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Época de incêndios: não são algoritmos, é um modelo
territorial em falência
O mapa das zonas ardidas dos últimos anos mostra como as
chamas poupam várias zonas do país: terão menos incendiários? Certamente há
outros motivos.
Tomás Reis
Arquitecto que
usa o desenho como ferramenta de trabalho. Também nos cadernos de viagem guarda
as memórias, escreve e usa aguarelas.
24 de Agosto de
2022, 7:38
O rasto de cinzas
na Serra da Estrela quase faz esquecer os incêndios de 2017. O Governo prometeu
investigar o que falhou no combate, enquanto se discute a origem da primeira
ignição (durante a madrugada) e o trabalho difícil que os bombeiros tiveram
pela frente, enquanto se somavam novos focos de incêndios ao longo da serra.
Estariam talvez as difíceis condições de combate a influenciar o algoritmo a
que se referiu a Secretária de Estado da Protecção Civil, para sustentar como,
afinal, a área ardida poderia ter sido maior.
Entretanto, as
acácias crescem nos matos de Pedrógão, e pouco parece ter mudado para impedir
que grandes incêndios se repitam. O mapa das zonas ardidas dos últimos anos
mostra como as chamas poupam várias zonas do país: terão menos incendiários?
Certamente há outros motivos. No Alentejo, por exemplo, a alternância de zonas
agrícolas, pastagens e áreas de montado, impede a propagação das chamas.
O mapa das zonas
ardidas dos últimos anos é marcado pela baixa densidade de população, talvez
afastada pelos incêndios, e também pela pequena propriedade. Muitos terrenos
são desconhecidos, até pelos próprios proprietários, e só nos últimos anos o
Governo reforçou o registo da propriedade.
Enquanto o
cadastro predial, como é conhecido o registo de propriedade, não ficar
concluído em todo o país, muitos planos de ordenamento florestal ficarão no
papel. Continuará a deriva voluntarista, em que os povoamentos florestais
alternam com matos de abandono, onde alastram os fogos, comprometendo o
trabalho de limpeza e de prevenção de quem o faz e o esforço dos bombeiros, que
fica sem tréguas à vista. Muitos pequenos proprietários pouco mais podem fazer,
além de limpar as árvores engolidas pelos incêndios e vender a madeira
correspondente ao valor que o mercado pagar, obviamente a preço de saldo.
Uma vez
conhecidos os proprietários da floresta portuguesa, será possível planear e
arborizar. Há um debate aceso sobre as espécies florestais a plantar, que nem
sempre considera a distinção necessária entre a floresta de produção e de
protecção: se a primeira poderia incluir espécies de crescimento rápido, na
segunda proteger-se-iam espaços naturais de valor ecológico e paisagístico, com
a introdução de espécies autóctones. A floresta de produção poderia ajudar a
financiar a de protecção, até para apoiar o turismo de natureza em várias
regiões do país.
O Parque Natural
Serra da Estrela mantém muitos desses lugares com interesse ecológico,
paisagístico, e também turístico. Entretanto, enfrentar o clima em mudança será
como uma corrida contra o tempo. Verões e Outonos mais quentes e secas
prolongadas irão certamente aumentar o desafio, levantando questões sobre que
serra da Estrela irá recuperar dos incêndios. Mas uma coisa é certa: é da serra
que saem as águas cristalinas do Zêzere, das quais Lisboa, e tantas outras
cidades, dependem para sobreviver.

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