sexta-feira, 26 de agosto de 2022

Aquilo que falta – e sempre faltou – às elites portuguesas

 



OPINIÃO

Aquilo que falta – e sempre faltou – às elites portuguesas

 

Não pretendo que as elites sejam abolidas – pelo contrário, desejo que sejam transformadas, para que um dia possam estar à altura do seu nome.

 

João Miguel Tavares

25 de Agosto de 2022, 0:31

https://www.publico.pt/2022/08/25/opiniao/opiniao/falta-faltou-elites-portuguesas-2018227

 

Peguemos no exemplo de um dos mais admirados políticos do século XX: Winston Churchill. Há um par de anos li a magnífica biografia que Andrew Roberts escreveu sobre ele, e lembro-me de ficar espantado com a forma destemperada como Churchill exibia os seus privilégios e a convicção de que caminhava pelo mundo alguns metros acima do comum dos mortais. No livro havia uma bela citação de Lord Birkenhead, que tratei de anotar: “Estava mentalmente escudado da incerteza sobre si mesmo.” Churchill era um membro da elite britânica e assumia ostensivamente o seu elitismo.

 

A assunção do privilégio vinha acompanhada de uma profunda dimensão moral, que se traduzia em deveres claros para com o povo como um todo, e para a pátria em particular. O império britânico tinha o direito de esperar uma vida de serviço dessa aristocracia

 

À partida, isso tinha tudo para me irritar. Odeio narizes empinados e não tenho a menor paciência para quem se julga acima dos outros. Mas, de caminho, a biografia de Roberts traçava um retrato da aristocracia inglesa do século XIX, no pináculo do império britânico, e fazia uma distinção muito precisa acerca do significado da palavra “privilégio”. Sim, a superioridade social era aceite sem pudor – aliás, ela está inscrita nas casas dos bairros ricos, com a famosa divisão upstairs/downstairs –, só que esse elitismo, na sua melhor expressão, não atirava pela janela os deveres para ficar apenas a usufruir dos direitos. A assunção do privilégio vinha acompanhada de uma profunda dimensão moral, que se traduzia em deveres claros para com o povo como um todo, e para a pátria em particular. O império britânico tinha o direito de esperar uma vida de serviço dessa aristocracia, e homens como Churchill e tantos outros serviram, de facto, muitas vezes até à morte, em inúmeras batalhas do século XIX, e depois nos campos da Primeira e Segunda Guerras Mundiais.

 

Os que defendem, como eu, a existência de um elevador social justo e eficaz, têm de acreditar também num lugar para onde as pessoas se elevem

 

Sempre que resmungo contra as elites portuguesas, como já resmungavam no século XIX muitos dos que escreviam nos jornais, o meu protesto e frustração são sinceros, mas não gostava que fossem confundidos com qualquer espécie de populismo – como se de um lado estivesse o povo “puro” e do outro a elite “impura”, condenados a um conflito destrutivo. Quem acredita nisso é marxista. Os que defendem, como eu, a existência de um elevador social justo e eficaz, têm de acreditar também num lugar para onde as pessoas se elevem. Esse lugar chama-se “elite”, e idealmente deveria acolher aqueles que, pela força do trabalho e do seu mérito, conseguem ascender até ela. Não pretendo que as elites sejam abolidas – pelo contrário, desejo que sejam transformadas, para que um dia possam estar à altura do seu nome, e comecem a fabricar os seus Churchill.

 

O grande problema das elites nacionais é não produzirem esse modelo de gente, ou não o produzirem em suficiente número, ou produzirem-no apenas para exportação, desde logo porque nada têm a ver com o ideal aristocrático que Andrew Roberts descreve no seu livro. É uma elite de privilégios que não se traduz em deveres para com a sociedade, e que procura barricar-se dentro do pequeno círculo familiar e das amizades íntimas, de forma despudoradamente endogâmica e através de uma cultura de compadrio. É, digamos assim, uma elite de vistas curtíssimas, que produz uma sociedade civil fraca, pouco dinâmica, cheia de dependências e altamente resistente ao mérito alheio – já que ele é visto como uma ameaça ao statu quo, em vez de um criador de capital social capaz de resgatar o país ao seu recorrente ciclo de falência e pobreza. Tudo isto já foi dito e redito mil vezes. Ainda assim, vale sempre a pena repeti-lo, na esperança de que um dia a mudança aconteça.

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