EDITORIAL
A longa guerra pelo futuro está para começar
Os autocratas russos vão certamente reprimir todos os
sinais de descontentamento da sua população. As democracias europeias terão
outras dificuldades.
Manuel Carvalho
10 de Julho de
2022, 21:40
https://www.publico.pt/2022/07/10/mundo/editorial/longa-guerra-futuro-comecar-2013168
A Rússia está
cada vez mais perto de conseguir os seus objectivos militares na Ucrânia. Já
não está em causa a queda do Governo de Volodymyr Zelensky e a sua substituição
por um executivo fantoche manipulado pelo Kremlin, como a primeira fase da
“operação militar especial” indicava. Como revelou sem qualquer pudor o
embaixador de Moscovo em Londres, a Rússia parece para já ficar contente com o
controlo de um quinto da área actual da Ucrânia.
O que está em
causa é o controlo do Donbass, a zona mais rica em matérias-primas, na produção
industrial e na agricultura, e um corredor junto ao mar Negro que garante a
continuidade territorial da Rússia até à Crimeia. Mas não é de afastar a
possibilidade de Moscovo levar as suas conquistas até ao Dniepre, como
aconteceu quando o país foi partilhado com a Áustria-Hungria, até ao final da I
Guerra Mundial.
Se a Ucrânia for
amputada de uma parte substancial dos seus territórios históricos, a Europa
estará condenada a viver uma longa era de Guerra Fria. A ocupação jamais será
aceite por Kiev, pela União Europeia e, em geral, pela NATO. As sanções vão
perdurar, a militarização da fronteira Leste da Europa será acelerada e a
Rússia tenderá a cortar os abastecimentos de energia ao Ocidente.
Como nos anos
duros do pós-guerra, a ameaça russa tenderá a reforçar o projecto europeu. Mas,
sejamos realistas, a eventualidade de o conflito actual se perpetuar num jogo
de nervos não augura nada de bom. O que acontecer nos próximos meses,
principalmente no Inverno, permitirá antecipar com maior nitidez os desafios
com os quais a Europa terá de lidar.
Se os custos das
sanções e o corte nos abastecimentos de gás à Europa vão agravar as debilidades
económicas da Rússia e submeter a sua população a maiores privações, sabemos
também que os europeus terão de sofrer um agravamento das suas condições de
bem-estar. As restrições no consumo de gás vão gerar dificuldades numa
população habituada a enfrentar as agruras do Inverno com a energia vinda da
Rússia. E os impactes na economia de países como a Alemanha, onde o gás é
essencial para a produção industrial, estão ainda por avaliar.
É neste confronto
que residem todas as incertezas. Os autocratas russos vão certamente reprimir
todos os sinais de descontentamento da sua população. As democracias europeias
terão outras dificuldades. Uma crise económica longa e o agravamento das
condições de vida são ameaças capazes de estimular soluções autoritárias e
extremistas. A guerra pode ficar em suspenso na Ucrânia, mas as suas
consequências imprevisíveis serão determinantes para o futuro próximo.


Sem comentários:
Enviar um comentário