"Guerra" aberta entre Raquel Varela e Instituto
de História Contemporânea
Mafalda Gomes
SÓNIA PERES PINTO
22/09/2021 13:07
“Tenho muito menos artigos [no CV] do que na realidade
tenho e isso só me prejudica a mim”, garante ao i a historiadora.
A polémica entre
o currículo da historiadora de Raquel Varela e o Instituto de História
Contemporânea (IHC) está longe de ser pacífica. Em causa está a notícia do
Público que a acusa de “erros” no currículo, com repetições de artigos e
livros, que terão levado o IHC a retirar o apoio à sua candidatura à quarta
edição do Concurso de Estímulo ao Emprego Científico Individual, promovido pela
Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT). O concurso ainda a decorrer,
estando numa fase de avaliação das candidaturas, e na qual a investigadora
surge como “admitida”, candidatando-se a um contrato como investigadora
coordenadora, com um vencimento mensal de 4664,97 euros brutos.
Ao i Raquel
Varela não hesita: “As duplicações são automáticas e não implicam o aumento da produção
de artigos. Tenho muito menos artigos do que na realidade tenho e isso só me
prejudica a mim. Tenho muito mais publicações do que as que são referidas”. E
promete avançar com um processo judicial por difamação com o advogado António
Garcia Pereira.
A historiadora
lembra que a plataforma CIÊNCIAVITAE – o novo Currículo Científico português –
faz sincronizações automáticas que permitem eliminar as duplicações. “É um
problema dessa plataforma que é conhecida por todos os investigadores,
sobretudo de quem tem mais trabalho académico”.
Raquel Varela garante que “nunca um júri
considerou isso duas duplicações”, acrescentando que “tanto que os júris que
avaliaram o meu CV na FCT ao longo de anos sempre o avaliaram como muito ‘bom’
e ‘excelente’”. E dá exemplos: “Vou dar uma palestra que se chama “Quem paga o
Estado social”, depois publico um artigo que se chama “Quem paga o Estado
Social” e depois vou editar um livro que se chama “Quem paga o Estado Social”.
A plataforma vai duplicando isso, como se fossem entradas duplas. Nunca aparece
em momento algum publicações que não tenho. Pelo contrário, faltam dezenas de
artigos, publicações e atividades científicas nesse curriculum porque não tenho
paciência para atualizar, o que só me pode prejudicar a mim. Em vez de 50
artigos, na verdade tenho 71. Sou a pessoa que mais publicou na minha área, o
que me deu vários artigos”, refere ao i.
IHC fala em erros
No entanto, são
argumentos que não convencem o Instituto de História Contemporânea ao garantir
que “em função de erros identificados no currículo apresentado por Raquel
Cardeira Varela na sua candidatura à presente edição do Concurso para o
Estímulo ao Emprego Científico Individual, a Direção do IHC decidiu que o
Instituto não poderia continuar a ser a entidade de acolhimento científico
dessa candidatura. Os erros que levaram a esta decisão dizem respeito a números
de publicações apresentados no currículo”. E garante que esta decisão foi
“tomada após solicitarmos à candidata que procedesse à revisão do currículo que
apresentou a concurso e que nos esclarecesse a respeito de erros constantes do
mesmo”.
Para este efeito,
o IHC contactou a candidata nos dias 27 de julho, 10 de agosto, 6 de setembro e
10 de setembro. Na ausência de esclarecimentos satisfatórios, e de correção dos
números referidos no ponto anterior, no dia 13 de setembro, o IHC comunicou à
FCT que deixava de estar disponível para ser a instituição de acolhimento
científico da candidatura”, disse ao i. Raquel Varela garante, todavia, que
“nunca foi contactada pela FCT”.
A historiadora
lembra ainda que se desvinculou do IHC em final de agosto, juntamente com a sua
equipa. O IHC lembra que, a 10 de setembro, Raquel Cardeira Varela tomou a
iniciativa de pedir a sua desvinculação. “Esta circunstância, e o facto de o
IHC já não ser instituição de acolhimento da candidatura, levam-nos a dar por
concluída a nossa intervenção pública sobre este assunto”.
“Coincidência é no
mínimo estranha”
Esta “guerra”
surge três dias depois de Raquel Varela ter assinado um manifesto juntamente
com um conjunto de personalidades dos mais diversos quadrantes intelectuais e
ideológicos depois de o jornal Público ter decidido publicar um artigo de
opinião do médico Pedro Girão para, pouco depois, o retirar, dizendo que a
publicação fora um erro. “A notícia surgiu três dias depois do manifesto. A
coincidência é no mínimo estranha”, confessa ao i a historiadora.
Os subscritores
defendem que esta situação configura um caso de censura e que deve merecer uma
reflexão pública sobre temas como a liberdade de expressão, a liberdade
editorial e as denominadas “fake news”.
A historiadora
considerou os argumentos do jornal como “extremamente frágeis” e acrescentou “o
que se trata é de um ato de censura e a censura não faz bem à democracia”. E
foi mais longe: “Os diversos concidadãos subscritores desta carta pública
pretendem enfatizar que, independentemente da eventual divergência de opinião
que possa ou não existir sobre o conteúdo que o autor em causa expôs, a
liberdade de opinião e de expressão são direitos inalienáveis, sem poderem
jamais ser violados em qualquer circunstância. É na emergência de crises que
devemos defender, com maior vigor e rigor, os valores e padrões que prezamos e
que fizeram a sociedade que entrou no século XXI. Não podemos, não devemos
sacrificar a liberdade no altar da segurança, saúde ou biopolítica. A crise da
política – e do jornalismo – é um assunto do maior interesse público, e que
deve ser debatido livremente”.

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