1400 km de fronteira a pé: "Há aldeias que
simplesmente vão desaparecer dentro de poucos anos"
De mochila às costas, um fotógrafo de Leiria pôs os pés
ao caminho e atravessou a mais antiga fronteira da Europa, recriando a demanda
de Duarte de Armas, um escudeiro de D. Manuel I. Atravessou um país
desertificado. E retrata ao DN essa imagem: escolas fechadas, campos de futebol
ao abandono, e linhas de comboio desativadas.
Paula Sofia Luz
24 Julho 2022 —
07:00
Numa noite de
insónia, José Luís Jorge decidiu finalmente dar corpo a um sonho antigo. Um
desafio - físico e mental - que se tornou numa aventura, que foi afinal (mais
um) projeto de vida, a que chamou "Linha de Fronteira": percorrer a
pé a mais antiga fronteira da Europa, entre Espanha e Portugal, num total de
1400 km.
A ideia marinava
há anos na cabeça deste repórter fotográfico de profissão, viajante de paixão.
Já escreveu e fotografou para revistas como a Volta ao Mundo ou a Up (da TAP),
porque o prazer de viajar e descobrir histórias, pessoas e lugares vive com
ele. Desta vez, tratava-se de reproduzir nos tempos atuais um feito descrito
por Duarte de Armas no Livro das Fortalezas, um manuscrito quinhentista no qual
se inspirou. Não foi o único, nem o primeiro. "Sabia que há uns anos uma
senhora o tinha feito. Mas não da mesma forma que o fiz", conta ao DN José
Luís Jorge, regressado da etapa final desta viagem em meados de junho.
Refere-se a Isabel Pessôa-Lopes, que em 2012 percorreu as fronteiras continentais
marítimas e terrestres. Mas José Luís Jorge tinha um filão: Atravessar por
dentro o nosso inverno demográfico", perceber como vivem essas aldeias
onde já não há crianças, nem escolas, só campos de futebol abandonados,
terrenos por cultivar e linhas de comboio desativadas.
Mas recuemos até
2020, quando começou a desenhar-se na sua cabeça esta ideia, a que chamou Linha
de Fronteira - projeto que pensa verter em livro, agora que terminou a
caminhada. Debateu-a primeiro com um amigo de longa data, o jornalista Paulo
Moura. Ponderou tudo: os caminhos, a preparação física de que necessitaria, e
foi treinando. Até que decidiu que haveria de dividir esta caminhada em três
etapas, de modo a cumprir os tais 1400 km andarilhados, desde o Minho à foz do
Guadiana.
"Para ser
rigoroso, o verdadeiro alvo do meu interesse era a Raia , o espaço contíguo à
invisível linha que delimita Portugal e Espanha, definida por cursos de água e
por paralelepípedos retos numerados, os marcos de Fronteira, a representação
física da ideia de país", conta ao DN, num almoço-catarse em que revê
lugares, pessoas e histórias desses dias, que foram [três] meses. Partiu então
a 27 de setembro de 2021, da foz do rio Minho, e fez até Barca d"Alva - no
rio Douro, a 29 de outubro. As outras duas etapas ficariam já para este ano - a
segunda de 24 de março até 18 abril (de Barca d"Alva à Barragem de
Cedilho) e finalmente a terceira, de 8 de maio a 8 de junho, entre Cedilho a
Foz do Guadiana.
Retrato de um país desertificado
Talvez este
caminho estes 1400 km o tenham mudado, enquanto homem. José Luís Jorge carrega
na bagagem muitos milhares deles, mas dentro do país profundo nunca se
atravessara, desta forma tão afoita. Em Leiria, de onde é natural e mora há 59
anos, ficaram a companheira Emília e os filhos, de 18 e 25 anos. Por onde andou
conheceu "muita e boa gente". "Normalmente procurava ficar nos
alojamentos locais das aldeias, exceto nos casos em que não havia, de todo, e
aí recorria às juntas de freguesia, por exemplo, Encontrei sempre uma
hospitalidade extraordinária", sublinha, relevando um único caso em que
lhe recusaram guarida para estender o saco-cama.
José Luís ia à
procura de um país que já não existe, sabe-o bem. Mas foi muito para além
disso. Ao princípio, pensou num território periférico, o mais longe de Portugal
continental em relação à capital, "durante muito tempo, lugar de confronto
e de vigilância, mas também, sobretudo espaço osmótico, permeável a encontros,
casamentos transfronteiriços, convivência e solidariedade, oportunidades de
comércio legal e ilegal, local de criação de línguas e dialetos, o mirandês, o
estremenho, o barranquenho, e outros. Afinal, acabei por descobrir um conjunto
de línguas e dialetos que nem sequer imaginava".
Houve, porém, uma imagem que o marcou profundamente:
"há dezenas de escolas primárias fechadas pelas aldeias onde passei. Assim
como há campos de futebol ao abandono, e linhas de comboio desativadas. Essas
são, para mim, as três notas que mais me ficam, ao fim da viagem, porque são
sinal desse inverno demográfico que atravessamos. Eu conversei com imensa gente
nas aldeias, com quase todos os presidentes de junta. E as pessoas estão muito
preocupadas, seja no Minho ou no Alentejo. Todas têm esta convicção: se nada
for feito, há aldeias que dentro de 20 ou 30 anos vão morrer,
simplesmente", afirma.
