.
“São quase todos
da linha de Cascais, grande parte menores de idade, e vêm todos os anos para
Milfontes onde, sem qualquer consequência, consomem droga adquirida no local e
quantidades exorbitantes de álcool”, descreveu ao PÚBLICO Sandra Paiva,
residente na localidade.
Carmen Luz
explicou ao PÚBLICO que tem uma empresa de imobiliário e durante a terceira
semana de Julho bloqueiam o calendário para todos os imóveis para evitar que os
adolescentes os arrendem. Explica que, antigamente, as pessoas telefonavam a
marcar casa para as suas férias e “nós, acabávamos através do contacto, por
saber que tipo de pessoas pretendiam alugar casa. Agora, a maior parte das
marcações é feita pelo Booking[.com] e nós não sabemos antecipadamente que tipo
de gente é que chega aos apartamentos”.
O recurso, refere
Carmen Luz, passa por “bloquear as marcações dos alojamentos, para evitar que
os miúdos ou miúdas os ocupem”. O problema é que, desta forma, não podem fazer
aluguer de casas a ninguém e numa altura de crise como a que estamos a viver,
“custa muito”.
Como reside em
Milfontes e está preocupada com as consequências da presença dos adolescentes,
reúne-se com o marido a um grupo de residentes da vila para evitar os actos de
vandalismo. Assim, manteve-se em vigília até às quatro da madrugada desta
quarta-feira. “Ouvíamos música e gritos e demos conta que mais 100 moços
estavam concentrados numa quinta com piscina mesmo ao lado da nossa empresa”. A
GNR foi chamada, acabou com a festa e a população pode dormir uma noite mais
descansada.
“A maioria são
miúdos e miúdas com 12 e 13 anos”, retrata a empresária, perplexa com o seu
modo de vida. “Comem mal. É álcool, pão e latas de conserva”. São encontrados a
dormir no meio da estrada e os carros são obrigados a andar em marcha lenta
para não haver atropelamentos. Caminham por cima do tejadilho das viaturas que
deixam amolgadas e partem os espelhos retrovisores.
A agressividade é
outra das suas facetas. Estava formada uma fila junto à caixa multibanco para
levantar dinheiro e uma jovem aos empurrões coloca-se à frente de um idoso que
lhe chama a atenção para a falta de respeito. “Não é de modas. Grita pelo
namorado e este agride o senhor”.
“Por volta das
7h30, depois de uma noite ‘bem passada’ pelas ruas, os ‘betos’ aglomeram-se à
porta da pastelaria Mabi, a poucos metros do edifício da GNR, à espera de comer
alguma coisa. Enquanto isso aproveitam para urinar na rua virados para os
transeuntes e fazer mais qualquer coisinha que o tempo é de aproveitar!”,
comenta, indignada, Sandra Paiva.
As descrições
sobre os actos de vandalismo praticados pelos adolescentes são uma constante no
dia-a-dia da comunidade. Logo pela manhã, os comentários aos acontecimentos da
noite anterior reforçam a revolta das pessoas. “Por todos os que vivem ou vêm
de férias para Milfontes, temos que fazer algo drástico para acabar com este
inferno” pode ler-se na página do facebook “Stop vandalismo em Milfontes”.
A praia do Malhão
revela até que ponto chegam cerca de 400 adolescentes, segundo a informação do
porta-voz do comando territorial de Beja da GNR, capitão Hugo Monteiro. Lixo,
muito lixo, sobretudo, garrafas e grades de cerveja, latas, plástico “e até
colchões que eles levam das casas onde estão hospedados.”
“Todas as noites
vêm-se meninas com pouco mais de 12 anos a pedir boleia na estrada para a praia
do Malhão”, observa Carmen Luz, reportando outro pormenor associado à “romaria”
dos jovens a Milfontes: “Há jovens que se deslocam naquelas viaturas conhecidas
por ‘mata-velhos' [um veículo que está na moda entre os jovens da Linha do
Estoril] e outros em jipes muito velhos, onde eles se amontoam”. Estranha que
as autoridades não impeçam este tipo de infracções.“Parece que há uma espécie
de impedimento de tocarem nesses jovens”, comenta Sandra Paiva.
O presidente da
Câmara de Odemira, José Alberto Guerreiro, no esclarecimento que prestou ao
PÚBLICO disse “lamentar os actos de vandalismo que têm ocorrido sobretudo em
período nocturno e a perturbação da ordem pública em Vila Nova de Milfontes”,
tendo manifestado a sua preocupação junto da GNR local e solicitado o reforço
de patrulhamento.
O porta-voz da
GNR explicou que os cerca de 400 jovens vieram na sua esmagadora maioria
de Lisboa, Oeiras e Cascais. “Todos os anos os seus pais escolhem Milfontes”
para deixar os filhos. “O que está a acontecer já é normal. Todos os anos é a
mesma coisa”, observa o militar. No Verão de 2020 não houve actos de vandalismo
por força do confinamento imposto por causa do surto pandémico. Mas este ano, a
maior mobilidade das pessoas acabou por agravar o comportamento dos jovens “por
não sentirem o poder paternal”.
A interiorização
da impunidade reforça a violência nos actos que praticam e ,como “a união faz a
força, quando se juntam às centenas, metem medo”, confessa Carmen Luz.
No último sábado,
forças da GNR acabaram com uma festa que reuniu 140 pessoas e na noite da
última terça-feira impediram uma concentração/festa com mais de 300 pessoas na
praia do Malhão. “É um problema recorrente”, conclui o capitão Hugo
Monteiro.


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