segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Azulejos de Lisboa (e não só) podem vir a ser vendidos apenas em antiquários




Azulejos de Lisboa (e não só) podem vir a ser vendidos apenas em antiquários
POR SAMUEL ALEMÃO • 29 JANEIRO, 2018 •

Depois do furto do painel de azulejos da Leitaria Anunciada, original do início do século XX, o Fórum Cidadania de Lisboa pediu à Câmara de Lisboa “tolerância zero” ao comércio ilegal destas peças. O movimento diz que a legislação “só protege os azulejos de fachada de projectos de reabilitação de imóveis, deixando, por isso, muitos de fora”. Apela, por isso, à necessidade de se fazer uma inventariação nos interiores. A autarquia da capital anunciou, entretanto, que está a estudar a instalação de um sistema de videovigilância junto a alguns painéis. O roubo de azulejos está a diminuir, mas a Polícia Judiciária (PJ) continua a ter dificuldade em confirmar a sua proveniência. E, por isso, quer levar ao parlamento uma proposta para restringir a venda às lojas de antiguidades. “Deixaria logo de haver uma venda descontrolada de azulejos e um esvaziamento das feiras”, diz a coordenadora do projecto SOS-Azulejo, da PJ. Nos últimos anos, a procura de azulejos tem vindo a aumentar, também, com o crescimento do turismo.

 Texto: Sofia Cristino

 Entre 2006 e 2017, o furto de azulejos diminuiu, drasticamente, em Lisboa. Para os defensores dos mosaicos identitários da cultura portuguesa e especialistas na área, contudo, ainda há muito a fazer no sentido de preservar o património azulejar. No centro histórico da capital portuguesa, continua-se a ver buracos nas paredes azulejadas e as vendas ilícitas prosseguem. A Polícia Judiciária (PJ) tem dificuldade em confirmar a proveniência dos azulejos vendidos em feiras e, por isso, vai levar à Assembleia da República uma proposta para restringir a venda de azulejos apenas às lojas de antiguidades.

 Em 2007, na sequência de uma vaga alarmante de furto de azulejos, o Museu da Polícia Judiciária criou o projecto SOS-Azulejo, para prevenir a criminalidade e aumentar a consciencialização da importância do património dos azulejos. Leonor Sá, coordenadora do projecto SOS-Azulejo, em declarações a O Corvo, diz que, passados dez anos da implementação do programa, o balanço é “muito positivo”.


“Verificou-se uma diminuição em mais de 80% do furto de azulejos registados, históricos e artísticos, na Directoria de Lisboa e Vale do Tejo da PJ. Este ano, houve apenas cinco furtos em Lisboa. No resto do país, só há roubos esporádicos. Há uma diminuição muito visível e drástica. Penso que o período em que o azulejo foi mais associado a furto já foi ultrapassado”, considera.

 Em agosto do ano passado, foi aprovada uma lei que proíbe a demolição de fachadas azulejadas e a remoção de azulejos das mesmas, na sequência de uma proposta do SOS- Azulejo apresentada, em 2016, ao parlamento e transformada num projecto de lei pelo PS. Os proprietários de imóveis passaram a ter de pedir uma licença camarária para demolir ou retirar azulejos. Uma conquista que, segundo Leonor Sá, constituiu “uma viragem na história da protecção dos azulejos”.

 “Conseguirmos que a lei fosse aprovada foi uma machadada muito grande nos ‘amigos do alheio’ do azulejo. Têm havido tantas remoções que, sem esta lei, rapidamente deixaríamos de ser o país com mais azulejos do mundo”, congratula-se. No entanto, ressalva, “ainda há muito por fazer”, sendo o próximo passo discutir outra proposta do SOS-Azulejo, de limitar e controlar a venda de azulejos antigos. Esta já tinha sido apresentada, em 2016, à Assembleia da República, não tendo sido, contudo, aprovada.

“Houve uma proposta que ficou de fora e queremos voltar a pegar nela. Hoje já existe uma obrigatoriedade das lojas de antiguidades de fazerem um mapa do que compram e do que vendem. A nossa proposta é de que as vendas se limitem a essas lojas. Deixaria logo de haver uma venda descontrolada de azulejos e um esvaziamento das feiras. Na altura, quem viu a proposta viu alguns impedimentos, mas nós temos dados concretos de que é exequível”, informa.

Francisco Queiroz, membro da Rede de Investigação em Azulejo há 22 anos, acredita que há lacunas no decreto-lei anunciado em agosto. “Não resolve metade dos problemas relacionados com o furto de azulejos. Essa lei vem apenas colmatar um buraco, ao proteger só os azulejos de fachada”, alerta, em declarações a O Corvo. O investigador considera, ainda, que “há muito desconhecimento nesta área” e que as entidades que têm competência para sensibilizar a população da importância do património português “não têm feito nada nesse sentido”.

“Há uma grande dificuldade das autarquias em passarem conhecimento para as pessoas. Isto acontece há muitos anos, por todo o país. A Câmara de Lisboa criou o Programa de Investigação e Salvaguarda do Azulejo de Lisboa (PISAL), entretanto extinto, que foi muito importante, mas não teve consequências visíveis. As pessoas não percebem o que se passa relativamente aos azulejos. Há, também, muitas pessoas a pagarem por réplicas e vai-se perdendo muitos dos azulejos originais”, observa, ainda.

 No final do século XX, o furto de azulejos intensificou-se, quando os vendedores ambulantes se aperceberam do valor comercial deste património. “Quando as pessoas perceberam o que os azulejos valiam lá fora começaram a furtar. A procura de azulejos também está a aumentar, com o turismo. Comprar azulejos é quase uma moda”, explica Leonor Sá.

Em dezembro de 2017, foi roubado um conjunto de azulejos que compunha um dos painéis azulejares da Leitaria Anunciada, um painel da autoria da companhia Cerâmica Lusitânia e datado de 1927, data da abertura da Leitaria. Na sequência deste furto, o Fórum Cidadania de Lisboa enviou um e-mail, a 4 de janeiro, ao presidente da Câmara Municipal de Lisboa (CML), no qual insta a autarquia a dar “tolerância zero” ao comércio ilegal de azulejos através de uma campanha de sensibilização dirigida aos potenciais compradores.

 A Câmara de Lisboa não respondeu directamente ao Fórum Cidadania Lisboa, mas anunciou que está, neste momento, a estudar até que ponto é exequível a instalação de um sistema de videovigilância junto a alguns painéis figurativos de azulejos com valor patrimonial. Em declarações a O Corvo Paulo Ferrero, fundador do Fórum Cidadania Lisboa, diz que esta medida não chega para resolver “um problema que é muito complexo”.

 “Bastava porem um poster a dizer ‘tenha atenção quando comprar azulejos’, que já podia fazer a diferença”, sugere. “Quem tem azulejos não lhes dá a devida importância, há muita indiferença. Também há incúria por parte dos proprietários, que contratam pessoas que não sabem colocar os azulejos. Não é qualquer um que põe e tira azulejos, existe uma técnica específica para a sua recolocação. Um azulejo mal colocado parte rapidamente. Há poucos ateliês a fazerem boas réplicas”, acrescenta.

 Paulo Ferrero critica, ainda, a Polícia Judiciária por “só aparecer quando há denúncias”. “A Polícia Judiciária tem uma boa taxa de sucesso no universo em que actua – dos azulejos de fachadas –, que é um universo muito pequeno. Têm bons resultados quanto aos azulejos de palácios e monumentos, mas há mais azulejos”, alerta.

 Rita Gomes Ferrão, investigadora do Instituto de História da Arte da Universidade Nova de Lisboa, diz que “as técnicas de restauro do azulejo exigem aprofundados conhecimentos técnicos e prática cerâmica”. “São necessários conhecimentos teóricos sobre a história do azulejo, os vários materiais e técnicas usados em cada época e região. O ideal é que tenha formação superior em conservação e restauro, no entanto, no caso da cerâmica e azulejaria, a experiência e a prática são fundamentais para o domínio das técnicas e dos materiais. Uma oficina ou restaurador com anos de prática atingirá resultados de melhor qualidade do que um recém-formado, sem prática. O ideal será conjugar as duas valências”, considera, em depoimento escrito a O Corvo.

 A investigadora explica, ainda, que a maioria dos proprietários dos imóveis em obras necessitam de aconselhamento técnico. “O que acontece muitas vezes é serem mal aconselhados ou optarem por orçamentos aparentemente vantajosos, com um resultado de péssima qualidade. Como aconteceu com os painéis exteriores do café Bola Cheia, em Lisboa”, diz, ainda.

 Rosário Veiga, investigadora no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) na área de revestimento de paredes de edifícios históricos, explica, em declarações a O Corvo, que o ideal é “intervir o menos possível” nas fachadas de azulejos e, para isso, é necessário que os mosaicos sejam bem colocados. “Um azulejo mal colocado não só dá à fachada um aspecto de remendo, como o próprio azulejo perde características próprias e valor. Estragamos o azulejo”, considera.

 “Quanto menos houver necessidade de intervir nas fachadas de azulejos melhor. Não é necessariamente mais caro pôr um restaurador especializado a fazer o trabalho de recolocação dos azulejos, porque, se puserem uma pessoa que não tenha conhecimento, acabam por perder mais tempo. O segredo é planear bem os trabalhos de restauração, de forma a diminuir os custos e valorizar o património. Uma intervenção mal feita constitui um problema muito grave para a conservação do património”, reforça.

