RACISMO
Ataques racistas e neonazis interrompem sessão organizada
por alunos do Liceu Camões. PJ investiga
Associação de estudantes organizou debate sobre a
escravatura e o racismo no Zoom. A certa altura o ecrã foi invadido por
suásticas, ameaças racistas, saudações nazis e imagens violentas. Direcção do
Liceu fez queixa ao Ministério Público de acto “cobarde e racista” e está a
estudar estratégias de prevenção. Polícia Judiciária vai investigar.
Joana Gorjão
Henriques
22 de Fevereiro
de 2021, 20:12
Depois de terem
dedicado o mês de Janeiro a discutir temas sobre LGBTQ+, a Associação de
Estudantes da Escola Secundária de Camões centrou o mês de Fevereiro no
racismo. O tema do debate de dia 18 de Fevereiro, na passada quinta-feira, via
Zoom, era A Influência da Escravatura no Sistema e o Racismo Institucional.
Mas, pouco depois
do arranque, houve uma invasão de mais do que uma pessoa com ataques racistas e
neonazis, imagens de suásticas e de pessoas negras violentadas a ocupar o ecrã
e vozes em inglês a dizer “preto volta para África”, “preto cala-te” ou a imitar
o som de macacos, ouve-se na gravação da sessão à qual o PÚBLICO teve acesso.
Os ataques foram
feitos sob a capa do anonimato — mesmo quem ligou a câmara disfarçou o rosto
fazendo misturas gráficas na cara. As suásticas foram desenhadas sobre quem
estava a falar, a vermelho, e sob rostos de pessoas negras; foram ainda
mostradas imagens de agressões a negros.
“Acho que alguém
entrou na sala”, disse um dos intervenientes no início do ataque. As agressões
verbais continuaram: “cala-te negro”, outras vozes sobrepostas gritaram
“nigger”, “nigger” e “buga-buga”, “fucking niggers”. Falavam em inglês mas
percebe-se que entendiam português.
Seguiu-se a
discussão sobre o que fazer para barrar o acesso e as alunas começaram então a
bloquear vários utilizadores que desconfiavam ser os autores dos ataques. Uma
das organizadoras contou ao PÚBLICO ter expulsado 13 pessoas. A associação de
estudantes pediu para não revelar nenhum dos nomes dos alunos envolvidos, nem
dos dos seus dirigentes. A sessão destinava-se sobretudo aos alunos, que são
maioritariamente menores.
O evento, uma
colaboração com uma rede de alunos africanos na diáspora, A Fonte, tinha sido
anunciado nas redes sociais da associação e foi partilhado por várias pessoas.
Por isso não sabem se os ataques foram feitos por algum aluno da escola ou de
fora. Uma das pessoas que fez os ataques disse a determinada altura que
conseguiu o link na plataforma Telegram.
Uma notícia de
Abril de 2020 no New York Times dá conta de que o Zoombombing, ou seja, ataques
no Zoom, por participantes não convidados, se tinha tornado frequente, e o
aumento do nível de discurso de ódio e assédio tinha mesmo chamado a atenção do
FBI.
Direcção do
Camões estuda estratégias de prevenção
Contactada pelo
PÚBLICO, a Polícia Judiciária disse que ia investigar.
A direcção da
escola enviou esta segunda-feira uma queixa ao Ministério Público (MP), referiu
o director do Liceu Camões, João Jaime. O director desconhece se estão
envolvidos alunos ou não. Esta foi a primeira vez que algo semelhante aconteceu
no Camões, garantiu. Em Outubro de 2020 várias escolas da área de Lisboa foram
alvos de ataques racistas nas paredes, mas não o Camões.
Mais tarde, a
direcção enviou um comunicado a dizer que “a comunidade educativa tem vindo a
expressar, sobre múltiplas formas, o seu repúdio por este acto cobarde e
racista”. Esclareceu que a queixa ao MP foi apresentada no âmbito do
Cibercrime, contra um acto de discriminação e incitamento ao ódio e à
violência, previsto no artigo 240º do Código Penal. A direcção apela à
investigação e refere que os procedimentos “são fundamentais para o
apaziguamento da comunidade educativa e para a valorização dos mecanismos
legais no exercício da cidadania”.
Segundo João
Jaime, internamente a direcção está a discutir estratégias para “prevenir e
evitar a entrada de pessoas estranhas com acções intencionais de discriminação”
e garantiu que ia continuar a apoiar e a criar as necessárias “condições para a
realização das várias sessões programadas pela” associação de estudantes.
Também Nuno
Coelho, professor de Design da Universidade de Coimbra e o único adulto
presente na reunião, fez queixa ao Ministério Público e à Comissão pela
Igualdade e Contra a Discriminação Racial (CICDR).
A estudante com
quem o PÚBLICO falou e um dos alvos dos insultos comenta: “Naquele momento foi
um bocado angustiante, senti-me mal por colocar os oradores naquela situação.
Como associação podíamos ter feito melhor e controlado os acessos.” E critica:
“As pessoas agora vão perceber melhor e dar mais atenção porque isto
aconteceu”, mas há uma desvalorização dos episódios de racismo que as pessoas
sofrem. “É preciso acontecer algo mais radical para dar atenção”, diz.
Teme pela sua
integridade física? “Não sei se estes factos foram só para fazer as pessoas
sentirem-se diminuídas ou para fazer alguma coisa.” Certo é que “nunca tinha
acontecido nada tão violento, nem presencialmente, nem online” nas sessões que
organizaram, comenta. Nem sequer tinham recebido qualquer ameaça nas redes
sociais. Mas sublinha: “Depois do que aconteceu fizemos uma publicação e alguém
escreveu ‘Angola é nossa’.”
Nuno Coelho, o
professor, apareceu no debate porque o viu anunciado numa rede social. Não tem
dúvidas de que o ataque foi feito por mais do que uma pessoa, porque conseguiu
“ver duas ou três por detrás das máscaras a fazer a saudação nazi e a proferir
insultos”. O debate continuou, fez queixa à CICDR e esta segunda-feira ao MP.
“Aquilo chocou-me bastante”, comenta.
Além dos ataques
aos murais de escolas, no ano passado, houve vários ataques racistas: em
Agosto, dez pessoas, incluindo as deputadas Joacine Katar Moreira e Beatriz
Gomes Dias, receberam uma ameaça por email a intimá-las a abandonar o
“território nacional” em 48 horas e a rescindir “as suas funções políticas”.
Dias antes, um grupo deslocou-se à sede do SOS Racismo numa parada Ku Klux Kan.
Já em Junho,
vários locais na Área Metropolitana de Lisboa foram alvo de ataques com
mensagens racistas e xenófobas e ameaças — como o SOS Racismo, o Conselho
Português para os Refugiados ("A Europa aos europeus” e “morte aos
refugiados") ou o mural de homenagem ao anti-fascista José Carvalho,
assassinado por skinheads (com “guerra aos inimigos da minha pátria")

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