segunda-feira, 25 de julho de 2022

BCE – missão impossível / ECB - mission impossible

 


OPINIÃO

BCE – missão impossível

 

Sem um movimento de convergência que aproxime os dois grupos de economias e sem a operacionalização efectiva de mecanismos de absorção de choques e de relançamento económico, a Zona Euro permanece vulnerável.

 

João Costa Pinto

25 de Julho de 2022, 0:05

https://www.publico.pt/2022/07/25/opiniao/opiniao/bce-missao-impossivel-2014460

 

1. No início de Junho, Christine Lagarde, presidente do BCE – claramente alarmada com o alargamento rápido dos spreads entre a dívida italiana e a alemã – veio afirmar que o BCE tinha instrumentos para actuar e evitar a fragmentação da Zona Euro. Mais recentemente, perante as crescentes pressões inflacionistas – intensificadas pela invasão russa da Ucrânia – declarou que o BCE estava preparado para fazer o que fosse necessário para manter ancoradas as expectativas inflacionistas. Anunciou subidas das taxas de juro oficiais e reiterou a decisão já tomada de descontinuar o programa de compras líquidas de dívida.

 

Deste modo, num intervalo de poucas semanas, a presidente do BCE fez declarações que são em grande parte contraditórias e que reflectem a complexidade dos dilemas com que o BCE se está a debater.

 

Na verdade, quanto mais subir as taxas de juro oficiais para conter as tensões inflacionistas, mais intensas serão as pressões sobre o custo do financiamento das economias mais endividadas e maiores os riscos de fragmentação dos mercados do euro.

 

Lagarde referiu ainda que o BCE está a desenhar novos instrumentos para combater a fragmentação. No entanto, num contexto em que o BCE está a desactivar a sua política de QE [Quantitative Easing], não se vê como pode lançar instrumentos capazes de a combater, sem o risco de, por sua vez, enfraquecer a eficácia da própria política anti-inflacionista.

 

Uma explicação possível para estas declarações poderá estar numa tentativa de prolongar no tempo os efeitos das célebres declarações de Mário Draghi em 2012 – “whatever it takes”, embora agora num contexto macroeconómico profundamente diferente. Declarações que estiveram na origem de uma evolução em que o peso e a influência do BCE não cessaram de aumentar. Hoje a estabilidade do euro encontra-se ancorada ao BCE.

 

2. O que nos leva a duas questões que considero críticas. Porque é que o BCE se colocou numa posição que transcende a sua missão estatutária original e por quanto tempo é que vai poder continuar a assegurar a estabilidade da Europa do euro? A resposta passa por ter presente que no centro dos problemas que esta enfrenta se encontra a divisão da Zona Euro em dois grupos de economias: um grupo formado pelas economias excedentárias e mais competitivas; um outro, integrado pelas economias deficitárias, a braços com níveis elevados de endividamento. Situação que já existia quando o euro foi lançado, mas que se agravou nas últimas duas décadas.

 

Num mundo como o de hoje – em que os mercados financeiros movimentam massas crescentes de capitais que procuram de forma incessante rendimento e mais-valias – a tentação para testar a resiliência da Zona Euro é permanente.

 

Tal como antes do euro muitos investidores procuravam forçar a desvalorização das moedas mais débeis e obter ganhos cambiais especulativos, hoje procuram ganhos através da perda de valor das dívidas soberanas das economias mais vulneráveis.

 

Como resultado, em momentos de instabilidade ou de crise é sobre as economias mais vulneráveis do euro que incidem as pressões dos mercados, alargando os spreads entre os dois grupos e aumentando o risco de fragmentação.

 

3. Uma resposta sustentada a estes riscos terá de passar por crescimento e por convergência – económica, institucional, jurídico/regulamentar e operacional – de modo a aproximar estruturalmente os dois grupos. O que tanto depende do lançamento de programas de modernização por parte das economias que se debatem com bloqueamentos e desequilíbrios, como da implantação, a nível europeu, de uma plataforma institucional e jurídico/regulamentar capaz de – em articulação com a acção do BCE - assegurar um quadro de estabilidade financeira que favoreça o crescimento e a convergência.