Rosário Veiga diz, ainda, que há muitas pessoas a falar de azulejos mas percebe-se que, afinal, até não estarão dentro do assunto. “É um tema recente e, apesar da sensibilização ter aumentado, ainda é muito baixa. Há um longo trabalho por fazer ainda”, refere.

 Na Feira da Ladra, encontram-se à venda painéis de azulejos em quase todos os postos de venda. Surgem no meio de roupa e livros em segunda mão e velharias. Os preços variam entre um euro por azulejo e 15 a 20 euros por um conjunto de quatro azulejos figurativos. Há placas informativas indicando que estes datam do século XVII e XVIII. Alguns vendedores ambulantes seduzem os visitantes para a compra de azulejos pombalinos.

 “Compro a colegas e há quem me venha aqui vender. Tenho de ganhar a vida”, explica uma feirante, que não se quis identificar, quando questionada pelo O Corvo sobre a proveniência dos azulejos. “Vendemos aqui azulejos há anos e não vamos deixar de vender”, garante outro feirante.

 Paulo Ferrero diz que “toda a gente sabe que os azulejos à venda na Feira da Ladra podem ter origem ilícita”. No entanto, “é muito difícil a polícia actuar, porque não tem forma de o comprovar”. “Muita gente nem tem licença para lá estar. Tem de se combater a venda ilegal e só vai ser possível fazê-lo com a obrigatoriedade de um certificado da proveniência dos azulejos aos vendedores. Os azulejos são das poucas coisas que identificam a nossa cultura, não se podem menosprezar”, reforça.

 “A lei só protege os azulejos de fachada de projectos de reabilitação de imóveis, deixando, por isso, muitos de fora. É bom, mas não chega. É, também, necessário fazer uma inventariação das fachadas de interiores, que não estão contempladas na lei”, considera, ainda.

Francisco Queiroz partilha da mesma opinião. “Só se está a intervir numa parte, existe um grande vazio na legislação. A polícia não tem forma de confirmar a proveniência dos azulejos e continuamos num ciclo vicioso. Isto tem de ser feito ao contrário: quem vende é que tem de provar onde adquiriu os azulejos, a venda tem de ser regulada. Os azulejos só deviam ser vendidos se tivessem um certificado de proveniência. É património nosso e é altamente cobiçado”, observa o especialista.

 A coordenadora do projecto SOS-Azulejo explica que “é muito difícil comprovar que os azulejos são furtados”. “Sabemos de fonte segura que os azulejos roubados circulavam com tanta facilidade que, às vezes, já eram passados para uma quinta ou sexta pessoa, sendo muito difícil perceber a sua proveniência”, explica.

 Nas lojas de antiguidades da Rua de São Bento, todos os antiquários dizem que, hoje, são mais selectivos na compra de azulejos. “Quando as pessoas não nos inspiram confiança, não compramos. Também já vendo menos, para não ter chatices, porque os antiquários é que pagam as favas. As pessoas acham que os comerciantes compram tudo e não é bem assim”, diz Luís Lopes, 64 anos, proprietário de uma loja de antiguidades.

“A lei aprovada o ano passado acabou por ter um efeito negativo, porque, como os proprietários têm de pedir uma licença à câmara para realizarem obras, no período de tempo de espera pela licença, quem furta fica a saber que existem ali azulejos históricos e vai lá”, aponta, ainda. “E há muita procura?”, questiona O Corvo. “Já houve mais pessoas a procurar por azulejos. Vinham muitos italianos. Agora há menos”, informa.

Félix, 71 anos, antiquário na Rua de São Bento, diz que também já não tem vontade de vender azulejos. “Cada vez há mais fiscalização, não tenho interesse em vender azulejos há muito tempo. Muitos dos azulejos roubados vão para Espanha e é muito difícil de descobri-los. Continua a haver muito interesse no furto”, comenta. Manuela Fonseca, 70 anos, antiquária do outro lado da rua, é da mesma opinião. “Não sabemos de onde vêm os azulejos e não os compramos. Também já perguntaram mais por azulejos, agora praticamente não perguntam. Os portugueses nem procuram, só um estrangeiro ou outro, que é também quem vem aqui”, diz.

 Miguel Arruda, 34 anos, começou recentemente a trabalhar na loja de antiguidades do pai e diz que só compra azulejos em lojas oficiais. “As fontes têm de ser fidedignas, é essa a melhor forma de nos defendermos. Só compramos azulejos em particulares, vamos lá e vemos”, explica.

 Lisboa é a cidade com mais azulejos do mundo, uma das marcas identitárias do país, mas tal evidência não impediu que fossem desvalorizados ao longo dos anos. Estão a acontecer, todavia, transformações no que diz respeito à consciencialização da prevenção do património azulejar português.

 “Quando começámos a actuar, as pessoas nem falavam sobre azulejos e quero acreditar que falarem mais poderá ser resultado do nosso trabalho. Temos meios muito limitados e não temos orçamento, só parceiros, mas, ainda assim, acho que temos feito um grande trabalho”, afirma Leonor Sá. “As pessoas têm o hábito de só valorizar o que é raro. Só protegemos aquilo que valorizamos. Não há outro país que tenha azulejos com esta profusão. Já me disseram que há azulejos aos ‘pontapés’ e acho que a desvalorização poderá vir daí. Contudo, essa realidade tem vindo a mudar. Há mais pessoas a partilharem nas redes sociais painéis de azulejos furtados”, explica, ainda.

 No âmbito do Dia Nacional do Azulejo, instituído a 6 de Maio do ano passado, cerca de 15 mil pessoas de escolas de todo o país participaram na “Acção Escola SOS-Azulejo 2017”, proposta pela equipa do SOS-Azulejo. O objectivo destas acções, segundo a directora do Museu da Polícia Judiciária, é “incutir o gosto pelos azulejos desde cedo”. “Começamos, também, a atribuir prémios de boas práticas nesta área, em 2010, que acredito que também esteja a encorajar pessoas a adoptarem boas práticas”, indica.

 Com o aumento da exposição dos azulejos furtados em várias plataformas na internet, nomeadamente em sites criados para o efeito, Leonor Sá considera que “as pessoas também começaram a ficar com mais receio em comprar”. “A partir do momento que os painéis de azulejos furtados são expostos, já ninguém os quer vender, porque pode ficar em maus lençóis. Há aqui consequências dissuasoras. Este último furto, na Leitaria Anunciada, só foi bom nesse aspecto. Às vezes, também há a percepção de que há mais furtos, porque as pessoas confundem a visibilidade das ocorrências com as ocorrências propriamente ditas”, comenta.

 O projecto SOS Azulejo tem como parceiras várias entidades, entre as quais universidades, a Associação Nacional de Municípios Portugueses e a Direcção-Geral do Património Cultural. Para além da travagem do furto de azulejos, a equipa pretende salvaguardar o património azulejar de forma a que não deixe de ser uma marca identitária do país.

 “Gostávamos que o azulejo continuasse a ser uma característica típica de Lisboa. Os arquitectos também têm apostado em formas de reinventar o azulejo, mais modernizadas, como é o caso do revestimento do MATT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, porque percebem que é um elemento incontornável da história de Portugal”, explica Leonor Sá. Quando ao risco do azulejo deixar de ser uma peça identitária da cultura portuguesa, Leonor Sá garante que está “mais optimista” relativamente a esse risco.

Francisco Queiroz ressalva que “há apenas uma autarquia do país a trabalhar na conservação e restauro do azulejo”. “A Câmara Municipal de Ovar tem um Atelier de Conservação e Restauro do Azulejo a funcionar desde 2001 e é a única do país a fazer este trabalho. Tem uma equipa de técnicos que andam na rua e, se virem uma fachada sem um azulejo, tocam à porta da casa e reportam a situação. Reconheço que em Lisboa é mais difícil fazer este controlo, mas, uma vez que o turismo também está a crescer, acho que deveria haver um esforço no sentido de aumentar a sensibilização para a protecção deste património”, remata o especialista em azulejos.


Paulo Ferrero deixa, ainda, em aberto, a possibilidade de elaborar uma petição contra a venda ilegal de azulejos. “Estamos a pensar fazer uma petição para entregar na Assembleia da República, mas, sinceramente, não sei se mexe com as pessoas. Deveria haver mais legislação para proteger o azulejo”, conclui o fundador do movimento cívico Fórum Cidadania Lisboa.

Ocho capitales europeas saturadas de turistas se unen frente a Airbnb


Esta notícia publicada a 28 de Janeiro pelo El País corresponde a um post de OVOODOCORVO da mesma data divulgando o mesmo acontecimento. (ver em baixo comentário / link )
Madrid também esteve presente nesta conferência das 8 cidades em Amsterdão.
Nos “Media” Portugueses nem uma só palavra sobre este importante acontecimento ...
Lisboa não esteve presente . Medina anda nítidamente a dormir ou não quer se comprometer, apesar da urgência do problema, com medo da impopularidade perante o Eleitorado.
OVOODOCORVO

Ocho capitales europeas saturadas de turistas se unen frente a Airbnb

Exigen medidas que eviten los efectos perversos del alquiler de viviendas de particulares

ISABEL FERRER
Ámsterdam 28 ENE 2018 - 20:40

Madrid, Barcelona, y seis capitales europeas se han unido para exigir medidas que eviten los efectos perversos del alquiler turístico. Quieren que la Comisión Europea obligue a la plataforma de alquileres Airbnb a compartir los datos de sus clientes. Una medida que podría dar al traste con el negocio, porque la empresa cobra un porcentaje de la reserva y podría perder ingresos si los turistas contactan directamente con los alquiladores.

