PATRIMÓNIO
Património aprovou a requalificação do chalet do Jardim
da Estrela mas sem “desmonte integral”
Obra para transformar antiga creche do jardim da Estrela
numa biblioteca do ambiente arrancou com a demolição integral da estrutura
centenária, o que motivou críticas. Câmara justifica decisão com mau estado dos
materiais.
Rafael Tomaz
Albuquerque
22 de Fevereiro
de 2021, 22:20
A Direcção-Geral
do Património Cultural aprovou, em Dezembro de 2017, a reabilitação do edifício
da antiga creche do Jardim da Estrela, mas sem que este fosse totalmente
desmantelado, o que acabou por acontecer na semana passada.
O parecer de
“aprovação condicionada”, assinado pelo então subdirector-geral David Santos,
previa que a intervenção da Câmara de Lisboa na reabilitação deste edifício do
final do século XIX adoptasse uma metodologia que não implicasse “o desmonte
integral do edifício”. Também a memória descritiva do projecto referia que a intervenção
se deveria enquadrar numa operação de “conservação e restauro” de modo a que,
sempre que possível, se mantivesse e aproveitasse os elementos estruturais
existentes.
Todavia, até ao
sábado passado, a câmara procedeu à demolição integral do edifício da antiga
creche, espoletando a contestação da população nas redes sociais, incluindo a
do movimento Fórum Cidadania Lx. Perante a contestação, a Câmara de Lisboa
publicou um comunicado, no domingo, em que justifica a demolição com “a
humidade e infestação por térmitas” de grande parte da madeira que dava forma a
este edifício.
Em resposta ao
PÚBLICO, a Câmara de Lisboa apoia-se num relatório da empresa Spy Building, de
inspecção e diagnóstico das patologias, com data de 8 de Abril de 2016, que
nota que “78% da totalidade dos pilares exteriores encontram-se
degradados" assim como “17% da totalidade dos pilares interiores”.
“Ora, um edifício
com 75% dos pilares exteriores e 17% dos interiores degradados e com ataques de
térmitas corre grave risco de colapsar e foi essa constatação que levou a que
no projecto se considerasse que todos os pilares exteriores deveriam ser
substituídos e cerca de 50% dos pilares interiores”, explica a autarquia,
considerando ser “impossível reabilitar integralmente um edifício que tem a
maior parte dos elementos estruturais que o sustêm degradados sem os
substituir”.
Contudo, um
relatório preliminar de ensaios e levantamento estrutural feito ao chalet pela
mesma empresa, datado exactamente do mesmo dia, que circulou nas redes sociais
e ao qual o PÚBLICO teve acesso, refere que “a madeira da generalidade dos
pilares ensaiados [duas salas], apresentava-se sã”. Esta avaliação refere-se às
observações feitas “a partir da cota de 60 a 70 cm até ao topo do pilar”, não
incluindo assim as fundações.
A autarquia
sublinha que, porém, “foi possível desmontar partes inteiras e emblemáticas do
edifício, sendo que estas peças, devidamente registadas e inventariadas, foram
recolhidas para a oficina do carpinteiro subcontratado, onde serão alvo de
operação de restauro para posterior utilização na reconstrução do edifício”.
A requalificação
da antiga escola Froebel, a primeira creche do país, “obedecerá, e respeitará a
concepção original do edifício tanto nos materiais como no seu interior e nas
fachadas”, garantiu o município.
Ainda assim, o
Fórum Cidadania Lx, que se dedica à defesa do património arquitectónico,
histórico e imaterial da capital, teme estar perante “uma obra que privilegia o
‘pastiche’, rápido e menos oneroso, o que sendo numa obra da Câmara Municipal
de Lisboa, em património histórico, é de rejeitar liminarmente”.
Os trabalhos para
a reconstrução do edifício, que albergará uma biblioteca do ambiente, durarão
seis meses e custarão ao município cerca de 1,15 milhões de euros.
O chalet, desde a
origem destinado a jardim-de-infância, foi concebido para aplicar e desenvolver
no país o modelo de educação infantil do pedagogo alemão Friedrich Froebel, que
veio estabelecer a base do actual ensino pré-escolar, no final do século XIX.
Com projecto de
José Luís Monteiro e Duarte Simões, foi construído no chamado Passeio da Estrela,
em Lisboa, dentro do perímetro do jardim, e acolheu as primeiras classes de
alunos em 1882.
A escola
manteve-se em funcionamento, durante cerca de 120 anos, recebendo crianças
entre os três meses e os três anos de idade.
Texto editado por Ana Fernandes

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