OPINIÃO
Vergonha climática
João Pedro Matos
Fernandes e Tiago Brandão Rodrigues
Considerar o gás natural e o nuclear como sustentáveis
equivale a dizer que o setor financeiro deve continuar a financiar estes
projetos e que os fundos comunitários também o poderão fazer.
6 de Julho de
2022, 22:55
https://www.publico.pt/2022/07/06/azul/opiniao/vergonha-climatica-2012773
O Parlamento
Europeu não se opôs à desastrosa decisão da Comissão Europeia em considerar o
gás natural e a energia nuclear sustentáveis. Esta decisão é uma vergonha, um
sinal errado e um passo em frente no caminho do abismo.
Como é possível
que o Parlamento Europeu, que durante as negociações da Lei do Clima queria ir
mais longe e ser mais ambicioso, tome uma decisão como esta – que desdiz,
contraria e repudia até a política de há menos de dois anos do próprio
Parlamento – num tempo em que é ainda mais evidente, por causa da guerra, que a
aposta tem que ser em fontes renováveis?
A única boa
notícia é a de que todos os deputados portugueses presentes votaram no sentido
certo, reflexo da quase total unanimidade da sociedade portuguesa a favor das
energias renováveis, porque estas não geram emissões, não criam resíduos,
produzindo eletricidade mais barata e com preços previsíveis.
A Europa, que com
a Lei do Clima assumiu a liderança e se comprometeu a ser o primeiro continente
neutro em carbono no mundo, faz um flic flac à retaguarda e vem agora dizer
“estávamos a brincar”.
Considerar o gás
natural e o nuclear como sustentáveis equivale a dizer que o setor financeiro
deve continuar a financiar estes projetos e que os fundos comunitários também o
poderão fazer. Isto é mais do que inaceitável e, desculpem se nos repetimos, é
uma vergonha.
Não propomos que
se invadam as decisões soberanas dos Estados em relação à sua política
energética. Querem fazer centrais nucleares cujo preço e tempo de construção
levará à subsidiação perversa da eletricidade produzida por estar fora do preço
do mercado? Que o façam, mas não lhes chamem sustentável nem coloquem dinheiro
dos contribuintes comunitários na sua construção.
É necessário,
pelo menos durante 20 anos, reforçar o abastecimento de gás natural na Europa?
Sim, mas que as novas infraestruturas sejam já construídas por forma a poderem
ser usadas por gases renováveis, nunca e apenas só para o gás natural.
Sabemos todos bem
o que tem de ser feito para que o planeta não aqueça para além dos 1,5 graus
Celsius da temperatura que existia aquando do início da era industrial. E é
óbvio que os fluxos financeiros têm que ser dirigidos para os investimentos
certos, em renováveis e no seu armazenamento. É também evidente que cabe aos
políticos tomar as decisões certas e corajosas para que a mudança aconteça.
Esta vergonhosa
decisão do Parlamento Europeu e da Comissão são parte do caminho para a
extinção de uma espécie: a nossa. Não há outra forma de o escrever.
É muito curiosa a
notícia de hoje, na qual o Governo francês se vê obrigado a comprar a parcela
de 16% de capital privado da EDF (Eletricidade de França) para investir no
nuclear. É que os privados, preocupados com o seu dinheiro, sabem que essa
opção é um perfeito disparate.
A esperança está
numa opinião pública cada vez mais exigente, em governos como o português, que
não vacilam na sua estratégia em favor das renováveis, e nas empresas, que,
preocupadas com os seus custos, as suas cadeias de abastecimento e com o
mercado, rejeitam os combustíveis fósseis ou o embuste de um “nuclear amigo”.
Os autores
escrevem segundo o novo acordo ortográfico

Sem comentários:
Enviar um comentário