 

A verdade é que a Europa do euro permanece politicamente bloqueada e incapaz de dar passos que fortaleçam a sua capacidade para absorver choques, sem estar dependente de complexas e sempre incertas negociações em situação de emergência. Enquanto a União Bancária continua por concluir, instrumentos críticos como o Fundo de Resolução, o Seguro de Depósitos e o Mecanismo de Estabilidade e Crescimento permanecem com uma capacidade operacional limitada.

 

Enquanto a União Bancária continua por concluir, instrumentos críticos como o Fundo de Resolução, o Seguro de Depósitos e o Mecanismo de Estabilidade e Crescimento permanecem com uma capacidade operacional limitada

Um dos obstáculos que trava novos passos decorre, como se sabe, do elevado nível de endividamento com que se debatem algumas economias. Situação que leva as economias excedentárias a não aceitar soluções que possam ser entendidas como partilha de responsabilidades em relação aos stocks de dívida acumulados. Mesmo quando as propostas minimizam os riscos de “moral hazard” e poderiam dar um impulso ao desenvolvimento de segmentos críticos dos mercados de capitais europeus.

 

Sem um movimento de convergência que aproxime os dois grupos de economias e sem a operacionalização efectiva de mecanismos de absorção de choques e de relançamento económico, a Zona Euro permanece vulnerável.

 

4. Foi neste quadro que o BCE de Mário Draghi preencheu o vazio criado pela ausência de decisões políticas e assumiu o papel de protector da estabilidade da Zona Euro, garantindo uma década de financiamento a baixo custo dos Estados do euro. Período em que os baixos níveis de inflação permitiram à política monetária adoptada pelo BCE – taxas de juro historicamente baixas e injecções maciças de liquidez – prosseguir dois objectivos em simultâneo: combater as pressões deflaccionárias e a ameaça de fragmentação.

 

Hoje, o contexto macroeconómico alterou-se radicalmente e as crescentes pressões inflacionistas vão pôr à prova a capacidade do BCE para prosseguir os dois objectivos que preocupam Christine Lagarde: por um lado, estabilizar os preços e ancorar as expectativas inflacionistas; por outro, combater com eficácia as pressões que ameaçam fragmentar os mercados do euro.

 

Sem a resolução dos bloqueamentos e dos desequilíbrios que travam o crescimento e a convergência e sem a reforma da plataforma institucional e jurídico/regulamentar que suporta o euro, a União Monetária vai permanecer sob a ameaça da fragmentação, à espera da próxima crise. A ser assim, o BCE vai prosseguir um caminho que conduz a uma perda crescente de autonomia da própria política monetária o que, a acontecer, acabará por atingir o euro.

 

Resta-nos assim esperar que Jean Monet continue a ter razão e que, como referiu: “os avanços políticos da Europa resultem da soma das soluções adoptadas para responder às crises”. Talvez a actual crise force a Europa do euro a avançar (?!).

 

Nota: Artigo escrito antes das recentes decisões do BCE, que me proponho abordar noutro dia.

 

Economista


OPINION

ECB - mission impossible

 

Without a convergence movement that brings the two groups of economies closer together and without the effective operationalisation of shock absorption and economic recovery mechanisms, the Eurozone remains vulnerable.

 

Joao Costa

July 25, 2022, 0:05

https://www.publico.pt/2022/07/25/opiniao/opiniao/bce-missao-impossivel-2014460

 

1. At the beginning of June, Christine Lagarde, president of the ECB – clearly alarmed by the rapid widening of spreads between Italian and German debt – stated that the ECB had the tools to act and prevent fragmentation of the Eurozone. More recently, in the face of rising inflationary pressures – intensified by the Russian invasion of Ukraine – he said the ECB was prepared to do whatever was necessary to keep inflationary expectations anchored. It announced official interest rate hikes and reiterated the decision already taken to discontinue the net debt purchase program.

 

Thus, within a few weeks, the President of the ECB has made statements that are largely contradictory and reflect the complexity of the dilemmas with which the ECB is struggling.

 

In fact, the higher the official interest rates to contain inflationary tensions, the more intense the pressures on the cost of financing the more indebted economies and the greater the risks of fragmentation of the euro markets.

