sábado, 9 de julho de 2022

Crise climática vai gerar “enorme perda financeira” / Climate crisis will generate "huge financial loss"

 


IMAGENS DE OVOODOCORVO


ENTREVISTA

Crise climática vai gerar “enorme perda financeira”

 

O BCE “deveria ordenar aos bancos” que comecem a colocar dinheiro de lado para fazer face às perdas que poderão sofrer em resultado da crise climática, defende a Positive Money Europe, organização dedicada à sustentabilidade financeira.

 

Rafaela Burd Relvas

9 de Julho de 2022, 6:53

https://www.publico.pt/2022/07/09/economia/entrevista/crise-climatica-vai-gerar-enorme-perda-financeira-2013015?ref=hp&cx=stories_cover__important_b-destaques-496643

 

O primeiro teste de stress climático realizado pelo Banco Central Europeu (BCE) já tem resultados e não são animadores. No curto prazo, os riscos associados à crise climática poderão levar os bancos europeus a incorrer em perdas de 70 mil milhões de euros, uma projecção que deverá até estar muito aquém da realidade, admite o próprio regulador.

 

É neste cenário que Stanislas Jourdan, director executivo da Positive Money Europe, uma organização sem fins lucrativos dedicada à investigação de temas relacionados com a sustentabilidade financeira, defende que o BCE deveria obrigar a banca a colocar dinheiro de parte para cobrir as “enormes perdas financeiras” com que, acredita, irá deparar-se em breve. Até porque, “não há modelos de negócio viáveis num planeta onde o aquecimento global supera os 2º C” e, por isso, o sector financeiro poderá enfrentar, em breve, uma “onda de insolvências” e um aumento do incumprimento do crédito.

 

Apesar da importância que os riscos climáticos já representam para o sector financeiro, o teste de stress agora realizado pelo BCE é um exercício meramente exploratório e não terá implicações para os rácios de capital dos bancos. O regulador está a atrasar-se neste tema?

Desde que o BCE lançou este teste de stress, vários eventos se sobrepuseram aos cenários por si desenhados, com destaque para a guerra na Ucrânia, que já produziu um choque semelhante, se não pior, ao que os modelos desenhados previam que a crise climática provocasse.

 

A decisão do BCE de atrasar a actuação no que diz respeito aos requisitos em matéria de rácios de capital é perigosa, tendo em conta os riscos reais que já estão a transparecer e que vão causar aos bancos enormes perdas financeiras.

 

O BCE deveria, imediatamente, ordenar aos bancos que constituam provisões para cobrir estas perdas, especialmente para as suas carteiras de crédito hipotecário, que provavelmente serão afectadas por uma onda de insolvências e por um cada vez maior número de famílias a enfrentarem custos energéticos mais elevados.

 

Os resultados mostram que, no curto prazo, os bancos poderão sofrer perdas de 70 mil milhões de euros, no caso de se materializarem os riscos de cheias e de calor extremo e secas na Europa, conjugados com uma transição energética “desordeira”. Mas o BCE admite que esta estimativa está aquém daquela que poderá ser a realidade. Até onde podem, realmente, ir as perdas?

 

Teríamos de ter uma bola de cristal para saber exactamente qual o montante de perdas em causa. Mas uma coisa é certa: não há modelos de negócio viáveis num planeta onde o aquecimento global supera os 2º C. Os bancos e os reguladores deveriam seguir o princípio da precaução e usar todas as ferramentas que têm ao dispor para ajudar os fluxos financeiros a mudarem de direcção para actividades ligadas à transição energética, de forma a prevenir estes cenários extremos.

 

De que forma é que a certificação energética das casas poderá ter impacto sobre a maior ou menor capacidade de cumprimento dos créditos à habitação por parte das famílias?

 

Este é um dos resultados mais surpreendentes do teste, que revela que existe uma correlação entre a performance energética das casas e os riscos de crédito destas habitações para os bancos. Os resultados do BCE mostram que o risco de incumprimento é três vezes mais elevado para uma casa com um certificado de performance energética G do para uma com um certificado A.

 

Os proprietários estão a enfrentar um golpe triplo, com o aumento dos custos de vida, a subida acentuada dos preços da energia e o agravamento do custo dos créditos, devido ao aumento das taxas de juro. Aqueles que vivem em casas com maus isolamentos vão sofrer mais, sobretudo devido à subida dos custos energéticos, uma vez que terão de enfrentar a difícil escolha entre aquecer ou refrescar as suas casas ou pagar os seus créditos.

 

Se as pessoas não conseguirem pagar as contas de energia, também é pouco provável que consigam cumprir com os seus serviços de dívida. Isto é exacerbado, também, pelo facto de as famílias mais vulneráveis tenderem a viver em casas com menor eficiência energética.

 

Acredita que este poderá ser o início de um novo ciclo, em que os bancos vão procurar atrair clientes que queiram fazer investimentos “verdes” ou fazer reabilitações ou construções de habitações energeticamente eficientes?

