OPINIÃO
PCP: ocultar que há um agredido e um agressor
Quem justifica, legitima, favorece, protege o PCP com o
seu discurso contorcido sobre a guerra? Os russos. Façam-nos justiça de
perceber que nós percebemos.
José Pacheco
Pereira
23 de Abril de
2022, 0:10
https://www.publico.pt/2022/04/23/opiniao/opiniao/pcp-ocultar-ha-agredido-agressor-2003549
Falar em guerra
sem nomear o agredido e o agressor, e tirar daí consequências, é colocar-se do
lado do agressor. Quem beneficia na apresentação neutral da “guerra”? O
agressor. Quem beneficia numa defesa da “paz” que trata os beligerantes como
iguais? O agressor. Quem fala em detalhe dos males de “uns” (os ucranianos) e
genericamente e sem pormenores dos males dos “outros” (os russos) não está do
lado da “paz”, mas da guerra. Quem justifica, legitima, favorece, protege o PCP
com o seu discurso contorcido sobre a guerra? Os russos. Toda a gente percebe,
a começar por muitos eleitores, simpatizantes e militantes do PCP, por isso é
que esta situação é devastadora para o PCP. Façam-nos justiça de perceber que
nós percebemos.
O problema do PCP
não é um remake do caso da Checoslováquia, como por aí se diz. Na invasão da
Checoslováquia, havia de um lado a URSS e do outro um processo que os
soviéticos consideravam ser de subversão do socialismo e do campo socialista. O
PCP podia entender que devia estar de um “lado” contra o outro, porque um dos
lados lhe era próximo ideológica e politicamente. Onde é que há hoje algo de
remotamente parecido com “o lado” da URSS?
O PCP diz que “o
lado” ucraniano é péssimo, mas diz também que não se identifica com “o outro”
lado com Putin. Se é assim, porque não trata “os dois lados” da mesma maneira e
se põe à margem? Se o conflito é entre a NATO e o regime de Putin, que é para
todos os efeitos igualmente maléfico, por que razão o PCP acaba encostado a um
dos lados, sempre pronto para o justificar pela equivalência? Por que razão,
entre aquilo que considera o militarismo da NATO e a “violação do direito
internacional” por Putin (um gigantesco eufemismo), entre o lado agressivo da
NATO e o autocrata belicista, o PCP sente-se mais confortável com o segundo,
que protege até pela terminologia cautelosa e moderada com que o trata?
Façam-nos justiça de perceber que nós percebemos.
Nem a Polónia, em 1939, nem a Ucrânia, em 2022, eram
democracias perfeitas, mas havia um agressor e um agredido
Não adianta vir
com a história de que a “guerra” começou em 2014, porque esta de que estamos a
ser testemunho começou em 2022. E, em 2022, não há um único factor que
justifique a invasão da Ucrânia, não há motivo forte, nenhuma provocação,
nenhum acto novo de envolvimento da NATO, nenhuma colocação de tropas
americanas na fronteira, nenhum exercício militar conjunto, nenhuma manobra
daquelas que se usam para preparar uma invasão. Nem pouco nem muito, não há
mesmo. Façam-nos justiça de perceber que nós percebemos.
Vamos admitir que
o que Putin diz é verdadeiro (quase nada é…) e que a Ucrânia é governada por
nazis (falso, embora haja demasiados nazis na Ucrânia como na Rússia, e na
Europa, os que Putin financia), que são corruptos (verdade, como na Rússia os
amigos de Putin), que reprimem o russo e a cultura russa no Donbass (em parte
verdade), que perseguem os partidos pró-russos (idem), que assassinaram muitos
ucranianos pró-russos (os números são fantasiosos, mas havia uma guerra de
fronteiras em curso com a intervenção da Rússia), que querem entrar para a NATO
(querer, querem, só que a NATO não os aceitou), e que desde 2014 existe uma
guerra escondida naquela parte do mundo (que, se houvesse, seria conforme o
direito internacional, depois da anexação da Crimeia e do apoio às milícias
pró-russas no Donbass). Pelo contrário, os países ocidentais da agressiva NATO
engoliram a conquista territorial russa da Crimeia com o rabo entre as pernas.
Nem disso Putin se pode queixar. Façam-nos justiça de perceber que nós percebemos.
Mesmo que se
admita tudo isto (insisto que não é verdade a maioria das coisas), que o PCP
repete numa lógica que só serve para a legitimação da invasão, o que é que
aconteceu de muito grave em 2022 que levou Putin a preparar, negar e depois
começar uma invasão maciça da Ucrânia? Nada. É uma pura agressão, uma pura
guerra de grande escala que inclui desde início a ameaça do nuclear, o ataque a
civis (incontroverso em geral, mesmo que nalguns casos possa haver montagens),
e o PCP vem agora falar com neutralidade de uma “guerra” com dois lados
igualmente culpados, um muito mais do que outro, o do agredido. Tretas.
Façam-nos justiça de perceber que nós percebemos.
O PCP, enfraquecendo-se por culpa própria, fez um enorme
favor à direita radical, e não é pelo encolhimento do voto dos comunistas, mas
pelo enfraquecimento do movimento sindical em particular
A atitude do PCP
não afecta apenas o PCP, afecta a saúde da democracia muito para além do
partido. Permitiu à direita radical encontrar um adversário a jeito e o que
deseja é a ilegalização do PCP. Não o diz, por falta de coragem, mas é o que
está lá. E o PCP, enfraquecendo-se por culpa própria, fez um enorme favor à
direita radical, e não é pelo encolhimento do voto dos comunistas, mas pelo
enfraquecimento do movimento sindical em particular.
Pode-se afirmar
que a CGTP segue a estratégia do PCP, politiza as lutas a favor da ideologia e
política do PCP, tem uma visão marxista da sociedade e da “luta de classes”,
pode-se dizer isto tudo, até porque é verdade. Mas com a crescente indiferença,
para não lhe chamar outra coisa, dos partidos sociais-democratas, PS e PSD,
sobre os direitos dos trabalhadores, um operário ameaçado de um despedimento
colectivo predador, um empregado de supermercado obrigado a condições de
trabalho degradantes que o Estado não controla como deve, uma trabalhadora
vítima de assédio, sem meios nem recursos para ir a um advogado, todos os que
são explorados por salários de miséria (sim, isto existe) e querem reivindicar
os seus direitos e a dignidade do trabalho, todos eles precisam de uma força
que encontravam num já muito debilitado movimento sindical e sem o qual não há
democracia. O PCP, para além de se ter perdido a si mesmo, acabou por fazer,
nas suas palavras, o maior frete possível ao “patronato”. Façam-nos
justiça de perceber que nós percebemos.
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