El alquiler de pisos a través de la plataforma Airbnb ha revolucionado el sector, y los Ayuntamientos de Madrid, Barcelona, Bruselas, París, Cracovia, Viena, Reikiavik y Ámsterdam quieren ponerle barreras. Por eso pedirán a la Comisión Europea que obligue a este tipo de firmas a desvelar la identidad de los propietarios que ofrecen las viviendas y a que compartan sus datos.

Representantes de las ocho ciudades remitirán para ello una carta a Bruselas expresando su deseo de mantener el equilibrio entre el flujo de turistas y la protección de los vecinos de los barrios afectados. La decisión fue adoptada durante una conferencia sobre Renta Turística Europea, celebrada esta semana en la capital holandesa. Berlín y Londres se ausentaron, pero recibirán la propuesta por si quieren apoyarla. Airbnb no fue invitada y emitió un comunicado asegurando que “trabaja con más de 300 Ayuntamientos para aclarar las reglas de los alquileres gestionados. Mientras otras compañías, como HomeAway, Tripadvisor, Expedia o Booking.com no hacen nada, nosotros abogamos por un crecimiento responsable”.

Laurens Ivens, teniente de alcalde de Ámsterdam, y anfitrión de la conferencia, argumentó que su propuesta no es nada descabellada. “En virtud de la protección de datos, el Reglamento europeo permite que Airbnb y las demás mantengan el anonimato del casero y las direcciones en alquiler. Todos los productos tienen normas de calidad y solo pedimos el mínimo exigible: un registro con un número para saber quién renta, que puede incluirse en la página de Internet de la empresa”. La ciudad acaba de fijar en 30 días anuales estos alquileres, por eso Ivens recuerda que el problema “no es el turismo, sino el volumen de visitantes”. En 2008, Reikiavik recibió a 450.000 personas. “Ahora son 2,5 millones anuales, y sin regulación será invivible”, asegura Sigurdur Bjorn Blondal, su teniente de alcalde. El problema es que Airbnb y sus homólogas perciben un porcentaje de la renta pactada, y pueden perderlo si el turista averigua el nombre del dueño de la casa y negocia con él directamente.

Hoteles ilegales
“Un turismo de hotel con un complemento de otro tipo de alojamiento está bien, pero no con inmuebles que pueden operar como hoteles ilegales. En Madrid hay unas 90.000 camas disponibles y los precios por habitación son de los más bajos de Europa. Pero donde hay más turistas de Airbnb y similares, que vecinos, suben los alquileres. Y los inquilinos tradicionales tienen problemas. De modo que la colaboración de estas plataformas es esencial”, piensa Miguel Sanz Castedo, director de Turismo del Ayuntamiento de Madrid.


A su lado, Sergi Marí i Pons, gerente de empresa y turismo del Ayuntamiento de Barcelona, indica que "los efectos secundarios de esta ola turística generan también oportunidades". "Nosotros intentamos reducir el impacto actual en zonas como Las Ramblas o el Parque Guell, creando otros focos de interés. Y si antes cada ciudad negociaba por su cuenta con estas empresas, el hecho de actuar como una red y acudir juntos a la Comisión Europea evitará las diferencias", dice, en De Burcht, el edificio del antiguo sindicato de talladores de diamantes, sede de la reunión.

A relação amor-ódio de Viana com o Prédio Coutinho está à beira do fim


O Prédio Coutinho constui e sempre constituiu um atentado urbanístico. Ele constitui um exemplo de uma certa concepção de "modernidade" afirmativa, arrogante e autista perante o contexto.
 Ele pertence a uma época onde os arquitectos se afirmavam pela ruptura em tabula rasa e pela total indiferença pelo contexto e pela envolvente.
A sua demoloção será um acto de pedagogia dirigido a uma classe arquitecta que se considerava uma elite avant-gardística que primava pela total indiferença pelas consequências humanas de tais experiências. As periferias de cidades Europeias como Paris, ilustram bem as consequências sociais e humanas das ideias urbanísticas do CIAM e as suas 'cidades dormitórios'.
OVOODOCORVO


 Arquitectura escolha ou fatalidade. Autor: Krier Leon / Autor secundário: António Sérgio Rosa de Carvalho
Publicação: Lisboa : Estar, 1999 Descrição: 207 p. ; 24 c


A relação amor-ódio de Viana com o Prédio Coutinho está à beira do fim

Passaram quase duas décadas desde que o Programa Polis chegou a Viana do Castelo para requalificar a cidade. No eixo dessa iniciativa está a demolição do Prédio Coutinho, um edifício de 13 andares, que o Polis considerou não se enquadrar na paisagem. Ao longo do processo de expropriações, grande parte dos 300 moradores foi saindo. Entre recursos e contra-recursos, passaram 18 anos. Agora, os últimos 14 moradores têm de abandonar o edifício até ao dia 31 de Janeiro. Mas continuam irredutíveis: prometem não sair, “nem à força”.

ANDRÉ VIEIRA (texto), PAULO PIMENTA (fotografia) e SIBILA LIND (vídeo) 28 de Janeiro de 2018, 6:36

No início da década de 70 do século passado, Agostinho Correia vivia no bairro do Jardim, em Viana do Castelo. Comerciante, estava estabelecido perto da Avenida Luís de Camões, para onde se deslocava todos os dias. A caminho passava pela Praça Frei Gonçalo Velho, onde durante anos esteve o mercado municipal, entretanto demolido. 

Estava naquela altura, entre 1973 e 1975, a ser construído no mesmo lugar um edifício de 13 andares que se destacava pela envergadura e por contrastar com o resto da paisagem urbana da zona histórica desta cidade do Alto Minho, feita de prédios baixos à base de granito. “Símbolo do progresso”, para uns; para outros, um “mamarracho”. Agostinho apoiava a primeira ideia.

Após vários meses a “namorar” o prédio, decidiu conhecê-lo por dentro. Ficou “deslumbrado” com a panorâmica que tinha do alto das varandas viradas para o rio Lima. À procura de casa nova, optou por uma das fracções daquele edifício em betão armado de “construção impecável”. Escolheu um quinto andar. E nunca mais quis sair dali. 

Aquele edifício tem o mesmo nome do bairro que habitava antes: Jardim. Mas hoje será mais fácil de identificar pela designação com que ficou conhecido para o resto do país. É o Prédio Coutinho – apelido do empresário responsável pela sua construção –, que 18 anos depois de anunciada a sua demolição, após a criação, em 2000, da sociedade VianaPolis, para promover a requalificação do centro histórico, continua de pé.

Passaram mais de 40 anos desde que o Prédio Coutinho (PC) se impôs na silhueta da cidade, mas agora parece ter definitivamente os dias contados.

Ao abrigo do Plano de Requalificação da VianaPolis, decidiu-se que do ponto de vista estético o prédio não se enquadrava na paisagem urbana. E, se tudo correr como previsto, o mercado da cidade voltará ao seu lugar original. Se o PC ocupou o lugar do mercado, que foi transferido para poucos metros de distância do original e mais tarde também demolido, entendeu-se depois que voltaria a ter de dar lugar ao mercado. A construção deste equipamento foi considerada de utilidade pública. Ou seja, inverte-se o processo. Agora, será a demolição do prédio a dar lugar ao mercado. 

Num acórdão de 13 de Dezembro de 2017, o Tribunal Constitucional (TC) indeferiu os recursos movidos pelos moradores que contestaram as expropriações levadas a cabo por esta sociedade. Meses antes do acórdão do TC já circulava a notificação de que os residentes que ainda resistem teriam de abandonar o prédio até final de Janeiro. O prazo está a terminar e 14 habitantes, quase todos reformados, que ainda lá estão não arredam pé das oito fracções ainda habitadas. Aos 85 anos, Agostinho Correia é um deles. Como todos os outros com quem falámos, diz que a sua decisão é irredutível: “Só saio daqui morto.”


Quando abriu portas no início da segunda metade dos anos 1970 viviam 300 pessoas no edifício
Um prédio robusto sem vida no interior
Durante o dia, quem passa pelo prédio não se apercebe de que a larga maioria das 105 fracções estão vazias. A maioria dos 300 moradores iniciais já saiu. Quem espreitar para o hall de uma das duas entradas, poente e nascente, não encontra nada que seja muito diferente de outro prédio qualquer. Existem decorações, vasos com plantas que não deixaram de ser regadas, chão e paredes em mármore cujo brilho indica não terem deixado de ser visitados pelos serviços de limpeza.

Por outro lado, na parede, há um quadro que tem afixado o horário da porteira com data de 1997. No hall, existe ainda uma secretária para a porteira, mas não está lá ninguém. Difícil de encontrar são moradores a entrar ou a sair.

Enquanto aguardamos, na paragem em frente ao prédio estão três mulheres que esperam pelo autocarro. Perguntamos o que acham do prédio. Uma diz que o acha bonito, outra não lhe acha “piada” e para a terceira “tanto faz”. Como acontece desde que o edifício foi construído, também neste pequeno grupo as opiniões tomam direcções opostas.