Tem de ser. Se não agora, quando? As carteiras de crédito à habitação constituem um dos maiores riscos de exposição dos bancos e os riscos de crédito já vão materializar-se nos próximos meses, devido aos choques nos preços da energia motivados pela guerra na Ucrânia.

 

A única forma positiva de os bancos actuarem é ajudarem os seus clientes a renovarem as suas casas de forma a neutralizar o risco de crédito na fonte. O BCE deveria trabalhar em coordenação com os governos nacionais e os bancos comerciais para que sejam desbloqueados os fundos necessários para os proprietários renovarem as suas casas.

 

Para reduzir o custo do crédito, o BCE poderia oferecer descontos nas taxas de juro aos bancos que aumentem a concessão de crédito para fins de reabilitação de habitação. Os governos também podem participar nesta estratégia, oferecendo assistência técnica e concedendo garantia públicas.


INTERVIEW

Climate crisis will generate "huge financial loss"

 

The ECB "should order banks" to start putting money aside to cope with the losses they may suffer as a result of the climate crisis, says Positive Money Europe, an organisation dedicated to financial sustainability.

 

Rafaela Burd Relvas

July 9, 2022, 6:53

https://www.publico.pt/2022/07/09/economia/entrevista/crise-climatica-vai-gerar-enorme-perda-financeira-2013015?ref=hp&cx=stories_cover__important_b-destaques-496643

 

The first climate stress test carried out by the European Central Bank (ECB) already has results and is not encouraging. In the short term, the risks associated with the climate crisis could lead European banks to incur losses of €70 billion, a projection that is expected to fall far short of reality, the regulator admits.

 

It is against this backdrop that Stanislas Jourdan, chief executive of Positive Money Europe, a non-profit organisation dedicated to researching financial sustainability issues, argues that the ECB should force banking to put money aside to cover the "huge financial losses" it believes will soon come across. In addition, "there are no viable business models on a planet where global warming exceeds 2°C" and, therefore, the financial sector could soon face a "wave of insolvencies" and an increase in credit default.

 

Despite the importance that climate risks already pose to the financial sector, the stress test now carried out by the ECB is a purely exploratory exercise and will have no implications for banks' capital ratios. Is the regulator late on this topic?

Since the ECB launched this stress test, several events have overlapped with the scenarios it has designed, most nodding to the war in Ukraine, which has already produced a similar, if not worse, shock to what the models designed predicted the climate crisis would cause.

 

The ECB's decision to delay action on capital ratio requirements is dangerous, given the real risks that are already presenting and will cause banks huge financial losses.

 

The ECB should immediately order banks to make provisions to cover these losses, especially for their mortgage portfolios, which are likely to be affected by a wave of insolvencies and an increasing number of households facing higher energy costs.

 

The results show that, in the short term, banks could suffer losses of €70 billion if the risks of floods and extreme heat and droughts materialise in Europe, combined with a "desordeira" energy transition. But the ECB admits that this estimate falls short of what may be the reality. How far can the losses really go?

 

We would have to have a crystal ball to know exactly how much losses are concerned. But one thing is certain: there are no viable business models on a planet where global warming exceeds 2°C. Banks and regulators should follow the precautionary principle and use all the tools at their disposal to help financial flows change direction for energy transition-related activities,  in order to prevent these extreme scenarios.

 

How can energy certification of homes have an impact on households' greater or lesser ability to meet housing credits?

 

This is one of the most surprising results of the test, which reveals that there is a correlation between the energy performance of homes and the credit risks of these homes to banks. The ECB's results show that the risk of non-compliance is three times higher for a home with an Energy Performance Certificate G than for one with an A-certificate.

 

Homeowners are facing a triple blow, with rising living costs, rising energy prices and rising credit costs due to rising interest rates. Those who live in homes with bad insulation will suffer more, mainly due to rising energy costs, as they will have to face the difficult choice between heating or refreshing their homes or paying their credits.

 

If people can't pay their energy bills, they're also unlikely to be able to meet their debt services. This is also exacerbated by the fact that the most vulnerable families tend to live in less energy-efficient homes.

 

Do you believe this could be the beginning of a new cycle in which banks will seek to attract customers who want to make "green" investments or make energy-efficient rehabilitations or housing constructions?

It's got to be. If not now, when? Home loan portfolios are one of the biggest risks of exposure for banks and credit risks will already materialise in the coming months due to shocks in energy prices caused by the war in Ukraine.

 

The only positive way for banks to act is to help their customers renovate their homes in order to counteract credit risk at source. The ECB should work in coordination with national governments and commercial banks to unlock the funds needed for homeowners to renovate their homes.

 

To reduce the cost of credit, the ECB could offer discounts on interest rates to banks that increase lending for housing rehabilitation purposes. Governments can also participate in this strategy by providing technical assistance and providing public assurance.


Sem comentários:

Enviar um comentário