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ENTREVISTA
Crise climática vai gerar “enorme perda financeira”
O BCE “deveria ordenar aos bancos” que comecem a colocar
dinheiro de lado para fazer face às perdas que poderão sofrer em resultado da
crise climática, defende a Positive Money Europe, organização dedicada à
sustentabilidade financeira.
Rafaela Burd
Relvas
9 de Julho de
2022, 6:53
O primeiro teste
de stress climático realizado pelo Banco Central Europeu (BCE) já tem
resultados e não são animadores. No curto prazo, os riscos associados à crise
climática poderão levar os bancos europeus a incorrer em perdas de 70 mil
milhões de euros, uma projecção que deverá até estar muito aquém da realidade,
admite o próprio regulador.
É neste cenário
que Stanislas Jourdan, director executivo da Positive Money Europe, uma
organização sem fins lucrativos dedicada à investigação de temas relacionados
com a sustentabilidade financeira, defende que o BCE deveria obrigar a banca a
colocar dinheiro de parte para cobrir as “enormes perdas financeiras” com que,
acredita, irá deparar-se em breve. Até porque, “não há modelos de negócio
viáveis num planeta onde o aquecimento global supera os 2º C” e, por isso, o
sector financeiro poderá enfrentar, em breve, uma “onda de insolvências” e um
aumento do incumprimento do crédito.
Apesar da
importância que os riscos climáticos já representam para o sector financeiro, o
teste de stress agora realizado pelo BCE é um exercício meramente exploratório
e não terá implicações para os rácios de capital dos bancos. O regulador está a
atrasar-se neste tema?
Desde que o BCE
lançou este teste de stress, vários eventos se sobrepuseram aos cenários por si
desenhados, com destaque para a guerra na Ucrânia, que já produziu um choque
semelhante, se não pior, ao que os modelos desenhados previam que a crise
climática provocasse.
A decisão do BCE
de atrasar a actuação no que diz respeito aos requisitos em matéria de rácios
de capital é perigosa, tendo em conta os riscos reais que já estão a
transparecer e que vão causar aos bancos enormes perdas financeiras.
O BCE deveria,
imediatamente, ordenar aos bancos que constituam provisões para cobrir estas
perdas, especialmente para as suas carteiras de crédito hipotecário, que
provavelmente serão afectadas por uma onda de insolvências e por um cada vez
maior número de famílias a enfrentarem custos energéticos mais elevados.
Os resultados
mostram que, no curto prazo, os bancos poderão sofrer perdas de 70 mil milhões
de euros, no caso de se materializarem os riscos de cheias e de calor extremo e
secas na Europa, conjugados com uma transição energética “desordeira”. Mas o
BCE admite que esta estimativa está aquém daquela que poderá ser a realidade.
Até onde podem, realmente, ir as perdas?
Teríamos de ter
uma bola de cristal para saber exactamente qual o montante de perdas em causa.
Mas uma coisa é certa: não há modelos de negócio viáveis num planeta onde o
aquecimento global supera os 2º C. Os bancos e os reguladores deveriam seguir o
princípio da precaução e usar todas as ferramentas que têm ao dispor para
ajudar os fluxos financeiros a mudarem de direcção para actividades ligadas à
transição energética, de forma a prevenir estes cenários extremos.
De que forma é que a certificação energética das casas
poderá ter impacto sobre a maior ou menor capacidade de cumprimento dos
créditos à habitação por parte das famílias?
Este é um dos
resultados mais surpreendentes do teste, que revela que existe uma correlação
entre a performance energética das casas e os riscos de crédito destas
habitações para os bancos. Os resultados do BCE mostram que o risco de
incumprimento é três vezes mais elevado para uma casa com um certificado de
performance energética G do para uma com um certificado A.
Os proprietários
estão a enfrentar um golpe triplo, com o aumento dos custos de vida, a subida
acentuada dos preços da energia e o agravamento do custo dos créditos, devido
ao aumento das taxas de juro. Aqueles que vivem em casas com maus isolamentos
vão sofrer mais, sobretudo devido à subida dos custos energéticos, uma vez que
terão de enfrentar a difícil escolha entre aquecer ou refrescar as suas casas
ou pagar os seus créditos.
Se as pessoas não
conseguirem pagar as contas de energia, também é pouco provável que consigam
cumprir com os seus serviços de dívida. Isto é exacerbado, também, pelo facto
de as famílias mais vulneráveis tenderem a viver em casas com menor eficiência
energética.
Acredita que este
poderá ser o início de um novo ciclo, em que os bancos vão procurar atrair
clientes que queiram fazer investimentos “verdes” ou fazer reabilitações ou
construções de habitações energeticamente eficientes?