 

Lagarde also said that the ECB is designing new instruments to combat fragmentation. However, in a context where the ECB is deactivating its Quantitative Easing policy, it does not see how it can launch instruments capable of combating it without the risk of weakening the effectiveness of the anti-inflationary policy itself.

 

One possible explanation for these statements may be in an attempt to prolong in time the effects of Mario Draghi's famous statements in 2012 – "whatever it takes", although now in a profoundly different macroeconomic context. Statements which led to developments in which the ECB's weight and influence have not ceased to increase. Today the stability of the euro is anchored to the ECB.

 

2. Which brings us to two issues which I consider critical. Why has the ECB put itself in a position that transcends its original statutory mission and how long will it be able to continue to ensure the stability of the Euro Europe? The answer is to note that at the heart of the problems it faces is the division of the Eurozone into two groups of economies: a group made up of surplus and more competitive economies; one, integrated by deficit economies, into arms with high levels of indebtedness. This situation that already existed when the euro was launched, but which has worsened in the last two decades.

 

In a world like today – where financial markets move growing masses of capital that are constantly seeking income and capital gains – the temptation to test the resilience of the Eurozone is permanent.

 

As before the euro many investors sought to force the devaluation of the dandest currencies and obtain speculative exchange gains, today they are looking for gains by losing the value of the sovereign debts of the most vulnerable economies.

 

As a result, in times of instability or crisis it is about the most vulnerable economies in the euro that focus on market pressures, widening spreads between the two groups and increasing the risk of fragmentation.

 

3. A sustained response to these risks will have to undergo growth and convergence – economic, institutional, legal/regulatory and operational – in order to structurally bring the two groups together. This depends so much on the launch of modernisation programmes by economies struggling with blockage and imbalances, as well as the deployment at European level of an institutional and legal/regulatory platform capable of ensuring a financial stability framework that favours growth and convergence at European level.

 

The truth is that the euro Europe remains politically blocked and unable to take steps to strengthen its ability to absorb shocks, without being dependent on complex and always uncertain emergency negotiations. While the Banking Union remains unfinished, critical instruments such as the Resolution Fund, Deposit Insurance and the Stability and Growth Mechanism remain with limited operational capacity.

 

While the Banking Union remains unfinished, critical instruments such as the Resolution Fund, Deposit Insurance and the Stability and Growth Mechanism remain with limited operational capacity

One of the obstacles that is taking new steps is, as we know, from the high level of indebtedness with which some economies are struggling. This situation leads surplus economies not to accept solutions that can be understood as sharing responsibilities in relation to accumulated debt stocks. Even when the proposals minimise the risks of "moral hazard" and could give a boost to the development of critical segments of European capital markets.

 

Without a convergence movement that brings the two groups of economies closer together and without the effective operationalisation of shock absorption and economic recovery mechanisms, the Eurozone remains vulnerable.

 

4. It was in this context that Mario Draghi's ECB filled the void created by the absence of political decisions and assumed the role of protector of the stability of the Eurozone, ensuring a decade of low-cost financing from euro states. During a period when low inflation levels have enabled the ECB's monetary policy – historically low interest rates and massive liquidity injections – to pursue two objectives at the same time: tackling deflationary pressures and the threat of fragmentation.

 

Today, the macroeconomic context has changed radically and rising inflationary pressures will test the ECB's ability to pursue the two objectives of Christine Lagarde' concern: on the one hand, stabilising prices and anchoring inflationary expectations; on the other hand, to effectively combat pressures that threaten to fragment the markets of the euro.

 

Without the resolution of the blockage and imbalances that are holding back growth and convergence and without the reform of the institutional and legal/regulatory platform supporting the euro, monetary union will remain under the threat of fragmentation, waiting for the next crisis. In the meantime, the ECB will continue on a path that leads to a growing loss of monetary policy autonomy, which will eventually hit the euro.

 

We can therefore hope that Jean Monet will remain right and that, as he said, "Europe's political advances result from the sum of the solutions adopted to respond to crises". Perhaps the current crisis will force europe from the euro to move forward (?!).

 

Note: Article written before the recent ECB decisions, which I propose to address on another day.

 

Economist


Sem comentários: