EDITORIAL
Um ditador que não deixa saudades
José Eduardo dos Santos foi um ditador que se serviu do
Estado em seu favor e dos seus correligionários, deixando num país
potencialmente rico um rasto abjecto de miséria
Manuel Carvalho
8 de Julho de
2022, 21:30
https://www.publico.pt/2022/07/08/mundo/editorial/ditador-nao-deixa-saudades-2013045
Todos te amam
quando estás morto é o título de uma canção dos The Stranglers e de um livro de
Neil Strauss. As declarações oficiais de políticos portugueses a propósito do
falecimento de José Eduardo dos Santos confirmaram essa quase-verdade. A perda
de uma vida justifica sempre lamento e afecto, mas, no caso de um governante
que determinou o infortúnio de milhões de angolanos em 38 anos de poder
autocrático, obriga também a uma reflexão e a uma avaliação política do seu
legado. Aqui chegados, só pode haver uma tese: José Eduardo dos Santos foi um
ditador que se serviu do Estado em seu favor e dos seus correligionários,
deixando num país potencialmente rico um rasto abjecto de miséria.
Compreendem-se as
obrigações protocolares a que Marcelo Rebelo de Sousa, António Costa ou Cavaco
Silva, que lhes impõem palavras de conforto institucional; percebe-se o elogio
do PCP transmitido por Jerónimo de Sousa, que deixa, uma vez mais, transparecer
a natureza autocrática das suas referências e valores; mas os que se batem
pelos direitos humanos, pela justiça social ou pela democracia só podem ter
palavras críticas relativamente a José Eduardo dos Santos.
Se nos primeiros
anos teve de reparar as feridas do mandato repressivo de Agostinho Neto, se
há-de ter os seus méritos na celebração dos acordos que encerraram uma longa e
brutal guerra civil, depois daí foi o que foi: um déspota que baseou o seu
poder na compra de lealdades com os recursos nacionais e reprimiu com mão de
ferro os que o ousavam criticar.
Não adianta
temperar este julgamento com as vicissitudes da democracia em África, com os
problemas que o petróleo causa nos países subdesenvolvidos ou afirmar, numa
hipótese de absurda contrafactualidade, que poderia ter sido pior. As misérias
de Angola são o que são principalmente porque durante quase quatro décadas
foram alimentadas pela cleptocracia que gravitou em torno do Presidente.
Até porque Angola
tinha muito mais potencial para a estabilidade, a democracia e a equidade
social do que a maior parte dos seus vizinhos. Tem quadros, tem um potencial
agrícola enorme, tem recursos minerais e tem petróleo. José Eduardo dos Santos
nada fez para dinamizar este potencial. As riquezas do subsolo eram mais do que
suficientes para a vida obscena que a sua elite levava em Luanda ou em Lisboa.
No momento da sua
morte, há poucas razões políticas para condescender. Não se pode considerar
normal que 60% da população viva reprimida com menos de dois euros por dia,
enquanto uma pequena elite se pavoneia nas lojas caras da Europa ou bebe
Roederer Cristal nas mesas de mármore do MPLA.

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