domingo, 3 de julho de 2022

The deadly ideology behind many far-right terrorist attacks: Interview with Cas Mudde | DW News / Observar o Observador / A Grande Substituição


 

OPINIÃO

Observar o Observador

 

O artigo A Grande Substituição tem uma relevância e só por isso vale a pena falar dele: traz para a imprensa uma teoria que, mais do que ser de extrema-direita, é efetivamente nazi e tem sido inspiração para atentados terroristas e massacres.

 


Carmo Afonso

29 de Junho de 2022, 0:45

https://www.publico.pt/2022/06/29/opiniao/opiniao/observar-observador-2011765

 

O Observador publicou um artigo de opinião, de Lucas Claro, com o título A Grande Substituição, e com conteúdo à altura do título, cuja leitura nem recomendo. Pretende o autor, segundo referiu, que se inicie em Portugal o debate à volta deste tema.

 

De que estamos a falar?

 

A mais fina flor da extrema-direita europeia e os supremacistas brancos nos Estados Unidos, de forma clara, têm chamado a atenção para um problema que os preocupa e que assusta o autor do artigo: pelo andar da carruagem, qualquer dia estamos todos misturados e perdemos a pureza dos nossos genes. Nas palavras de Lucas Claro: “(...) uma população que em momento algum foi consultada sobre se efetivamente desejava tornar-se uma minoria no seu próprio país.”

 

A que população se referirá o autor?

 

Não será certamente aos portugueses. Não parece estar aqui em causa o critério da nacionalidade. O autor aponta o número de estrangeiros que obtiveram a nacionalidade portuguesa durante o ano de 2020 (149.157) e mais adiante continua, implicitamente, a incluí-los no universo dos estrangeiros a residir em Portugal. Chama ainda a atenção para o facto de os sucessivos governos não serem claros relativamente ao número de estrangeiros a residir por cá. Uma espécie de: “eles não têm coragem de nos contar o perigo que corremos”.

 

A população que merece os cuidados dos adeptos desta teoria são os nacionais de origem certificada, os caucasianos, os tugas puro-sangue no nosso caso ou os eurodescendentes no caso dos Estados Unidos. Seria interessante averiguar se consideram um luso-descendente, com nacionalidade estadunidense, como estando incluído no grupo a preservar ou como fazendo parte da ameaça estrangeira.

 

O artigo tem mais pérolas como a de se referir ao Martim Moniz como “bairro histórico da nossa Capital” em vez de praça. Fala também em alfacinhas de gema. Certo. É uma pessoa que aprecia os portugueses, e os que vivem em Portugal, como se apreciam as peças de um carro: deve saber-se se são de origem.

 

Mas o artigo em causa tem uma relevância e só por isso vale a pena falar dele: traz para a imprensa uma teoria que, mais do que ser de extrema-direita, é efetivamente nazi e tem sido inspiração para atentados terroristas e massacres. Nada como avançarmos firmes, mesmo que seja na direção do abismo. Ficou escrito preto no branco. Corrijo: como é no Observador ficou branco no preto. Têm essa opção.

 

Aos portugueses que possam estar preocupados com a substituição da nossa estirpe ou com a sua diluição através de misturas ou cruzamentos com outras, tenho a dizer algumas coisas.

 

Reparem que aqueles que se consideram a pura representação dos nossos genes portugueses não são pessoas particularmente beneficiadas pela inteligência. Imaginem um país onde predominassem pessoas como o autor do artigo em causa. É que mesmo sem saber quem é, ou o que faz, deve temer-se o pior.

 

Temos várias minorias neste país. Desses, a única que realmente nos pode preocupar é a formada por fascistas, racistas e, está à vista que também os há, nazis. São os que verdadeiramente atentam contra uma coisa que conquistámos e que é preciosa: a democracia. São os que incitam ao ódio e à discriminação. Detestam minorias, mas são eles próprios a minoria detestável.

 

Outro aspecto para que chamo a vossa atenção é o facto de sermos um povo de emigrantes e, por isso, alvo de preconceitos e discriminação como estes que sustentam a esta teoria. Não é um privilégio ser português em Paris ou no Luxemburgo, deixemo-nos de ilusões. O melhor que conseguimos é ser considerados trabalhadores e honestos. Está aqui implícito um juízo sobre a nossa pretensa inferioridade. É uma pequena – mesmo pequena – amostra do que sofrem as pessoas racializadas perante estes nazis. Mas a semente do mal, a de estabelecer diferenças, está lá.

 

E este mal está sempre relacionado com pobreza. Por alguma razão se fala sempre do Martim Moniz ou de São Teotónio e Odemira. É onde estão os imigrantes pobres. O cheiro a caril na Mouraria ou no Alentejo incomoda, mas os estrangeiros ricos, que contribuíram para a expulsão dos velhos residentes de Alfama, não merecem destaque.