Entretanto, chega Armando Carvalho, 74 anos, residente no edifício desde Setembro de 1976. Abre-nos a porta do prédio e a de casa, no segundo andar, onde vive com a esposa de 73 anos. Faz-nos uma visita guiada pelo T3 com cerca de 180 metros quadrados, que lhe custou 1050 contos, na moeda antiga (cerca de 5 mil euros). “Era muito dinheiro naquele tempo”, recorda.

300
Número de moradores à data do anúncio da demolição, em 2000
Mostra-nos as remodelações que fez nalgumas divisões da casa. Até 1999, gastou “50 mil contos” (250 mil euros), em obras. “Está tudo a cair, não está?”, pergunta com ironia. Não está, confirmamos. A partir de 2000 não arriscou investir mais em obras de remodelação, depois de no mandato de Defensor Moura ter sido apresentado pela Câmara Municipal de Viana do Castelo (CMVC) o Programa Polis de Requalificação Urbana e Valorização Ambiental, que prevê a demolição do edifício.

Armando passou a gastar dinheiro na defesa da sua permanência no prédio onde comprou casa. “Nestes 18 anos, gastei mais de 6 mil contos (30 mil euros) em advogados”, conta. Gastou-os porque não aceita sair de um prédio que foi “construído legalmente” e “aprovado pela câmara”, apenas “porque alguém acha que o prédio é feio”. “É escandaloso estar a gastar este dinheiro para defender uma propriedade que é minha”, acrescenta.

Ora destrói-se mercado, ora constrói-se mercado
Armando Carvalho não aceita esta justificação estética como válida. Muito menos a Declaração de Utilidade Pública (DUP) publicada a 16 de Agosto de 2005 em Diário da República, que dá conta do carácter de urgência da expropriação do prédio para que o mesmo seja demolido para ser construído um novo mercado. Primeiro porque Viana “já tinha um mercado novo” e depois porque desconfia de que o que lá vai ser construído se aproximará mais de “um centro comercial”.

“Então tinham ali o mercado e demoliram-no e agora dizem que precisam disto porque não há mercado? Porquê? Então as pessoas não têm direitos?”, questiona.

Durante estes anos foi esperando pelo resultado dos recursos que foram dando entrada nos tribunais para contestar as expropriações. No final do ano passado, a decisão que saiu do TC não lhe foi favorável. O seu advogado já o avisou de que o prazo para sair do edifício termina no dia 31 de Janeiro. Armando confessa que não dorme bem há 18 anos. “Não é justo que nos tratem desta forma.”

Apesar de tudo, acredita que ainda não será desta que vai sair. Deixando as crenças de parte, garante que não abandonará a casa: “Daqui não me vão tirar.”

O mesmo dizem Armando Cunha e Fernanda Rocha, casados, ambos com 75 anos. Compraram o apartamento ainda em fase de construção, viviam nessa altura em Paris, onde trabalharam mais de 40 anos para comprar o T3 com cerca de 140 metros quadrados. Em 2000, já reformados, regressaram definitivamente a Portugal. “Pensávamos numa reforma tranquila e, afinal, dizem-nos que vão demolir isto”, lamentam.

Armando Cunha ficou a saber que existiam planos para a demolição do edifício pela televisão, pouco tempo antes de voltar. Já tinha ouvido “rumores” durante as férias, mas até ao momento não passava disso. “Sempre recebi os jornais portugueses, mas a minha mulher escondia-os”, recorda. Quando soube, entrou em depressão. “Já teve duas, uma lá e outra cá”, revela Fernanda.

Armando e Fernanda
Está há 17 anos medicado. “Fiquei sem saber o que fazer.” E conta que não foi o único: “Muita gente ficou transtornada.” Durante todos estes anos esta foi uma “preocupação constante”, parte da rotina diária de Armando e Fernanda e de “todos os moradores na mesma situação”.

“Não me parece que estejam a ser justos com pessoas que deveriam estar agora a desfrutar da idade da reforma. Nem a VianaPolis está a tratar bem as pessoas. Trataram-nos sempre como cães”, considera Armando, que afirma nunca terem sido oferecidas, durante o processo de expropriação, condições que se aproximassem às que considera justas. Sublinha, contudo, que mesmo que o fizessem não encontra qualquer justificação para o desenrolar do processo de expropriações e para a decisão da demolição.

A VianaPolis terá abordado o casal para propor inicialmente uma indemnização de 128 mil euros. “Um valor ridículo”, diz-nos Armando, enquanto nos mostra a vista para o rio Lima da varanda do 2.º andar. Mais tarde, diz ter havido outra avaliação no valor de 224 mil euros. Mas o ex-emigrante continua a achar que este valor não dá “nem para as solas”.

Também lhes foi proposto mudarem-se para um dos dois prédios construídos pela VianaPolis para realojar os moradores expropriados que o aceitassem. Um dos prédios foi construído próximo do navio Gil Eanes e o outro nas traseiras do PC, onde estava o mercado que substituiu o original. Para se construir o prédio novo, demoliu-se o mercado, que passou provisoriamente para outro ponto da cidade. Armando considera não ser sequer “equiparável” a troca.

Quanto à estética do edifício e o seu enquadramento na malha urbana da cidade, não vê nenhum problema. “Para mim, é bonito.” Em Paris, onde viveu, diz ser comum existirem prédios que “fogem” à “arquitectura local” e não é por isso que são demolidos.

Um prédio de “burgueses”?
“Não é humano. Trabalhamos para economizar um pé-de-meia para viver de uma forma mais confortável. Chegaram a dizer que os moradores do prédio eram burgueses”, conta e desfaz essa ideia: “Trabalhei 41 anos na construção civil e a minha mulher nas limpezas. Trabalhámos de sol a sol para amealhar o dinheiro que temos.” De qualquer forma, acrescenta que, mesmo que fosse burguês, continuava “a não se justificar” serem “despejados” do prédio.

No dia 31 de Janeiro, o casal garante que também não sai de casa.

Para o filho de Agostinho Correia, que tem o mesmo nome e também habitou o prédio enquanto viveu na casa dos pais, a ideia de que o prédio Coutinho seria “um prédio de burgueses” foi veiculada para criar aversão por quem lá habitava. Porém, diz que, quando foi desencadeado o processo de demolição, passaram a morar lá todo o tipo de pessoas, desde “metalúrgicos que trabalhavam nos estaleiros navais, médicos, advogados, professores ou funcionários públicos”. O PC seria então “um espelho da sociedade vianense”.

Sociedade vianense que o pai diz ter ficado dividida relativamente ao prédio, mas apenas numa fase inicial. Depois, terá deixado de ser uma questão. “A maioria aceitava-o.” Apesar dessa “celeuma” inicial, diz que foi com o Programa Polis que os problemas tiveram início. Conta que quando se começa a falar de uma possível demolição do prédio enviaram uma carta à câmara para serem esclarecidos. E lembra que a autarquia respondeu dizendo tratar-se apenas de “uma mera intenção”. Mais tarde, veio a revelar-se que a demolição do prédio seria mesmo para avançar.

“A Polis apareceu para modernizar a cidade, mas está a dar cabo dela. E brinca com um prédio desta categoria”, desabafa.

A demolição deverá arrancar até ao final do primeiro trimestre de 2018
A casa de Agostinho também passou por duas avaliações. Não se recorda do valor da primeira, mas diz que na segunda, mais recentemente, avaliaram-na em 235 mil euros. Valor com o qual também não concorda.

Houve quem tivesse cedido, conta. Não censura quem o fez. “Estavam com medo de que o prédio fosse abaixo”, diz. Ir viver para os prédios construídos pela VianaPolis nunca equacionou: “Valorizaram as casas como sendo mais caras. Quem daqui saísse ainda tinha de pagar a diferença, quando estas casas valem o dobro. É um absurdo.” Quem saiu saiu em troca de “uma côdea”. “Não vou de cavalo para burro”, insiste.

Um longo processo
Os moradores queixam-se agora dos transtornos que foram surgindo no decorrer de todo este processo. “A minha mulher é doente, sofre de esquizofrenia. Desde que saiu a decisão do TC, piorou. Está fora de si. Chora e diz que não se quer ir embora. Fica desconfiada quando lhe pedem para assinar coisas. Há dias, desapareceu. Encontraram-na perto do campo da Senhora da Agonia. Talvez fosse para Afife, que é a terra de onde é natural. Psicologicamente, é o refúgio dela. Tive de ir polícia à procurá-la”, conta Agostinho Correia.

Por seu lado, o filho recorda as noites em que “às tantas da madrugada” os vizinhos batiam à porta uns dos outros à procura de respostas e preocupados com o rumo que o processo de demolição pudesse tomar.

Agostinho insiste que só sai de casa “à força”. “A casa é o nosso conforto. Vivi aqui metade da minha vida. Não há palavras para explicar, esta é a minha casa, não há dinheiro nenhum que a pague.” Não esconde a emoção. Para o filho, a utilidade pública da demolição não faz sentido: “Não há utilidade pública nenhuma. Se fosse para construir uma estrada, uma escola ou um hospital, faria sentido. Mas não é o caso.”