Tem de ser. Se
não agora, quando? As carteiras de crédito à habitação constituem um dos
maiores riscos de exposição dos bancos e os riscos de crédito já vão
materializar-se nos próximos meses, devido aos choques nos preços da energia
motivados pela guerra na Ucrânia.
A única forma
positiva de os bancos actuarem é ajudarem os seus clientes a renovarem as suas
casas de forma a neutralizar o risco de crédito na fonte. O BCE deveria
trabalhar em coordenação com os governos nacionais e os bancos comerciais para
que sejam desbloqueados os fundos necessários para os proprietários renovarem
as suas casas.
Para reduzir o custo
do crédito, o BCE poderia oferecer descontos nas taxas de juro aos bancos que
aumentem a concessão de crédito para fins de reabilitação de habitação. Os
governos também podem participar nesta estratégia, oferecendo assistência
técnica e concedendo garantia públicas.
INTERVIEW
Climate crisis
will generate "huge financial loss"
The ECB "should order banks" to start putting
money aside to cope with the losses they may suffer as a result of the climate
crisis, says Positive Money Europe, an organisation dedicated to financial
sustainability.
Rafaela Burd
Relvas
July 9, 2022,
6:53
The first climate
stress test carried out by the European Central Bank (ECB) already has results
and is not encouraging. In the short term, the risks associated with the
climate crisis could lead European banks to incur losses of €70 billion, a
projection that is expected to fall far short of reality, the regulator admits.
It is against
this backdrop that Stanislas Jourdan, chief executive of Positive Money Europe,
a non-profit organisation dedicated to researching financial sustainability
issues, argues that the ECB should force banking to put money aside to cover
the "huge financial losses" it believes will soon come across. In
addition, "there are no viable business models on a planet where global
warming exceeds 2°C" and, therefore, the financial sector could soon face
a "wave of insolvencies" and an increase in credit default.
Despite the
importance that climate risks already pose to the financial sector, the stress
test now carried out by the ECB is a purely exploratory exercise and will have
no implications for banks' capital ratios. Is the regulator late on this topic?
Since the ECB
launched this stress test, several events have overlapped with the scenarios it
has designed, most nodding to the war in Ukraine, which has already produced a
similar, if not worse, shock to what the models designed predicted the climate
crisis would cause.
The ECB's
decision to delay action on capital ratio requirements is dangerous, given the
real risks that are already presenting and will cause banks huge financial
losses.
The ECB should
immediately order banks to make provisions to cover these losses, especially
for their mortgage portfolios, which are likely to be affected by a wave of
insolvencies and an increasing number of households facing higher energy costs.
The results show
that, in the short term, banks could suffer losses of €70 billion if the risks
of floods and extreme heat and droughts materialise in Europe, combined with a
"desordeira" energy transition. But the ECB admits that this estimate
falls short of what may be the reality. How far can the losses really go?
We would have to
have a crystal ball to know exactly how much losses are concerned. But one
thing is certain: there are no viable business models on a planet where global
warming exceeds 2°C. Banks and regulators should follow the precautionary
principle and use all the tools at their disposal to help financial flows
change direction for energy transition-related activities, in order to prevent these extreme scenarios.
How can energy certification of homes have an impact on
households' greater or lesser ability to meet housing credits?
This is one of
the most surprising results of the test, which reveals that there is a correlation
between the energy performance of homes and the credit risks of these homes to
banks. The ECB's results show that the risk of non-compliance is three times
higher for a home with an Energy Performance Certificate G than for one with an
A-certificate.
Homeowners are
facing a triple blow, with rising living costs, rising energy prices and rising
credit costs due to rising interest rates. Those who live in homes with bad
insulation will suffer more, mainly due to rising energy costs, as they will have
to face the difficult choice between heating or refreshing their homes or
paying their credits.
If people can't
pay their energy bills, they're also unlikely to be able to meet their debt
services. This is also exacerbated by the fact that the most vulnerable
families tend to live in less energy-efficient homes.
Do you believe
this could be the beginning of a new cycle in which banks will seek to attract
customers who want to make "green" investments or make
energy-efficient rehabilitations or housing constructions?
It's got to be.
If not now, when? Home loan portfolios are one of the biggest risks of exposure
for banks and credit risks will already materialise in the coming months due to
shocks in energy prices caused by the war in Ukraine.
The only positive
way for banks to act is to help their customers renovate their homes in order
to counteract credit risk at source. The ECB should work in coordination with
national governments and commercial banks to unlock the funds needed for
homeowners to renovate their homes.
To reduce the
cost of credit, the ECB could offer discounts on interest rates to banks that
increase lending for housing rehabilitation purposes. Governments can also
participate in this strategy by providing technical assistance and providing
public assurance.


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