O fotógrafo foi
registando tudo, como seria de esperar. Pelo caminho, estabeleceu uma
colaboração com o Jornal do Fundão. As crónicas deram nas vistas e saltaram
para os Sinais de Fernando Alves, na TSF. Foi na segunda etapa. Nessa altura,
José Luís já se rendera ao Instagram, ele que sempre se mostrara arredio das
redes sociais. Afinal, "revelaram-se muito importantes nesta viagem, para
ir mostrando o país, mas também para que os amigos soubessem por onde
andava". E andou por muito descampado, também. De resto, uma das
dificuldades maiores que enfrentou na viagem aconteceu logo na primeira etapa,
em pleno outono, na zona de Chaves, quando se viu de repente cercado por três
cães de grande porte. "Eram três "castro laboreiro", e na aldeia
onde pernoitei já me tinham avisado para isso. Tive a sorte de aparecer um
carro por ali. Foi mesmo a minha sorte. Por uma vez, senti-me mesmo
ameaçado", recorda. Entretanto, na terceira etapa da viagem, estar-lhe-ia
reservado outro desafio gigante para superar: o calor, no sul.
Agora que já
passou, José Luís consegue minimizar ambos como superados. Mas no momento
"foram duros". Ali, olhando para as paisagens alentejanas, ficou-lhe
outra preocupação: "A aposta na cultura intensiva de oliveira e
amendoeira. Este tipo de agricultura é altamente dependente de água e parece-me
irracional apostar nela em grande escala quando as alterações climáticas
apontam para a escassez de água. É verdade que a oliveira e a amendoeira sempre
existiram nesses sítios mas eram cultivadas em regime de sequeiro", frisa.
De resto, lembra que este tipo de agricultura poucas mais-valias traz para as
populações locais, "pelo facto de ser altamente mecanizada e carecer de
mão de obra". "Nenhuma pessoa com quem falei nesses lugares estava
entusiasmada com este tipo de agricultura", conclui.
O Padre Fontes e Carlos Brito, encontros memoráveis
Ao longo de todo
o caminho José Luís Jorge colecionou encontros improváveis. Foi o caso de
Carlos Brito, o antigo deputado comunista, que agora vive em Alcoutim, à beira
do Guadiana. Tem quase 90 anos, "mas mantém uma lucidez impressionante.
Bati-lhe à porta, apresentei-me, disse quem era, e tivemos uma deliciosa
conversa", relata o fotógrafo ao DN. É que José Luís é genro de um velho
conhecido de Brito (já falecido): Kalidás Barreto. Ambos fizeram parte da
primeira Assembleia Constituinte - Brito pelo PCP, Kalidás pelo PS.
Antes desse
encontro, um outro marcou esta viagem do caminhante. Em Montalegre, tinha
intenções já vincadas de conhecer o Padre Fontes, figura bem conhecida.
"Avisaram-se que está doente, e que tem dias em que não está bem, por isso
era melhor não ir lá a casa. Mas eu ia no meio da aldeia quando o encontrei.
Ele viu-me com os dois bastões e foi ele mesmo que se dirigiu a mim.
Perguntou-me para onde ia e falámos um pouco", conta.
Mas a viagem
fez-se de muita gente anónima. José Luís não esquecerá a aldeia em Terras de
Bouro cujo habitante mais novo tem 35 anos. "É um daqueles casos
preocupantes", reflete. E não se pense que este é o primeiro banho de
realidade que leva, neste campo. Como facilmente se percebe, a família da mulher
está em Castanheira de Pêra, o concelho do distrito de Leiria mais afetado pelo
despovoamento, neste momento onde mora menos gente.
"Percorrer a
raia a pé, a raia portuguesa, não enjeitando a possibilidade de por vezes
caminhar em Espanha, era projeto que me entusiasmava. Caminhar é um verbo cheio
de desafios, exige esforço e determinação mas reserva inúmeras compensações:
tudo está próximo, a cada metro: paisagem, pessoas, sons, cheiros, cores; tudo
se sente com mais intensidade, calor, frio, medo, inquietações", enfatiza
José Luís Jorge. É por isso que tanta informação e imagem condensada lhe parece
suficiente para um livro, que será a próxima etapa do projeto. O que quer dizer
que "Linha de Fronteira alimenta-se do passado e do presente, mas vai
alimentar-se também do futuro". Do passado, porque certo dia o fotógrafo
descobriu o Livro das Fortalezas, resultado do mando de D. Manuel I a Duarte De
Armas para que desenhasse todas as fortalezas do Reino de Portugal edificadas
na fronteira, "e logo fiquei entusiasmado com a possibilidade de repetir o
itinerário do escudeiro da Casa Real; " mas, sobretudo, alimenta-se do
presente, pois desejava entender o que significa a fronteira, agora que a
integração de Portugal e de Espanha na União Europeia permite a livre
circulação de pessoas e de mercadorias, mais, desejava observar, perceber o
melhor que me fosse possível, como vive essa parte do país tão desconhecida da
outra parte, o litoral". Pelo caminho, atravessou paisagens muito contrastantes
entre si, "uma das riquezas de Portugal", considera. E "além do
retrato do país desertificado e comunidades esquecidas, fiquei a par de
projetos arrojados e de outros desastrosos, conheci toda a sorte de gente,
pessoas comuns, autarcas, empreendedores, charlatães e figuras com destaque
Social". Lá longe, na raia, ficou também uma parte do que o levou a esta
viagem: a memória do contrabando. "Cruzei-me com dezenas de
contrabandistas, pessoas que faziam desse o seu modo de vida, até aos anos
90", conta, referindo-se a pessoas de todas as idades e condições sociais.
Muito do que viu e ouviu está registado em mais de 6000 fotografias e 80
vídeos. Parte dessa memória há de constar do livro. Sem pressa, como tudo na
(sua) vida.
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