“Necessidade de um mercado é um embuste”
Ronald Silley, 75 anos, filho de pai inglês e mãe portuguesa, residente no Canadá, mas proprietário de uma das fracções do PC há 40 anos, subscreve a ideia de não existir utilidade pública na construção do mercado.

De férias em Portugal, o P2 falou com ele e com a esposa, Holly Kemp, na casa que há largos anos é alojamento de descanso para o casal e para os três filhos, que também vivem fora do país. Ronald reitera os argumentos que já defendeu num artigo de opinião no PÚBLICO. “A Declaração de Utilidade Pública fala da necessidade de se construir um mercado, mas o mercado foi abaixo para se criar essa necessidade”, afirma, acrescentando que esta tese é um “embuste”. E alerta ainda que, a acontecer, este seria “o primeiro caso de demolição a ocorrer por razões estéticas”. Para corroborar esta situação, cita o livro Rethinking European Spatial Policy as a Hologram (Ashgate Publishing, 2006), que refere o carácter inédito desta demolição, que acontecerá porque “o prédio é alto demais e grande demais”.

“Acho triste que se deite abaixo património que devia ser preservado. É o testemunho de uma época. Damos uma volta por Viana e o prédio não incomoda quem visita o centro histórico”, defende.

Ronald Silley e Holly Kemp
Ronald considera a demolição do edifício como uma demonstração de “novo-riquismo”. Ainda que, hoje, exista quem ache o edifício muito alto, na altura em que foi construído seria “um sinal de progresso e de que a cidade estava a crescer”. Por outro lado, não lhe parece justo “despojar as pessoas das suas casas por razões estéticas”. Afirma ainda que se criou uma necessidade, a construção de um mercado, para que se conseguisse levar o plano avante. “E despeja-se 300 pessoas por estas razões?”, questiona, classificando todo o processo de “crime económico, cultural e social”.

“Há pessoas no prédio com mais de 80 anos e com problemas de saúde. Vão pô-las na rua? Não há necessidade de se construir um mercado. A razão para a expropriação do PC é a sua própria obliteração”, insiste.

Holly Kemp diz não conseguir conceber que se gaste tanto dinheiro para demolir um edifício “só porque o consideram feio”, sobretudo num país onde existem tantas outras necessidades por suprir.

O marido recorda um exemplo que conhece em Vancôver, onde vive há mais de 40 anos. “Na rua comercial mais cara, Robson Street, existe um prédio que está desalinhado e entra cerca de 3 metros pelo passeio adentro. O prédio tem dois pisos, comércio no rés-do-chão e dois habitacionais. É uma construção medíocre, portanto, em termos financeiros a expropriação não teria grande impacto, mas porque existem duas habitações, por respeito às pessoas que lá vivem, o prédio não é demolido.” Explica que, no Canadá, nestes casos, é passada uma licença de utilização para a vida física do edifício e que enquanto viverem lá pessoas não é demolido. “Só o fariam se fosse necessário construir uma estrada, agora por razões estéticas não”, acrescenta.

Ronald conta que também recebeu uma carta com uma proposta de indemnização, mas que, para si, não correspondia ao valor do apartamento. “Em qualquer país civilizado, esta é uma atitude que denota má-fé. Primeiro, propuseram cerca de 127 mil euros. Na nova avaliação, o tribunal estabeleceu o valor nos 204 mil.”

Lutar contra moinhos
Mas, para Ronald, esta não é uma questão de dinheiro. Viana é o ponto de ligação que os três filhos têm com Portugal, a cidade onde passaram as férias e onde têm amigos de infância, que ainda encontram quando visitam o país. Sem o prédio, esta ligação seria cortada. “É uma questão afectiva.” E uma questão de “justiça”. “Pode dizer-se que sou um bocado D. Quixote. Sei que estou a lutar contra moinhos, mas sentir-me-ia mal se não o fizesse.”

Os primeiros moradores começaram a habitar o prédio em 1975
A solução que propõe é a reversão do processo. Entende que a VianaPolis devia desistir da expropriação do PC, vender as fracções que detém e aplicar esse dinheiro onde ele é “verdadeiramente necessário”. O novo mercado, diz, podia ser construído à beira do rio, junto da marina. Não ficaria distante.

Os moradores que ainda resistem, apesar da recente decisão do TC, ainda acreditam que há esperança e que não será desta que o processo terminará. Esperança antiga é a de que a nidificação de falcões no prédio ajude a atrasar o processo, por questões ambientais. O “bom senso” e o “respeito” pelas pessoas que ainda lá vivem é outro desejo.

O advogado dos moradores desde o início do processo, Francisco Vellozo Ferreira, não quer adiantar pormenores relativamente à estratégia que está agora a ser preparada. Apesar de o processo poder ainda seguir para o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, adianta apenas que ainda existem alguns processos pendentes e afirma que enquanto lá estiverem pessoas a morar não se pode demolir o prédio. “Vão fazê-lo com as pessoas lá dentro?”, questiona.

Lamenta os “milhões” do erário público que já se gastaram com o processo das expropriações e sublinha o carácter único de todo “este trajecto”, em que o cumprimento pelo respeito da propriedade privada não está a ter efeito com base em questões estéticas de um edifício que, na sua opinião, “está perfeitamente funcional”.

O processo de demolição do prédio arrasta-se há 18 anos
De “símbolo do progresso” a alvo a abater
No trabalho que apresentou como tese de mestrado em 2007, “Prédio Coutinho Património Cultural”, o jornalista Óscar Mascarenhas traça a cronologia de todo o processo, começando na venda do terreno onde o prédio foi construído.

Segundo Mascarenhas, o terreno camarário onde funcionava o antigo Mercado Municipal, já obsoleto, destinado à construção de um prédio de seis andares, foi vendido em hasta pública por 7500 contos a 22 de Julho de 1972. Comprou-o Fernando Coutinho, um empresário de sucesso de regresso à sua terra natal, após ter estado emigrado no então Zaire (actual República Democrática do Congo).

Em Janeiro de 1973, o novo proprietário do terreno apresentou à Câmara Municipal de Viana do Castelo (CMVC) um projecto para a construção de um prédio de 13 andares. No mês seguinte, apesar da contestação por parte do director de obras da CMVC que se opunha à volumetria do edifício, tem o parecer favorável por parte da Comissão Municipal de Arte e Arqueologia, que considerou não existir nenhum inconveniente. Em Março, o projecto é aprovado pela autarquia e pelo Conselho Municipal por unanimidade. Entre os vianenses, numa fase inicial, terá havido alguma contestação. Entre os apoiantes, havia quem o considerasse um “símbolo do progresso”.

Em Junho do mesmo ano, através de uma portaria governamental, nasce a Zona Arqueológica de Viana do Castelo. O terreno do antigo mercado municipal faz parte dessa área. Diz o diploma que todos os projectos para aquela zona necessitam de aprovação da Direcção-Geral dos Assuntos Culturais. Com base nesse documento, a 14 de Março de 1974, a mesma direcção-geral questiona a autarquia sobre o licenciamento da construção do edifício de 13 andares, que afirma ter sido licenciado sem “autorização superior”. Na sequência desse aviso, intima a suspensão das obras. Desconhece-se se a CMVC respondeu a estes ofícios. Mas é certo que o edifício foi sendo erguido.

Já depois da Revolução, a 9 de Janeiro de 1975, já com o prédio terminado, a comissão administrativa que liderou a autarquia após o 25 de Abril afirmou ter sido cometido “o maior atentado à harmonia” da cidade. Em reunião com o ministro da Administração Interna, essa comissão pede “70 mil contos” (350 mil euros) para a demolição do edifício. O pedido não foi concedido.


Número de andares
Mas, 15 anos depois, a questão da volumetria do PC volta a ser discutida. A 23 de Março de 1990, o presidente da CMVC da altura, Carlos Branco de Morais, tenta financiamento comunitário para a demolição dos pisos superiores até ao sexto andar. O dinheiro não veio e o assunto voltou a ser enterrado.

Uma década mais tarde, a 5 de Junho de 2000, com Defensor Moura, eleito pelo PS, como presidente da autarquia, é apresentado o Programa Polis de Requalificação Urbana e Valorização Ambiental de Viana do Castelo, sob alçada do Ministério do Ambiente e do Ordenamento do Território, então liderado por José Sócrates. O Plano Estratégico deste programa previa a demolição do edifício, que seria paga com recurso a fundos comunitários.

A 30 de Janeiro de 2001, foi aprovado pela câmara o Plano de Pormenor do Centro Histórico (PPCHVC) que confirma a demolição do edifício. Diz o mesmo plano que Viana do Castelo tem condições para fazer parte da lista das cidades Património Mundial da UNESCO, sendo o Prédio Coutinho então considerado “um entrave” para que seja atingido esse estatuto. A proposta foi aprovada com 63% dos votos da Assembleia Municipal.

Em 2003, no âmbito do PPCHVC, a VianaPolis, entidade detida pelo Estado (60%) e pela CMVC (40%), criada para conduzir o programa, fechou o mercado municipal que substituiu o original, que funcionava próximo do local onde estava o antigo, demolido para construir o PC. No mesmo local foi construído um dos dois prédios para realojar os moradores que sairiam do PC após as expropriações.

Dois anos mais tarde, a 16 de Agosto de 2005, é publicado em Diário da República a Declaração de Utilidade Pública (DUP) com carácter de urgência para se proceder à expropriação do prédio, que seria demolido para voltar a ser substituído pelo mercado municipal. No mesmo ano, os primeiros moradores começaram a sair.

Em Outubro de 2006, a VianaPolis tomou posse de parte das fracções do prédio. Decisão que foi anulada pelo Tribunal Administrativo e Fiscal de Braga.

Entre 2005 e 2009, ano em que Defensor Moura terminou o mandato na CMVC, saiu grande parte dos moradores. Dos cerca de 300 iniciais permaneceram, nessa altura, 30 moradores.

Oito anos mais tarde, a 13 de Dezembro do ano passado, o Tribunal Constitucional negou provimento ao recurso da comissão de moradores, anunciado em Fevereiro de 2014, na sequência da decisão do Supremo Tribunal Administrativo, que legitimava as expropriações realizadas pela VianaPolis com o objectivo de demolir o prédio. Até ao final do mês de Janeiro, os 14 moradores que ainda vivem lá vivem terão de abandonar o edifício para que, durante o primeiro trimestre deste ano, o Prédio Coutinho seja demolido, ao fim de 18 anos de processo.

Dados contraditórios
Há moradores que, apesar de não terem vendido a sua fracção, dizem ter a casa que habitam em nome da VianaPolis, ainda que continuem a pagar o condomínio e impostos, como o IMI. E há dados sobre o número de fracções detidas pela VianaPolis que não batem certo. De acordo com a entidade, 100 das 105 fracções já estão na sua posse. Porém, apesar de apenas oito fracções estarem permanentemente ocupadas, os moradores garantem que há ainda 35 fracções com proprietários particulares, apesar de não residirem no prédio. Só os herdeiros de Fernando Coutinho, falecido em 2010, terão 22.

Agostinho Correia é um dos moradores resistentes: "Só saio daqui morto"
Alcino Lemos, antigo porta-voz da Comissão do Moradores, explica que a VianaPolis terá passado para a sua posse as fracções que foi expropriando, tonando-as em activos da entidade. Activos que após o prédio ser demolido “serão apenas pó”. Mas garante que não serão as 100 que diz ter.

Lemos, agora com 78 anos, já não vive no prédio. Saiu com uma indemnização de cerca de 190 mil euros, não porque desistiu de lutar, mas porque foi obrigado a fazê-lo por motivos de saúde. Um dia, após um directo para uma estação de televisão da Galiza, teve um enfarte. “O médico disse-me que se quisesse viver mais uns anos teria de sair do prédio e afastar-me do processo”, recorda.

Afastou-se, mas não completamente. Continua a pensar no PC como sendo a sua casa. Casa que abandonou por força de um processo que diz ter sido desencadeado no mandato de Defensor Moura, autarca eleito pelo PS entre 1994 e 2009, e que residiu no prédio durante um ano e meio, em casa arrendada. Afirma que o ex-autarca tentou comprar lá casa, mas não conseguiu por não existirem apartamentos disponíveis. Há outros moradores que afirmam o mesmo.

Alcino Lemos, vice-presidente da Câmara de Viana do Castelo entre 1980 e 1982, eleito pela AD, e deputado da Assembleia Municipal pelo PSD no final dos anos 1990, época em que começou a ouvir rumores de que o prédio ia ser demolido. Nesta altura, a Quarternaire Portugal, uma consultora voltada para o desenvolvimento, sondava as autarquias que queriam candidatar-se ao “projecto que veio de Bruxelas” para a requalificação das cidades. O que significa que, ainda antes de ser criado o programa Polis, já Viana tinha um plano de requalificação para a cidade.

A autarquia concorreu e, de acordo com Alcino Lemos, Viana foi a cidade com maior índice de aceitação, por força do plano de requalificação em curso, tendo sido contemplada com fundos comunitários no valor de 189,5 milhões de euros.

“Nessa altura, disseram-me para me preparar porque o PC ia ser demolido”, conta. Foi então que iniciou, com outros moradores, a comissão da qual foi porta-voz e com a qual levou a cabo vários protestos públicos.

Fundos europeus não pagam demolição
Defensor Moura disse no início do processo que a demolição do prédio, prevista no PPCHVC, iria ser financiada por fundos europeus. Em 2003, a Comissão de Moradores envia carta ao comissário europeu com o pelouro da Política Regional da altura, Michel Barnier, para esclarecer a questão. Na resposta, este informa os moradores de que tal demolição, a realizar-se, não seria financiada pelos fundos europeus.

Não tivemos acesso a este documento citado por Lemos, mas sim a outro, assinado por Lluis Riera, funcionário dos serviços do Programa Operacional Ambiente, da Comissão Europeia (CE), que nega qualquer financiamento para demolições ou custos de expropriação. O mesmo documento afirma que o que está em causa é “um edifício em bom estado de funcionalidade e construído de acordo com os preceitos legais então vigentes”. E adianta que “critérios estéticos não podem no caso justificar o financiamento prioritário da sua demolição ou expropriação”.

Defensor Moura confessa ao P2 que “a montagem do financiamento do Polis era complexo”. O ex-autarca afirma que, inicialmente, estava previsto que a demolição fosse realizada com fundos comunitários. Porém, “no mandato de Durão Barroso” como primeiro-ministro, o Governo fez uma “queixa” à União Europeia, perguntando se poderia ser financiada por essa via. Defensor Moura confirma que a resposta foi negativa, “não podia”. Já com José Sócrates a liderar o Governo e com Nunes Correia como ministro do Ambiente, houve outra tentativa de financiar a demolição com outro fundo comunitário.

Defensor Moura confirma que morou no prédio durante cerca de um ano e meio, enquanto estava a construir a casa onde habita actualmente, mas garante nunca ter tentado comprar lá um apartamento.

Questionado sobre o paradoxo entre o facto de ter sido arrendatário num prédio que considerou um problema em termos de paisagem urbana, o antigo edil afirma não existir “qualquer incompatibilidade”, afirmando que sempre achou o prédio uma “monstruosidade”. Moura, candidato à presidência da República em 2011, garante que, durante os seus mandatos, em inquérito “cego”, muitos vianenses consideraram o PC como “o que menos gostavam em Viana”.

Recorda Defensor Moura: “Quando fomos apresentar candidatura do programa Polis [em 2000], levava a fotografia do prédio na pasta. Na altura era o professor Nunes Correia (mais tarde ministro do Ambiente) o director do programa. Fizemos a apresentação com o arquitecto Fernando Távora, que era o coordenador da equipa e com o actual ministro do Ambiente, João Pedro Matos Fernandes, que também fazia parte da equipa da Quarternaire (foi administrador da empresa entre 1999 e 2005), e fez parte da equipa que elaborou o Plano Estratégico para o Polis de Viana que propôs a demolição. O júri foi unânime. Disseram todos que o prédio tinha de ir abaixo”.

A factura da demolição
Defensor Moura não se recorda qual o valor total gasto durante todo este processo. “Saí em 2009 da câmara, já não tenho presente os valores”, afirma.

Alcino Lemos, antigo porta-voz da comissão de moradores, foi obrigado a sair do prédio por razões de saúde
O P2 contactou a CMVC e a VianaPolis para, entre outras questões, tentar apurar os valores já gastos e os que ainda vão ser despendidos com o processo em torno da demolição do PC. Durante a última semana falámos com o gabinete de comunicação da autarquia, que nos informou que por força da deslocação do presidente da câmara José Maria Costa a Bruxelas só estaria disponível para falar esta quinta-feira. No entanto, nesse dia, o autarca decidiu não prestar declarações ao P2. Apesar de nos ter sido comunicado que o administrador da VianaPolis Tiago Delgado estaria disponível para falar também nesta quinta-feira, ninguém no escritório da empresa atendeu o telefone ao longo do dia.

O advogado dos moradores, Francisco Vellozo Ferreira, garante que, em média, terão sido gastos 200 mil euros por fracção entre indemnizações em dinheiro ou em permutas, no caso de quem optou por alojamento nos prédios construídos para o efeito.


Partindo deste valor, calcula-se que só em expropriações, tendo em conta as 105 fracções do prédio, serão gastos cerca de 20 milhões de euros. A este valor deverá ser somado o custo da obra de demolição, entretanto adjudicada à empresa DST, de Braga, que ronda os 1,2 milhões, e ainda os 3 milhões de euros anunciados pela autarquia para a construção do novo mercado. Ainda por apurar está o custo da construção dos dois prédios que serviram para alojar os moradores do PC e ainda o custo da VianaPolis, criada para funcionar durante cerca de três anos, mas que só cessará actividade quando terminar o processo demolição do Prédio Coutinho.

A miragem portuguesa de Silicon Valley


A miragem portuguesa de Silicon Valley

Seria de toda a conveniência que António Costa estivesse atento ao que se disse em Davos sobre o lado mais obscuro dos prodígios tecnológicos.

VICENTE JORGE SILVA
28 de Janeiro de 2018, 6:25

António Costa anunciou esta semana no Fórum de Davos, onde participaram vários líderes internacionais e cuja vedeta principal foi Donald Trump, a próxima abertura de um centro de serviços da Google em Portugal, com a criação de mais de 500 empregos qualificados na zona de Oeiras. Entretanto, correram os primeiros rumores, embora sem confirmação definitiva, de que a Amazon se preparava para instalar-se no Porto. A imagem de Portugal como um país “digital friendly”, promovida pela Web Summit, não seria por isso uma miragem e haverá mesmo quem comece a sonhar com a hipótese de nos tornarmos a sucursal europeia de Silicon Valley.

A crescente atractividade turística do país, que o tornou um fenómeno mundial nos últimos anos, seria um ambiente propício à sua transformação num pequeno paraíso das novas tecnologias. Além disso, os bons resultados da economia e a conquista de prestígio internacional com a nomeação de Mário Centeno para presidente do Eurogrupo estariam a criar uma atmosfera favorável à afirmação de Portugal como um caso verdadeiramente singular no contexto europeu.

Este é o lado aparentemente risonho da história, em contraponto ao seu lado tristonho com o qual nos confrontamos quase todos os dias: ainda esta semana, as imagens deprimentes da poluição no Tejo — agora não atribuível aos espanhóis mas à indústria portuguesa fora de controlo ecológico — remeteram-nos outra vez para um folhetim terceiro-mundista ilustrado pela falta de prevenção, o abandono, o desamparo, desde os fogos nas florestas e povoações do interior passando pelos hospitais (com os casos fatais de legionella) ou as escolas (com as pragas de ratazanas ou as coberturas inflamáveis). E, como exemplo particularmente gritante, lembre-se o recente incêndio na sede de uma associação recreativa em Tondela — um sinistro barracão sem as mínimas condições de segurança — onde morreram dez pessoas, para além dos feridos graves. Quantas mais bombas-relógio estarão disseminadas por esse país fora à espera de explodir?

Esta face tristonha e mesmo negra que Portugal continua a oferecer-nos talvez explique, pelo menos em parte, o deslumbramento com o admirável mundo novo tecnológico de que ambicionaríamos ser a luminosa sede europeia. E assim voltamos a Davos, onde António Costa anunciou, com pompa e circunstância, a instalação da Google em Portugal. Porque foi também ali que, este ano, as chamadas GAFA (Google, Apple, Facebook, Amazon e congéneres) estiveram sob acusação pelo reiterado abuso do seu comportamento predador e não regulado, dos efeitos perversos das redes sociais e dos estratagemas de evasão fiscal. Actuais e antigos dirigentes das “Big Tech” fizeram o acto de contrição — por vezes com expressões quase masoquistas —, admitindo até terem construído monstros que escapam ao seu controlo, mas o problema é que, apesar dos alertas lançados, ninguém parece saber ainda como lidar com os “danos colaterais” de uma revolução tecnológica que mudou a face do mundo (pensava-se que para melhor, mas hoje já se receia que possa ter sido para pior).


Mesmo que o Ministério da Economia garanta que a instalação da Google em Portugal não envolve contrapartidas, o pior que poderia acontecer seria rendermo-nos a esse deslumbramento beato com o tal admirável mundo novo das GAFA. Por muito que António Costa esteja feliz pelas oportunidades trazidas pela Google, a Amazon ou outras multinacionais congéneres para a inovação, o progresso tecnológico e o emprego qualificado em Portugal, seria de toda a conveniência que estivesse atento ao que se disse em Davos sobre o lado mais obscuro dos prodígios de Silicon Valley. E evitarmos assim os riscos de uma miragem perigosa.

domingo, 28 de janeiro de 2018

The Post review – all the news they don’t want you to print / Steven Spielberg’s urgent 70s-set thriller stars Tom Hanks and Meryl Streep in a timely lesson on the need for a vigilant press / Steven Spielberg: ‘The urgency to make The Post was because of Trump's administration’



The Post review – all the news they don’t want you to print
The Post
Mark Kermode's film of the week

The Post
Mark Kermode's film of the week
Steven Spielberg’s urgent 70s-set thriller stars Tom Hanks and Meryl Streep in a timely lesson on the need for a vigilant press

Mark Kermode
Mark Kermode, Observer film critic

 @KermodeMovie
Sun 21 Jan 2018 09.00 GMT

“We can’t have an administration dictating to us our coverage just because they don’t like what we print about them in our newspaper…” At a time when Donald Trump’s White House has declared war not merely on the media but on “truth” itself, there’s something almost quaint about the spectre of a corrupt US president attempting to quash a story, rather than the entire fourth estate.

Playing like a prequel to All the President’s Men (the final coda nods towards the opening of Alan J Pakula’s masterpiece), Steven Spielberg’s Vietnam-era thriller recalls the 1971 revelations of the Pentagon Papers – a devastating internal report that detailed how “the White House has been lying about the war”. While Nixon (making a creepy voice-cameo appearance) seethes about “treasonable action”, newspaper editors head to the supreme court, asserting their constitutional right to speak truth to power. Meanwhile, a behind-the-scenes battle of the sexes rages, as the Washington Post balances the demands of its investors with the awful truth that “the only way to protect the right to publish is to publish!”

Spielberg opens with a black screen (mirroring the iconic white-page opening of All the President’s Men), which gives way to a bloody Vietnam firefight in 1966, witnessed first-hand by military analyst Daniel Ellsberg (Matthew Rhys). Fast-forward to ’71, where Ellsberg’s leaked report (“United States – Vietnam Relations 1945- 1967”) makes the front page of the New York Times, telling the world that four successive administrations had misled the American public about the war, and revealing that former secretary of defence Robert McNamara (Bruce Greenwood) “knew we couldn’t win in 65 – that’s six goddam years ago!”

Widowed socialite and mother of four Katharine “Kay” Graham (Meryl Streep) is a close friend of McNamara. But she is also the proprietor-publisher of the Washington Post, whose editor Ben Bradlee (Tom Hanks) is eager to pursue the Pentagon Papers story, despite an injunction against the Times. “Kay throws a great party,” says a colleague “but her father gave the paper to her husband” – a demeaning assessment shared by many of the belligerent men who surround Graham at work. Will she have the mettle to stand and fight for what is right, even if doing so puts the paper’s very existence at risk?

Written by Liz Hannah and Josh Singer (the latter’s newsworthy credits include newsroom films Spotlight and The Fifth Estate), The Post has been described by Hanks as a story “about the week Katharine Graham became ‘Katharine Graham’”. Certainly, Streep’s character provides the emotional fulcrum on which the drama turns. Time and again, Spielberg pictures her as the only woman in the room, initially disempowered. One early boardroom scene slyly echoes the cabinet meetings of Phyllida Lloyd’s The Iron Lady (also starring Streep), with Graham’s silence a sharp counterpoint to Margaret Thatcher’s strident confidence. But as the story progresses, Graham finds her own voice – hesitant at first, but increasingly firm and forthright.

As for Hanks, he captures the swashbuckling bravado of Bradlee (played by Jason Robards in All the President’s Men), who realises that the cosy relationship he has formerly shared with presidents must come to an end. With his chin-forward stance and ready-for-action manner, Hanks seems utterly at home amid the typewriter clatter of production designer Rick Carter’s newsroom sets. The 35mm film stock and muted colour palette add an authentic 70s patina to the visuals, with cinematographer Janusz Kaminski’s smartly choreographed cameras pursuing the film’s protagonists through halls and corridors with efficient panache. There’s a real frisson, too, to the printing-press scenes, as Spielberg drools over the hot-metal mechanics of newspaper production, taking tangible delight in the old-school workings of a Linotype machine.

For all its period detail, however, this is an urgently contemporary tale, with Spielberg taking a break from preparing his forthcoming effects-heavy sci-fi thriller Ready Player One to turn The Post around in double-quick time. Hitting our screens as the current White House incumbent raves about news media being “the enemy of the American people”, The Post offers a reminder that “the founding fathers gave the free press the protection it must have to fulfil its essential role… to serve the governed, not the governors”. The film-making may hardly be groundbreaking, but this story is more relevant than ever, and it is told with wit, precision and understated passion.

Steven Spielberg: ‘The urgency to make The Post was because of Trump's administration’
The director dropped everything – including new blockbuster Ready Player One – to tell the story of the Washington Post’s decision to publish the Pentagon Papers. He talks about parallels between Nixon and Trump and why Oprah Winfrey would be a ‘brilliant’ president

by Jonathan Freedland

Shortly after The Sixth Sense became a global sensation, its director, M Night Shyamalan – hailed on the cover of Newsweek in 2002 as “the next Spielberg” – told an interviewer that, years earlier, he had realised the one ingenious trick that made Steven Spielberg movies so spectacularly successful. Like a soft-drink manufacturer who had stumbled on the secret recipe for Coca-Cola, Shyamalan could not believe his luck. What was Spielberg’s killer formula, Shyamalan was asked. He would not say. Merely by understanding it, he had struck commercial gold and he did not plan to share it.

It didn’t quite work out that way for Shyamalan, who has never matched the heights of that first hit. But I thought of his imagined revelation as I watched Spielberg’s latest film. The Post stars Meryl Streep and Tom Hanks as Katharine Graham and Ben Bradlee of the Washington Post, the duo who took on the Nixon White House in 1971 to publish the Pentagon Papers, the US Department of Defense’s own secret history of the Vietnam war that laid bare decades of government dishonesty.

It is a timely, absorbing story, beautifully acted and masterfully told. But what is the essential ingredient that makes it a Spielberg movie? Where is the neat narrative trick that Shyamalan thought he had spotted, the trademark device that means The Post sits in a canon that includes Jaws, Indiana Jones and Schindler’s List?

