OPINIÃO
Os brasões da Praça do Império, o exemplo e a
responsabilidade da câmara municipal
Num tempo em que se observam preocupantes movimentos de
eliminação de testemunhos da História dos povos, por vezes acompanhados de
acções de vandalização de património público, é insensato que a câmara
municipal, mesmo involuntariamente, possa potenciar uma percepção equívoca,
alimentando as posições de pessoas ou grupos que pretendem apagar a História.
António Prôa
22 de Fevereiro
de 2021, 17:10
A discussão sobre
o futuro do jardim da Praça do Império começou inquinada por uma visão
envergonhada e retroactivamente arrependida da História de Portugal. Mas ainda
vamos a tempo de afastar essa controvérsia olhando para a recuperação do jardim
como uma oportunidade para valorizar a arte da jardinagem, assumindo as marcas
da evolução histórica daquele espaço e da própria História do país. Acresce que
esta polémica surge num contexto de crescente e perigoso pendor para apagar
referências de episódios da herança dos povos um pouco por todo o mundo.
O presente
Para os que
quiserem retroceder até 2014, data em que é proposta a retirada dos brasões em
mosaico-cultura (em mau estado de conservação) do Jardim da Praça do Império,
poderão constatar que o argumento utilizado pelos defensores da proposta era o
de que aqueles símbolos “estão ultrapassados”. Tudo o resto são meros
pretextos, desculpas e teimosia, tal como o de retomar o traçado original da
autoria de Cottinelli Telmo. Aliás, se fosse para ser rigoroso neste critério,
então não se proporia manter os desenhos da Cruz de Cristo e do escudo da
bandeira nacional. Tal como não se afirmaria que a inexistência dos moldes era
um problema, porque se houvesse vontade genuína os moldes poderiam ser
construídos. Por fim, o argumento da aprovação do novo projecto pela
Direcção-Geral do Património Cultural, sendo óbvio que também aprovaria a
recuperação do que já fazia parte do próprio jardim.
Admito que haja
um argumento adicional não declarado: a falta de jardineiros para a manutenção
de um jardim com aquelas exigências. De facto, o município há muito que não
aposta no reforço da equipa de jardineiros. Aliás, a escola de jardinagem da
câmara municipal não desenvolve o potencial que detém por falta desta aposta.
O passado
Importa
desmistificar a valorização concedida à recuperação do projecto original do
jardim. O traçado original durou apenas vinte anos. Concretizado em 1940 por
ocasião da Exposição do Mundo Português, logo em 1961, por ocasião dos 500 anos
da morte do Infante D. Henrique e no âmbito da Exposição Nacional de
Floricultura, foram projectados e implantados os brasões florais das antigas
colónias que acabaram por se tornar definitivos, sendo mantidos, durante
décadas, pela Câmara Municipal de Lisboa.
O Jardim da Praça
do Império consolidou-se com a integração dos ditos brasões, constituindo parte
da sua identidade e fazendo parte da memória dos lisboetas. Aliás, não fora o
desleixo municipal, o melhor exemplo nacional da técnica de mosaico-cultura
seria precisamente aquele. Infelizmente, este descuido também serve de pretexto
para a eliminação desta arte em Lisboa.
O futuro
A iminente
alteração do jardim, com a eliminação das referências às antigas províncias
ultramarinas que conviveram durante décadas com o jardim e com os lisboetas sem
qualquer objecção, suscitou a contestação de milhares de lisboetas, entre os
quais antigos presidentes da edilidade, de esquerda e de direita, demonstrando
que esta não deve ser uma disputa ideológica, mas antes uma causa de defesa da
história, da cultura, do património e da identidade.
Não por acaso, o
actual presidente da câmara veio apelar à ponderação, assumindo a recusa de
preconceitos na recuperação do Jardim da Praça do Império. Agora, importa que
seja consequente na prudência e na responsabilidade.
O que está em causa é também a qualidade e beleza dos
jardins de Lisboa. Que melhor oportunidade do que qualificar e valorizar o
Jardim da Praça do Império, preservando os seus elementos distintivos?
Vamos admitir que
há sensibilidade à contestação popular a este processo. Vamos admitir que foi
tomada a consciência de que esta decisão poderá ser um pretexto para
impulsionar um movimento de eliminação de símbolos da História de Portugal.
Vamos admitir que o preconceito que ditou esta proposta de alteração foi
precipitado. Vamos admitir que há vontade de corrigir esta intervenção.
Se assim for,
esta pode ser uma oportunidade para intervir numa das mais bonitas e
importantes praças de Lisboa, recuperando o melhor exemplo nacional de
mosaico-cultura e de topiária, valorizando estas artes e promovendo a
importância dos jardineiros, a sua formação e qualificação e impulsionando a
actividade da Escola de Jardinagem da CML.
O que está em
causa é também a qualidade e beleza dos jardins de Lisboa. Que melhor
oportunidade do que qualificar e valorizar o Jardim da Praça do Império,
preservando os seus elementos distintivos?
O Jardim da Praça
do Império é hoje, na memória colectiva, um jardim que integra os brasões. O
respeito por este património não é confundível com a defesa de outros tempos
que, incontornavelmente, fazem parte da História de Portugal.
Num tempo em que
se observam preocupantes movimentos de eliminação de testemunhos da História
dos povos, por vezes acompanhados de acções de vandalização de património
público, é insensato que a câmara municipal, mesmo involuntariamente, possa
potenciar uma percepção equívoca, alimentando as posições de pessoas ou grupos
que pretendem apagar a História.
Deputado
Municipal na AML, antigo vereador na CML


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