 

Por alguma razão se fala sempre do Martim Moniz ou de São Teotónio e Odemira. É onde estão os imigrantes pobres

Somos uma comunidade e o mal está entre nós da mesma maneira que está em nós mesmos. E temos mesmo de lidar com isso. Pergunto-me o que leva o Observador, do qual sou assinante, a publicar uma coisa desta natureza. E fico sem respostas. Nenhuma satisfaz e nenhuma tranquiliza.

 

A autora é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico

 

Advogada

 

A Grande Substituição

 

Os sucessivos governos conseguiram sempre mascarar o verdadeiro número de estrangeiros em Portugal e afirmar, seriamente, que “a população estrangeira a residir em Portugal não é mais que 5 ou 10%”.

 


Lucas Claro

25 jun 2022, 00:01

https://observador.pt/opiniao/a-grande-substituicao/

 

Durante a primeira ronda das recentes eleições presidenciais francesas, este conceito de Grande Substituição esteve bastante presente nos discursos e políticas dos candidatos. Eric Zemmour fez questão de se apresentar como o candidato que poderia travar este fenómeno sociológico, já Mélenchon, candidato de extrema-esquerda, prefere o termo “Creolização”, e afirma que estas alterações profundas na demografia francesa e europeia são benéficas e desejáveis.

 

Nos Estados Unidos, o país que livremente publica censos raciais, a população eurodescendente está a poucas décadas de se tornar numa minoria. Portanto, este tipo de fenómeno em ambos os países não é uma conspiração ou um mito, é um facto. Em Portugal, o país que se gosta de apresentar como a “exceção europeia” neste tipo de questões, a ideia de que efetivamente está em curso uma mudança demográfica não é levada a sério pela maioria dos Portugueses, quiçá por uma falta de sensibilização para o tópico, uma vez que, em Portugal, ao contrário do resto dos países da Europa e do Mundo, o debate sobre a imigração foi sempre suprimido ao som de rótulos e chavões insultuosos, que mascaravam, por parte da esquerda e de grande parte da direita portuguesa, uma total inabilidade, assim como falta de vontade de debater seriamente estes fenómenos migratórios. O resultado é uma população que em momento algum foi consultada sobre se efetivamente desejava tornar-se numa minoria no seu próprio país.

 

Através da concessão em larga escala da cidadania Portuguesa, segundo o DN: “Em 2020 foi atingido o número mais alto de sempre na concessão da nacionalidade: 149 157 pessoas”. Os sucessivos governos conseguiram sempre mascarar o verdadeiro número de estrangeiros em Portugal e afirmar, seriamente, que “a população estrangeira a residir em Portugal não é mais que 5 ou 10%”.

 

Zonas inteiras de Lisboa são, hoje em dia, praticamente irreconhecíveis como parte de Portugal. O Martim Moniz é o exemplo perfeito disso. Qualquer turista, ou até mesmo qualquer alfacinha de gema que se aventure por esse bairro histórico da nossa Capital, depressa irá concluir que essa zona em nada se assemelha ao resto de Portugal. O mesmo pode ser dito de Odemira, Amadora e outras zonas totalmente descaracterizadas do nosso país. E quais os benefícios de uma substituição demográfica massiva dos Portugueses?

 

O objetivo deste texto prende-se sobretudo com o desejo de, à semelhança do resto dos países europeus, abrir o debate sobre estas dinâmicas. De questionarmos o rumo que estamos a tomar antes que seja tarde demais para revertermos o seu curso.  Os Portugueses devem informar-se seriamente e considerar se o país que vão deixar para os seus filhos, netos e bisnetos, vai ser melhor ou pior do que aquele que receberam dos seus pais, avós e bisavós.

 

Um esclarecimento necessário

A publicação deste texto no Observador suscitou controvérsia o que nos leva a esclarecer que os artigos publicados neste espaço de opinião apenas vinculam os seus autores e não podem ser confundidas com os nossos valores, claramente expressos – e assumidos, o que é raro em Portugal – no nosso Estatuto Editorial.

 

Aliás sobre este tema já foram publicados nas recentes semanas e nas nossas páginas dois outros textos, o primeiro de uma colaboradora regular, o segundo de um autor não regular, sendo que ambos denunciam a teoria da “grande substituição”.

 

Os nossos valores estabelecem claramente que “o Observador coloca a liberdade no centro das suas preocupações e defende uma sociedade aberta, com instituições respeitadoras da lei e dos direitos individuais”, sendo que “acreditamos que o desenvolvimento harmonioso tem de ser inclusivo e não deixar ninguém para trás”. São valores que naturalmente reafirmamos.

 

José Manuel Fernandes

Publisher do Observador


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