Two days later, I am sitting opposite Spielberg – now 71 and looking like a kindly college professor, a sweater over his shirt and tie and under his jacket – about to ask the man himself. He is the most commercially successful director in cinema history, the man behind ET, Jurassic Park and dozens more. So what makes a Spielberg film?

He answers by noting that he recently saw Spielberg, a two-hour documentary by Susan Daly, detailing each stage of his storied career. “Even having looked at that documentary about myself, I still cannot honestly tell you what attracts me to a project and what presses my buttons and what gets me to say yes. I can’t tell you.”

Really? No clue as to what the common thread that connects his work might be?

“There’s a couple of movies that, yes, I see my dog tags around the neck of the film, like anything that has to do with dinosaurs or intrepid archaeologists.” But more widely? He shakes his head and smiles. “And I saw the documentary. And it didn’t help.”

As he told Daly, he doesn’t like to overanalyse his own work too much, for fear that the attempt to understand the source of all this creativity might cause it to dry up.

As it happens, The Post has a couple of Spielberg hallmarks. There is the familiar clash of idealism against pragmatism, the brave soul (or souls) ready to stand up for what’s right, against the vastly bigger forces pressing them to back down. In Bridge of Spies, Hanks was a lawyer pressured to cut corners who insisted, instead, on the primacy of the constitution. In The Post, Hanks is a journalist taking the same stand. (Both films join Lincoln as hymns to the virtues of the US constitution.) And – like those fleeing the shark, the dinosaurs, or the relentless truck in Spielberg’s debut movie, Duel – the good guys have to face down an implacable bully.

But The Post has an added quality that some earlier Spielberg movies may have lacked: an uncanny topicality. That is not wholly coincidental. The director first read the script for The Post just 11 months ago, deciding instantly that he wanted to make this story of a Republican president at war with the press – and he wanted to make it right now, assembling screenwriters, crew and A-list stars (including Streep and Hanks making their first film together) in a fraction of the usual time.

“The level of urgency to make the movie was because of the current climate of this administration, bombarding the press and labelling the truth as fake if it suited them,” Spielberg tells me, recalling the sense of offence he felt at documented, provable events being branded fake news. “I deeply resented the hashtag ‘alternative facts’, because I’m a believer in only one truth, which is the objective truth.”

So The Post shows a silhouetted Richard Nixon pacing the White House, while we hear the disgraced former president’s voice – taped on his own, notorious recording system – as he tramples on the first amendment, seeking to use the might of his office to hobble the free press. No one needs to mention Donald Trump for his shadow to loom over this movie.

Journalists will lap it up, of course. Like James Graham’s stage play Ink, it features one sequence lovingly recreating the old process of hot metal – the clanging of heavy, blackened machines – once necessary to produce a printed newspaper. For those who were inspired to go into the trade by Alan J Pakula’s All the President’s Men (“arguably the greatest newspaper movie ever made,” says Spielberg), with its heroic tale of Bob Woodward and Carl Bernstein exposing Watergate, The Post is a delicious prequel: it argues that the victory over the Pentagon Papers emboldened the Washington Post to keep fighting Nixon, all the way to his resignation in 1974. (For anyone who knew Bradlee, Hanks does not disappoint: he gets the macho swagger of the walk, the growl in the voice, just right.)

But Spielberg insists his film is no nostalgia piece looking backward to the days when US journalism was in its pomp. “I think there’s a higher standard of journalism today than there even was then,” he says. For that he credits today’s competitive landscape, with the Post and the New York Times jostling daily for exclusives on the Trump White House. Back in 1971, that duel was, the director says, “a one-way street”. Bradlee was furious that the New York Times had beaten him to the Pentagon Papers, publishing them first. But to the Times, the Post was a provincial, local paper – barely a rival at all.

These days, says Spielberg, the old obstacles he details so painstakingly in his film – the need to have enough coins in your pocket to call a source from a payphone or the rigmarole of booking two seats on a plane to accommodate boxes filled with secret papers – have gone. But the inky hassles of what he calls the “analogue era of hard copy” have been replaced by new challenges, chiefly the sheer number of breaking stories and the speed of the news cycle, “which is less than 24 hours. Sometimes it’s 24 minutes. The intensity is tenfold what it used to be.”

If The Post feels timely, it is not solely because Americans are witnessing anew a pitched battle of president v press. The central human story of the film is the transformation of Graham, the Post’s owner – who had taken the helm of the paper only after her husband’s suicide – from a hesitant, self-doubting Washington society hostess, into a decisive, steely woman who refuses to be pushed around.

Accordingly, Spielberg repeatedly shows us Graham/Streep as the only woman in a room full of besuited men, interrupted by men, talked over and down to by men, even those supposedly junior to her. We watch as she develops the strength finally to turn around and say: “Enough.”

When, in February 2017, Spielberg picked up The Post’s script, originally written by 31-year-old Liz Hannah, he can’t have known how resonant it would become.

“I didn’t know because the sexual assault tsunami hadn’t happened yet. Of course it had been happening for decades and decades, but this particular 8.2 earthquake had not yet occurred.”

Was he aware of what certain men were doing in his industry?

“Certainly aware of the existence probably all the way back to William Shakespeare’s time of the casting couch, and the prevalence of sexual abuse and sexual intimidation in the old Hollywood of the 1920s, 30s and 40s.”

But he has been a player in Hollywood for nearly 50 years. Surely he must have seen something?

“There was some inappropriate behaviour years and years ago inside my own company, which we dealt with and dismissed the person involved in that. But I’ve always had small companies with no more than 70 employees, and my companies have always been run by women. I find when companies are run by women, there’s less of a chance for men to get away with that kind of behaviour.”

And what about Harvey Weinstein himself? Surely that was not a surprise? “I knew that he was a bully, and I knew that he was a very intimidating competitor. But I learned for the first time about his sexual proclivities when I read the [New Yorker] story by Ronan Farrow.”

There is one scene in The Post that Spielberg tells me he improvised on the day. Graham is leaving the supreme court after the fateful ruling in the newspaper’s favour. A huge crowd of anti-Nixon protesters has gathered and, as she goes down the stairs, several young women spontaneously form a kind of guard of honour, lining her route. It rams home the point that Graham should be seen as a feminist role model, blazing a trail for the next generation.

Some have found that scene a little over-egged, as if Spielberg couldn’t help but lay on an extra coating of sentimentality. It is a familiar accusation against the director, one that has dogged him for decades. But these days he leans into it. He owns it. That becomes clear when I ask him why he thinks the Spielberg biography by film critic Molly Haskell was published in Yale University Press’s Jewish Lives series. Has his been a Jewish life? Does his work have a Jewish sensibility?

“Well, Jews by and large have a sentimental quality. We also love high drama. I think both of those things are evident in most of my work.”

There’s another way of looking at this question of sentimentality. Somehow Spielberg manages to peer quite hard into the dark and nevertheless find a point of light. It is wrong to think he shies away from the darkness: his subjects have included the Holocaust, slavery and domestic violence. (In 1994, he founded the Shoah Foundation, which is committed to recording on video the testimonies of survivors of the Nazi Holocaust, as well as of genocides in Rwanda, Cambodia and elsewhere.) But he also ensures that audiences leave every Spielberg film with their spirits lifted. What is that about?

He smiles. “Well, look. To be Jewish, you have to be optimistic, because if you’re not we would have perished in the desert. We’d never have reached the end of that 40-year hike. We would all have perished without optimism.”

Spielberg has plenty of it, planning for the release of sci-fi blockbuster Ready Player One, the film he interrupted to make The Post, and scanning scripts for the countless other movies he wants to make after that. Correction: not necessarily movies.

“I’d like to do a 10-hour miniseries very much,” he says when we talk about the current surge in top-quality television. He has been looking, “but I haven’t found one yet”. With excitement, he volunteers the titles of his current three favourite shows: The Crown, The Handmaid’s Tale and Big Little Lies. I suggest that The Crown is not unlike The Post: the story of a woman thrust into a powerful role she never expected. Another smile: “I see some of the echo between Her Majesty and Her Majesty of The Washington Post.”

We talk about the nervy, “nerdy” boy Spielberg was as a child; the way he was bullied, singled out for particular abuse as one of the few Jewish kids in his Arizona suburb; about the 8mm movie camera he discovered aged 12 or 13, which became “the antidote to being bullied”. But, before long, we are talking once more about his country.

He is excited about the prospect of an Oprah Winfrey run for the presidency. He thinks she would be “absolutely brilliant”. Indeed, he refuses to sink into the bleak despair of so many of his fellow Hollywood liberals.

“Our country has gone through all kinds of crises, and we’ve always bounced back from them. We are going to bounce back from this, no doubt. This is something we will look back on, we will make movies about. We’ll tell these stories. These will be lessons to our children of what not to do and how not to comport oneself. But we will absolutely bounce back and we will recover. All the damage being done today is reversible.”

He doesn’t fear for the republic?

“At this moment in my life right now, with all my experience behind me, no, I do not fear for the republic.”

Our time is up, we shake hands – but not before he has checked to make sure my machine has recorded our conversation (“I’ve got your back”) – and we say goodbye. And it takes me a while to realise that with that last, hopeful glimpse of life after Trump, he has done it again. Even now, in a 45-minute interview to promote his new film, Steven Spielberg has supplied a Spie