quinta-feira, 22 de julho de 2021

“Betinhos” da Linha do Estoril vandalizam Vila Nova de Milfontes

 



“Betinhos” da Linha do Estoril vandalizam Vila Nova de Milfontes

Cerca de 400 adolescentes escolheram a vila costeira alentejana para passar umas semanas de férias alimentados à força de pão, álcool e conservas. Deixam um rasto de violência e lixo.

 

Carlos Dias

22 de Julho de 2021, 15:01

https://www.publico.pt/2021/07/22/local/noticia/betinhos-linha-estoril-vandalizam-vila-nova-milfontes-1971386?fbclid=IwAR0_rcyvAJdpeuDnO2oftUP35L_np1V5nY53l6Ll2rWRRE3HVY_h8mHsNzo

 

Há quase duas décadas que a situação se repete na segunda quinzena de Julho. Centenas de jovens, com idades entre os 12 e os 16 anos, que os moradores descrevem como “betos”, chegam a Vila Nova de Milfontes para uma espécie de ritual de iniciação. Concentram-se em grupos com centenas de elementos e, madrugada dentro, percorrem as ruas de Milfontes grafitando paredes, portas, janelas, o passadiço instalado na vila e viaturas com imagens de índole sexual. Partem vidros das portas e janelas, danificam zonas verdes e recorrem as pichagens que ofendem a comunidade. 

 

“São quase todos da linha de Cascais, grande parte menores de idade, e vêm todos os anos para Milfontes onde, sem qualquer consequência, consomem droga adquirida no local e quantidades exorbitantes de álcool”, descreveu ao PÚBLICO Sandra Paiva, residente na localidade. 

 

Carmen Luz explicou ao PÚBLICO que tem uma empresa de imobiliário e durante a terceira semana de Julho bloqueiam o calendário para todos os imóveis para evitar que os adolescentes os arrendem. Explica que, antigamente, as pessoas telefonavam a marcar casa para as suas férias e “nós, acabávamos através do contacto, por saber que tipo de pessoas pretendiam alugar casa. Agora, a maior parte das marcações é feita pelo Booking[.com] e nós não sabemos antecipadamente que tipo de gente é que chega aos apartamentos”.

 

O recurso, refere Carmen Luz, passa por “bloquear as marcações dos alojamentos, para evitar que os miúdos ou miúdas os ocupem”. O problema é que, desta forma, não podem fazer aluguer de casas a ninguém e numa altura de crise como a que estamos a viver, “custa muito”.

 

 

Como reside em Milfontes e está preocupada com as consequências da presença dos adolescentes, reúne-se com o marido a um grupo de residentes da vila para evitar os actos de vandalismo. Assim, manteve-se em vigília até às quatro da madrugada desta quarta-feira. “Ouvíamos música e gritos e demos conta que mais 100 moços estavam concentrados numa quinta com piscina mesmo ao lado da nossa empresa”. A GNR foi chamada, acabou com a festa e a população pode dormir uma noite mais descansada.

 

“A maioria são miúdos e miúdas com 12 e 13 anos”, retrata a empresária, perplexa com o seu modo de vida. “Comem mal. É álcool, pão e latas de conserva”. São encontrados a dormir no meio da estrada e os carros são obrigados a andar em marcha lenta para não haver atropelamentos. Caminham por cima do tejadilho das viaturas que deixam amolgadas e partem os espelhos retrovisores.

 

A agressividade é outra das suas facetas. Estava formada uma fila junto à caixa multibanco para levantar dinheiro e uma jovem aos empurrões coloca-se à frente de um idoso que lhe chama a atenção para a falta de respeito. “Não é de modas. Grita pelo namorado e este agride o senhor”.

 

“Por volta das 7h30, depois de uma noite ‘bem passada’ pelas ruas, os ‘betos’ aglomeram-se à porta da pastelaria Mabi, a poucos metros do edifício da GNR, à espera de comer alguma coisa. Enquanto isso aproveitam para urinar na rua virados para os transeuntes e fazer mais qualquer coisinha que o tempo é de aproveitar!”, comenta, indignada, Sandra Paiva.

 

As descrições sobre os actos de vandalismo praticados pelos adolescentes são uma constante no dia-a-dia da comunidade. Logo pela manhã, os comentários aos acontecimentos da noite anterior reforçam a revolta das pessoas. “Por todos os que vivem ou vêm de férias para Milfontes, temos que fazer algo drástico para acabar com este inferno” pode ler-se na página do facebook “Stop vandalismo em Milfontes”.

 

A praia do Malhão revela até que ponto chegam cerca de 400 adolescentes, segundo a informação do porta-voz do comando territorial de Beja da GNR, capitão Hugo Monteiro. Lixo, muito lixo, sobretudo, garrafas e grades de cerveja, latas, plástico “e até colchões que eles levam das casas onde estão hospedados.”

 

“Todas as noites vêm-se meninas com pouco mais de 12 anos a pedir boleia na estrada para a praia do Malhão”, observa Carmen Luz, reportando outro pormenor associado à “romaria” dos jovens a Milfontes: “Há jovens que se deslocam naquelas viaturas conhecidas por ‘mata-velhos' [um veículo que está na moda entre os jovens da Linha do Estoril] e outros em jipes muito velhos, onde eles se amontoam”. Estranha que as autoridades não impeçam este tipo de infracções.“Parece que há uma espécie de impedimento de tocarem nesses jovens”, comenta Sandra Paiva.

 

O presidente da Câmara de Odemira, José Alberto Guerreiro, no esclarecimento que prestou ao PÚBLICO disse “lamentar os actos de vandalismo que têm ocorrido sobretudo em período nocturno e a perturbação da ordem pública em Vila Nova de Milfontes”, tendo manifestado a sua preocupação junto da GNR local e solicitado o reforço de patrulhamento.

 

O porta-voz da GNR explicou que os cerca de 400 jovens vieram na sua esmagadora maioria de Lisboa, Oeiras e Cascais. “Todos os anos os seus pais escolhem Milfontes” para deixar os filhos. “O que está a acontecer já é normal. Todos os anos é a mesma coisa”, observa o militar. No Verão de 2020 não houve actos de vandalismo por força do confinamento imposto por causa do surto pandémico. Mas este ano, a maior mobilidade das pessoas acabou por agravar o comportamento dos jovens “por não sentirem o poder paternal”.

 

A interiorização da impunidade reforça a violência nos actos que praticam e ,como “a união faz a força, quando se juntam às centenas, metem medo”, confessa Carmen Luz.

 

No último sábado, forças da GNR acabaram com uma festa que reuniu 140 pessoas e na noite da última terça-feira impediram uma concentração/festa com mais de 300 pessoas na praia do Malhão. “É um problema recorrente”, conclui o capitão Hugo Monteiro.

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