CRÓNICA
Mário Ferreira: a ascensão dos novos empresários do
regime
Em bom português: Mário Ferreira é tudo menos parvo. O
problema está em saber se não será demasiado esperto.
João Miguel
Tavares
6 de Julho de
2022, 21:41
Ninguém pode
negar a capacidade empreendedora de Mário Ferreira e o talento para ganhar
dinheiro, que o levou a apostar no negócio dos cruzeiros e a construir de raiz
um grupo que há dois anos foi avaliado em 625 milhões de euros, após o fundo
americano Certares pagar 250 milhões por 40% da Mystic Invest.
No negócio da
TVI, Mário Ferreira conseguiu passar a perna aos espanhóis da Prisa (que vendeu
o grupo a preço de saldo) e ao próprio Paulo Fernandes (dono da Cofina), que
não é propriamente um anjinho, e que começou por ser seu sócio na compra da
Media Capital, em finais de 2019. Nessa altura, o preço chegou a estar fechado
nos 255 milhões de euros, mas à boleia de hesitações e da pandemia, o negócio
caiu por terra — e Mário Ferreira, num surpreendente golpe de bastidores,
deixou Paulo Fernandes para trás e apareceu sozinho a comprar 30% da Media
Capital por 10,5 milhões de euros, através da sua holding Pluris Investments,
uma posição que mais tarde reforçaria para os 35%, graças a uma OPA que lhe
custou mais 3,2 milhões.
Tudo somado, o
empresário dos cruzeiros ficou dono e senhor da Media Capital com um
investimento abaixo dos 14 milhões de euros, quando poucos meses antes se
preparava para desembolsar 20 milhões por menor percentagem da empresa e sem
ficar com o controlo do grupo. Já no início deste ano, a Media Capital vendeu
as suas rádios aos alemães da Bauer Media por 70 milhões de euros. É fazer as
contas: 35% disso dá 24,5 milhões, o que significa que em menos de dois anos
Mário Ferreira pagou a totalidade do investimento na Media Capital, ficou com a
TVI para si e ainda lucrou 10 milhões, que pôde aplicar pacatamente na CNN
Portugal, outro negócio que parece estar a correr-lhe bem.
Em bom português:
Mário Ferreira é tudo menos parvo. O problema está em saber se não será
demasiado esperto. O negócio do navio Atlântida deixa dúvidas quanto a isso:
primeiro, ele foi avaliado em 50 milhões de euros; depois, foi vendido pela
comissão liquidatária dos Estaleiros de Viana do Castelo a um armador grego por
12,8 milhões; finalmente, foi parar às mãos de Mário Ferreira por 8,75 milhões,
porque o grego nunca chegou a dar sinais de vida e a segunda melhor proposta
era a sua. Daí a seis meses, o mesmo Atlântida acabou vendido a uma empresa
norueguesa por 18 milhões de euros. Num passe de mágica, mais 10 milhões para o
bolso de Ferreira. Só que, desta vez, o fisco não gostou.
Mário Ferreira
queixa-se de perseguição. Na sequência do negócio da TVI, ele zangou-se com o
velho amigo Paulo Fernandes. Chamou-lhe um “mafioso de meia tigela”, porque
desde então o grupo Cofina, com o Correio da Manhã à cabeça, não lhe tem dado
descanso — o que é verdade. Resta saber se tem boas razões para isso.
As ajudas
exorbitantes do Banco de Fomento à Pluris, no valor de 40 milhões de euros, não
nos deixam descansados: 1) A “condição preferencial” do programa era que o
montante por empresa não excedesse os 10 milhões de euros. 2) Diogo “o melhor
amigo do PM” Lacerda Machado está outra vez na órbita das notícias, agora como
administrador não executivo da Pluris Investments. 3) Os 40 milhões, segundo o
próprio Mário Ferreira, vão ser utilizados integralmente no aumento de capital
da Mystic Cruises — no entanto, o dinheiro não foi atribuído aos barcos, mas
sim à holding, que também detém a TVI. Pode tudo isto ser apenas uma
coincidência? Poder, pode. Mas quem é que nesta terra ainda acredita no Pai
Natal?


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