Resolver a questão dos fogos? É a economia, estúpido!
Se não houver forma de tirar dinheiro de um pinhal, ele
está condenado a ser pasto para as chamas.
João Miguel
Tavares
27 de Agosto de
2022, 0:26
https://www.publico.pt/2022/08/27/opiniao/opiniao/resolver-questao-fogos-economia-estupido-2018371
A minha mulher
cresceu perto de Proença-a-Nova, e no Verão nós vamos sempre passar uns dias em
família ao Pinhal Interior. Adoro passear pelo meio da floresta, e como saberá
qualquer pessoa que se dedique a semelhante exercício, não é muito diferente de
circular pelo meio de um paiol. Uma chama, e bum – temos cobertura televisiva
garantida por cinco dias. O facto de aquelas florestas arderem não é um azar.
Pelo contrário: o facto de elas não arderem durante, digamos, dez anos, é que é
muita sorte.
Qualquer pessoa
que viva no interior do país aprendeu há muito que o ciclo do fogo tem uma
pontualidade admirável, e é bastante simples de seguir: após um grande
incêndio, espera-se sete ou oito anos, e arde tudo outra vez. Claro que todos
somos peritos em encontrar culpados que explicam as razões destas tragédias à
velocidade de um fósforo: os incendiários, os pinheiros, os eucaliptos, os
lóbis da madeira, os vendedores de Canadairs, os proprietários que não limpam
as terras, os autarcas incompetentes, os bombeiros amadores, o diabo a quatro.
O melhor que se consegue em matéria de pensamento original é mesmo ir
alternando entre um culpado e outro. E isto ano após ano, fogo após fogo. É um
pouco cansativo.
Notem: eu também
já fiz parte do clube do dedo em riste, e aqueles culpados até podem ter alguma
culpa. Mas são actores secundários num grande drama nacional. Ao fim de anos de
seca, altas temperaturas e incêndios descontrolados, temos obrigação de perceber
um pouco mais do assunto e pôr em prática aquela sábia máxima que nos aconselha
a aceitar o que não se pode mudar, a mudar o que pode ser mudado, e a discernir
entre uma coisa e outra.
Eis o que não
pode ser mudado: incêndios catastróficos num país com esta floresta, este
clima, esta geografia e esta distribuição da população. Num interior
envelhecido e despovoado, com manchas florestais intermináveis, com o
território dividido em milhões de parcelas e uma geografia de cabeços,
outeiros, cumeadas e infinitos declives, é impossível controlar o fogo. Exigir
às pessoas que limpem esses terrenos só pode ser uma invenção de quem nunca
visitou uma floresta da Beira. As estradas têm de ser limpas, claro – e não
são, porque até esse é um trabalho hercúleo e caro. Os terrenos à volta das
aldeias e das casas têm de ser limpos pelos proprietários. Mas limpar a
floresta? Ridículo. É fazer leis para não serem cumpridas.
Eis o que pode
ser mudado: a forma de gerir a floresta, tendo como ponto de partida a sua
racionalidade económica. Se não houver forma de tirar dinheiro de um pinhal,
ele está condenado a ser pasto para as chamas. As florestas são lindas?
Precisamos do seu oxigénio? Impedem a erosão dos terrenos? Melhoram a qualidade
da água? São fundamentais para o turismo? Então o país tem de as pagar. É para
isso que serve o Estado – intervir quando há evidentes falhas de mercado. Em
vez de estourar milhares de milhões na TAP, onde abunda a concorrência,
invista-se na gestão da floresta, seja a subsidiar carvalhos, pastores, cabras,
ovelhas ou até a abater árvores, se se concluir que há floresta a mais e não é
possível tomar conta dela. Isto é certo: quem pode salvar a floresta portuguesa
não são bombeiros de mangueira na mão. São políticos lúcidos e corajosos, que saibam
acertar nas leis e nos incentivos. É uma injustiça apontar o dedo a quem
combate as chamas, continuando a ignorar quem todos os anos, pela sua
passividade, mete a madeira ao lume.


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